Da América à Europa , de Trump a Clinton, de Marine Le Pen a Macron, a mesma presença como pano de fundo, o estado subterrâneo em ação – Texto 1. Porque vai David Brock dizer o que for preciso a favor dos Clintons – por Ian Tuttle

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto 1. Porque vai David Brock dizer o que for preciso a favor dos Clintons – por Ian Tuttle

6 de março de 2015

 

David Brock

David Brock

Ele sabe que a lealdade compensa

Ninguém fugiu de uma campanha tão rapidamente desde Berezina[1].

No domingo, Hillary Clinton marchava firmemente para as ensolaradas terras altas da nomeação presidencial democrata, tinha o partido a seus pés. Quatro dias mais tarde, depois das revelações de que ela utilizou uma conta de e-mail privado num servidor privado para evitar o escrutínio público, enquanto Secretária de Estado – desta forma viola a lei federal e coloca em risco segredos de Estado – os decisores chefes dos democratas estão em retirada, supostamente à procura de uma alternativa viável. Mesmo os media que habitualmente a defendem estão, curiosamente, ausentes.

Quer dizer, todos mas com uma exceção: David Brock, um angariador de fundos de Clinton, fundador da máquina rotativa Media Matters for America, um assassino político ao serviço da direita que virou assassino político ao serviço da esquerda. Uma espécie de Pompadour protetora de Hillary.

Na quarta-feira, Brock esteve no programa Morning Joe da MSNBC, onde argumentou que “a premissa” da história do New York Times “caiu por terra “, porque Hillary Clinton não violou nenhuma regra – e isto apenas alguns momentos depois de um dos moderadores do programa, Mika Brzezinski, lhe ter lido um regulamento de 2009 em que se exige que quaisquer e-mails criados em contas privadas de correio eletrónico dos funcionários federais devem estar protegidos, uma regra que Clinton claramente violou. Brock voltou a negar que tenha ocorrido uma qualquer violação. O espanto de Brzezinski foi imediato: “Eu não tenho a certeza de qual o planeta em que estou agora.”

Isso não é um caso raro nos dias de hoje, sobretudo quando se trata de Brock, que é bem conhecido pelo seu comportamento estranho. Ele teria passado parte do ano de 2010 a esquivar-se dos “atiradores especiais” de direita nos telhados das casas, com a ajuda sempre presente dos seus guarda-costas armados e de pessoal de segurança protegendo a sua elegante moradia nos subúrbios de D.C.; e no mês passado citou ” um ataque ao seu trabalho orquestrado politicamente ” como sendo o motivo da sua saída abrupta do conselho de administração da pró-Hillary Super PAC Priorities USA Action.

Mas Brock é, também, um elemento de grande sucesso de jornalismo de escândalos de esquerda. Desde 2004, Media Matters tem envenenado as fontes de informação da direita, de Glenn Beck a Rush Limbaugh e à Fox News, procurando pôr em evidência a “desinformação” dos conservadores. A organização emprega 45 investigadores, e a cada um deles foi atribuído, em Fevereiro, a função de escarafunchar nos arquivos de Bill O’Reilly, num esforço para progredir na história publicada na revista Mother Jones sobre as declarações do popular jornalista, hóspede da Fox News, ao tempo da guerra nas Ilhas Falkland. Esta é uma tática habitual de Media Matters, concentrando todos os seus recursos num único alvo: Glenn Beck, Rush Limbaugh; em 2011, Brock declarou “guerra contra a Fox.” (Um simples olhar para o sítio “Media Matters” mostra que muitos dos investigadores sobre O’Reilly foram transferidos a tempo inteiro para trabalharem na defesa de Hillary Clinton.)

E Media Matters obtém resultados. Sobre a Denúncia Diária feita pelo Media Matters durante o ano de 2008, o correspondente da Fox News Tucker Carlson referia que Media Matters nos seus primeiros anos tinha uma linha direta para o presidente da MSNBC, Phil Griffin. “Fomos muito bem-sucedidos a escrever para o seu horário nobre”, disse um ex-funcionário de Media Matters a Tucker Carlson. Contribui, também, para o conteúdo dos principais blogs de esquerda (Huffington Post, Daily Kos, Salon) e para as principais fontes de notícias tradicionais (o New York Times, o Los Angeles Times, o Washington Post, etc.). Media Matters foi determinante no despedimento do humorista Don Imus em 2007, e interferiu nas decisões da administração Obama, trabalhando com Valerie Jarrett [2] e com o Departamento de Justiça. Em Novembro de 2014, o ex-Diretor Executivo de Media Matters Matthew Butler, foi nomeado para um lugar na U.S. Election Assistance Commission.

Mas os alvos de Brock não são apenas aqueles que estão sob os holofotes dos estúdios da TV. Claire McCaskill (senadora do Missouri pelo partido Democrata) ainda é senadora em grande parte graças à American Bridge PAC, uma operação de Brock que captou a monumental gafe de “estupro legítimo” de Todd Akin frente às câmaras [3], descarregou o filme no YouTube e a seguir o difundiu para as mais importantes agências de notícias a nível nacional. A gafe foi filmada por um das várias dezenas de operadores “rastreadores”, cuja função é gravar cada declaração pública (e declarações privadas que possam tratar) proferida pelos candidatos republicanos importantes. Os vídeos são tratados numa base de dados central, e são pesquisáveis por nome, tópico e palavra-chave.

É apenas uma parte de um enorme esforço feito pela esquerda em estilo de luta de guerrilhas contra a oposição, que envolve não apenas operadores de câmara em campo, mas também investigadores mergulhados em jornais antigos, microfilmes, e nos cantinhos mais poeirentos da World Wide Web. Quando surgiram rumores de que Mitt Romney estava a ponderar a possibilidade de o senador Rob Portman, de Ohio, ser o seu candidato para a vice-presidência em 2012, American Bridge PAC publicou em linha um livro de 347 páginas de oposição contra ele. Em preparação para 2016, a organização divulgou em Dezembro um relatório preliminar sobre os 20 possíveis candidatos republicanos, detalhando tudo, desde a participação de Bobby Jindal numa sessão de exorcismo até à história do atropelamento de um motociclista por Chris Christie em 2002 [4]. American Bridge PAC (e iniciativas semelhantes em várias das quais Brock está envolvido) vêem-se elas mesmas como não fazendo nada mais do que mudar a textura das campanhas políticas americanas.

Nada disto invoca os Clinton. Mas os grandes volumes de dinheiro, big Money, as fortes influências políticas liberais não estão distantes da “máquina” Clinton a qual, após um quarto de século na vanguarda da política americana, exerce um poder enorme. E David Brock iniciou-se com os Clinton – ainda que, através de uma via muito tortuosa.

Como um assassino político de direita, arrancado de Berkeley por John Podhoretz e pelo Washington Times, depois empregado pela Heritage Foundation e por The American Spectator, Brock torna-se depois a maldição dos Clinton quando faz rebentar o caso “TrooperGate” em 1993 (as alegações de Paula Jones o que fariam, é claro, foi abrir o caminho para o escândalo Lewinsky mais tarde). Três anos depois, Brock escreveu o livro sobre Hillary Clinton – literalmente: The Seduction of Hillary Rodham -, mas surpreendeu o establishment político quando pouco depois renunciou às suas lealdades para com a direita, pediu desculpas a Bill Clinton pelo caso Troopergate ( não foi, disse ele, “ no interesse de um bom governo ou do jornalismo sério”) e reaproveitou o seu conhecimento em primeira mão do aparelho de angariação de fundos e dos dispositivos de investigação dos conservadores de combate à oposição, para criar redes semelhantes agora de sentido oposto, à esquerda, passando-se com armas e bagagens para o serviço dos Clinton. Embora nunca tenha estado na folha das remunerações, Brook tem sido desde então um partidário leal dos Clinton.

E de lealdade, é bem sabido, os Clintons são extremamente ciosos. No seu livro de 2014 HRC: State Secrets and the Rebirth of Hillary Clinton, Amie Parnes do The Hill e Jonathan Allen do Politico escreveram que, durante as ferozmente disputadas primárias dos democratas em 2008, os assessores de Clinton mantinham uma lista negra dos democratas que deslocaram os seus apoios de Hillary Clinton para Barack Obama. A lista negra incluía John Kerry, bem como toda uma série de legisladores. “Anos mais tarde”, escrevem Allen e Parnes, dois assessores de Clinton “faziam piadas sobre o destino de pessoas que segundo eles tinham traído Clinton. ‘Bill Richardson: investigado; John Edwards: arruinado pelo escândalo; Chris Dodd: demitiu-se’, diziam um para o outro. ‘Ted Kennedy’, continuou o assessor, baixando a voz ao nível do murmúrio para desfecho das piadas, ‘morto’ ”. Considere a reflexiva mentalidade de guerrilha tipo homem de barricada como é o caso dos assessores Cheryl Mills, Jacob Sullivan, e Huma Abedin e do conselheiro Sidney Blumenthal. Nos círculos Clinton, o pior pecado é a infidelidade (do tipo político, sublinhe-se).

Os Clinton têm cultivado esta atmosfera e é em momentos como o presente que a fidelidade cumpre a sua razão de ser. A ausência de uma resposta eficaz para o imbróglio atual por parte dos círculos de Clinton – o único reconhecimento “oficial” de uma controvérsia é uma única mensagem risível da conta do Twitter de Hillary – é, sem dúvida, uma manobra estudada de um casal que já passou por isto antes. Desde Whitewater ao escândalo da Rose Law Firm (ligado este aos processos que envolveram uma Loans and Savings, Madison Guaranty, e ilegalidades na Castle Grande), tudo isso mostra que Hillary Clinton sabe como lidar com tempestades.

E o que os faz estar preparados para tempos difíceis com respostas viáveis é a cultura de lealdade agressiva que encontra o seu mais alto expoente em David Brock, que confere à causa Clinton uma mistura única de palhaçada, de auto-estima e de eliminar uma hipercompetência. Brock consegue capitalizar a oportunidade não para provar que é leal, mas para provar que ele é o mais leal – o discípulo que não fugiu – e colher os benefícios quando tudo isso é uma nota de rodapé, porque sabe que Hillary vai sobreviver – é o que ela faz – e ele está satisfeito em ser o palhaço agora à espera de ganhos futuros. Enquanto isso, os Clintons recebem a proteção de alguém que funciona em regime de gestão autónoma, que é um defensor notoriamente agressivo das suas causas  e que tem a sua própria maneira de relatar as histórias. Por causa da sua independência eles não podem controlá-lo. Mas mesmo que ele fosse um míssil não-guiado, Brook tentará fazer muitos danos à construção de uma qualquer narrativa anti-Clinton.

Assim, visto de Chappaqua [morada do casal Clinton], o facto de Mika Brzezinski ter ficado sem saber que dizer importa pouco. Tal como os Clinton sabiam que o faria, David Brock assumiu a defesa dos Clinton e será recompensado justamente em devido tempo, como é habitual nos Clinton.

Excelente trabalho, bom e fiel servidor.

— Ian Tuttle é sócio William F. Buckley Jr. no National Review.

Leia o original em: http://www.nationalreview.com/article/414985/why-david-brock-will-say-anything-clintons-ian-tuttle

[1] NT. Sinónimo de desastre, em referência à batalha de Berezina (na atual Bielorússia) travada em Novembro de 1812, em que Napoleão bate em retirada perante o exército russo

[2] NT. assessora principal do presidente Obama de 2009 a 2017

[3] NT. “…women who are victims of what he called “legitimate rape” rarely get pregnant…”, as mulheres que são vítimas do que ele apelida ‘estupro legítimo’ raramente engravidam. Frase que levou à sua derrota nas eleições de 2012 e ao fim da sua carreira política. Vd. https://en.wikipedia.org/wiki/Todd_Akin

[4] NT. vd. http://talkingpointsmemo.com/dc/christie-caught-in-apparent-lie-about-2002-traffic-accident-lawsuit

 

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