EDITORIAL – Regressos ao futuro com passagem pelo passado – por Carlos Loures

Uma das vantagens dos editoriais personalizados é a de podermos abordar questões pessoais. É o que hoje vou fazer.

Foi o nosso Leça  da  Veiga quem disse que (salvo erro) depois dos 70,  todos devemos ter a  mala preparada para -a grande viagem, aquela em cuja inevitabilidade  só o Agostinho da Silva disse ao MEC não acreditar. Acumulamos papelada que tanto pode não ter qualquer préstimo como vir a converter-se numa fonte primária útil a um qualquer investigador futuro. Um outro médico (transmontano), deu-me um conselho  -«não facilites a vida a esses sacanas – queima tudo e eles que se danem a tentar descobrir o que quiserem saber». Os destinatários do espólio que as visitas da PIDE me fazia, empobreceu, estão a receber os meus dossiês, agradecendo. E ao abrir sacos e caixas, vou eu próprio ficando surpreendido. Realidades que mitifiquei, são  abaladas ou mesmo destruídas por evidências.

As surpresas são frequentes. Não falando em nomes, há poucos anos, dois portugueses que viviam em Paris, um docente da Sorbonne e um pintor, envolveram-se numa complicada polémica. Em certo momento da querela, escreve um deles – «Nunca enverguei o uniforme da Mocidade Portuguesa». Queria afirmar a sua precoce resistência ao fascismo. Falácia em que o outro não acreditou, pois a integração na «patriótica organização para a juventude» era obrigatória. Então não é que nestes mergulhos no passado, descubro uma foto do tal democrata impoluto, com o uniforme da MP (eu fazia parte do mesmo “castelo” e também lá estou). Salvo erro, a foto foi tirada no Colégio Moderno, da família Soares. No verso da fotografia está escrita a data e a referência -«Castelo vencedor da Prova do Infante no Distrito de Lisboa» (um «castelo» era formado por seis «quinas»; uma «bandeira» comportava, salvo erro, três castelos. A unidade mais importante ere a «falange». formada por três «bandeiras»- talvez esteja a meter água e o assunto não merece grande aprofundamento.

Um comandante de falange esteve há anos envolvido num escândalo financeiro. Um diplomata distinto (elemento do «meu» castelo, alegando falta de posses, nunca comprou o uniforme como a todos foi exigido. Lá está ele, perfilado como todos, com uma camisa que o centro lhe emprestou – na foto a preto e branco, a camisa parece branca de tantas vezes ir à ´barrela. E está também um amigo meu e do Leça da Veiga que, após um desfile em frente ao Convento de Mafra, entrou comigo e mais dois «filiados» numa taberna que já não existe e pediu um «copo de três» – o «comandante de castelo» viu e fomos os quatro ameaçados por «desrespeito» ao uniforme em cujo cinto brilhava um enorme S. Toda a gente sabia que era uma homenagem a Salazar. A versão oficial sobre o significado da fivela era «servir, sem sacrifício».

Lá íamos, «cantando e rindo».

a

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

One comment

  1. Carlos A P M Leça da Veiga

    Fico imensamente feliz por fazeres o favor de incluir-me neste pequeno rol das tuas memórias. Começo a acreditar no sábio Agostinho da Silva pois, há muito, que já lá vão os setenta e, felizmente, ainda tenho algumas coisas para colocar na mala Abração amigo do CLV

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: