A OPINIÃO DE DANIEL AARÃO REIS – Aqui e agora

Aqui e agora

 

Não, Gilberto Gil, o melhor lugar do mundo não é aqui e agora, como v. disse tão bem em sua formosa canção.

Já se falou quase tudo – e o seu contrário – das delações: verdadeiras, mentirosas, sérias, cínicas, sinceras, extorquidas, eficazes, inúteis. Faltaria aduzir que são melancólicas – e deprimentes. É um exagero comparar o momento em que vivemos aos tempos da ditadura. Mas é fato inegável que os delatores não são movidos pelo arrependimento, por uma atitude autocrítica ou por um assomo de sinceridade. O que os move é a força do medo – do isolamento,  da solidão da cadeia, das perdas materiais e afetivas relacionadas à vida no cárcere. A sistemática das delações corre o risco de substituir investigações e produção de provas. Bastaria prender e espremer o preso com a perspectiva de um futuro gradeado. O resultado é rápido: as línguas se soltam, os envolvidos  entregam-se uns aos outros, as amizades se desfazem, instaura-se o salve-se quem puder. O método é eficaz, sem dúvida.  Será, porém, construtivo do ponto de vista moral? Já somos uma nação de torturadores e torturados. Passaremos a ser uma nação de delatores e delatados?

A sociedade não está diante apenas de um ou outro corrupto. Para tristeza de muitos, não foram apenas os petistas e o PT que se “lambuzaram”. As acusações alcançaram o PMDB, o PSDB, o DEM e tutti quanti, ou seja, todos, sem exceção, salvo as de praxe.   Como dizia L. Brizola, sempre irônico, formou-se um “mar de cumplicidades”. Talvez fosse o caso de ampliar a metáfora: um “oceano de cumplicidades”.

É um sistema que está em questão.

Alguém pode ser ingênuo de imaginar que a corrupção  limitou-se a empreiteiras e a políticos? O patriarca Odebrecht foi claro: eles estão operando há décadas. Só empreiteiras e políticos? Nada mais? Os poderes Legislativo e Executivo vão para o inferno. E o Judiciário, nomeado pelos dois primeiros, é inocente como as noivas de antanho? As empreiteiras são corruptas até à medula. E os bancos que as financiam, estão acima de qualquer suspeita? Devemos acreditar neste enredo? E esta gente toda, as lideranças do país, quais os laços que  as articulam com o conjunto da sociedade? Serão marcianos ardilosos que se infiltraram, solertes,  no puro corpo da gentil nação e, aproveitando-se da distração geral, realizavam “tenebrosas transações”? Não terá chegado a hora de se  inquirir sobre as bases sociais e históricas deste processo?

Não seria o caso de compartilhar por igual  as responsabilidades. Um ex-presidente, um dia, declarou com ar cândido que “todos nós” éramos responsáveis pelo latifúndio.  Outro, seu sucessor,  não menos inocente, confessou que “fizemos o que todo o mundo faz”.

Todo o mundo é ninguém, dizia um antigo romano. Há responsabilidades coletivas, sem dúvida. Afinal, estas elites aristocratizadas não desceram do céu. Subiram às altitudes que habitam a partir das vontades – e dos votos – de milhões. Todavia, nos andares de cima, cometeram “deslizes” de sua exclusiva responsabilidade, pelos quais devem pagar. É o mínimo que se pode exigir.

Agora, investigar, prender, julgar, absolver e condenar são tarefas da polícia e dos tribunais, de preferência dispensando delações, pois é velho princípio do Direito que nemo tenetur se detegere, ou seja, ninguém é obrigado a se descobrir.

Trata-se, entretanto, de algo maior do que prender e condenar meia dúzia – ou duas dúzias – de cabeças coroadas. Elas são apenas expressão de um sistema. Sem mudá-lo, dele continuarão brotando as aberrações que desfilam pelos noticiários políticos e policiais.

Para mudar tudo isto, a maioria, segundo pesquisas,   continua acreditando nos “salvadores da pátria”. É uma hipótese tradicional. Daria para  ressuscitar o pai dos pobres e o homem da vassoura?  Parece tarefa impossível, por mais religioso que seja o país. Há outros ainda à mão: é verdade que o caçador de marajás anda meio desmoralizado, mas  o herdeiro de Vargas, apesar de enrolado, continua firme nas preferências populares. E há os novos, também subindo nas cotações: o prefeito-empresário coxinha,  dublê de homem de TV, e o militar fanfarrão de extrema-direita.   É uma carta em que se pode apostar, fiel às  tradições brasileiras.  Valerá a pena continuar com este jogo? Neste caso, infelizmente provável, o país continuará andando em círculos.

Há, contudo,  uma outra via: encarar a dimensão sistêmica da crise, identificar os elos que podem ser atacados,  e elaborar, discutir e propor plataformas para reformá-los de modo inovador.

Algo a ser feito aqui e agora, antes das eleições, para que estas possam ser um momento de efetiva mudança.

Em fábula narrada por Aldous Huxley, estranhos pássaros de bico alaranjado, numa ilha perdida, viviam gritando: “atenção, vamos, rapazes, é aqui e agora”! Na Terra dos Papagaios faltam pássaros de bico alaranjado.

 

 

Daniel Aarão Reis

Professor de História Contemporânea da UFF

Email: daniel.aaraoreis@gmail.com

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