Da América à Europa, de Trump a Clinton, de Marine Le Pen a Macron, o estado subterrâneo em ação – Texto 4. Em Washington, a máscara da benevolência está a desintegrar-se – por Paul Craig Roberts

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto  4. Em Washington, a máscara da benevolência está a desintegrar-se

por Paul Craig Roberts, 7 de março de 2017

As poucas semanas da presidência de Trump foram suficientes para deixar claro que ainda não é desta vez que haverá mudança. As relações normais com a Rússia são deixadas para segundo plano senão mesmo abandonadas. As necessidades materiais do complexo militar e de segurança de um inimigo para justificar os seus orçamentos e os seus poderes estatais de polícia e as necessidades ideológicas dos neoconservadores para a hegemonia mundial dos Estados Unidos, são consideradas mais importantes do que a confiança entre as potências nucleares. Quanto à esquerda liberal/ progressista eles consideram que trabalhar para preservar a vida na Terra é um mero pretexto para se ser suave com os russos e com os que cometem traição por favorecerem relações amigáveis com a Rússia.

A classe trabalhadora norte-americana descobriu que não tem no governo de Trump maior representação eleitoral do que a que têm os russos. Tendo sido prevenido pelas grandes empresas, elas que estão a gastar milhares de milhões de dólares recomprando as suas próprias ações, que elas estão demasiado pobres para pagar os salários dos Estados Unidos, Trump concluiu então que o caminho para a segurança económica da força de trabalho americana se encontra na redução do imposto sobre as sociedades. As manifestações de políticas de identidade fazem-se a favor da abertura das fronteiras para os muçulmanos e para os hispânicos e das instalações sanitárias para os transsexuais, não manifestações pelo pão e pela paz, e pelo desejo de levar a um impeachment de Trump porque ainda não está em guerra com a Rússia.

Os compromissos russofóbicos de Trump, tais como McMaster, Mattis, e Fiona Hill são realmente piores do que Victoria Nuland de Obama, Samantha Power and Susan Rice. Assim, tal como Hillary e Nuland levaram a uma mudança de regime para a Ucrânia, Tillerson no Departamento de Estado sinalizou uma mudança de regime do governo democraticamente eleito na Venezuela. Equador e Bolívia não lhe ficarão muito atrás.

Washington nunca apoiou governos que tenham colocado os interesses dos seus povos à frente dos interesses daqueles que governam os EUA. Da África à América do Sul, da Indonésia a Cuba, do Vietname ao Irão e ao Egito, Washington sempre representou de forma deturpada as forças de mudança como comunistas. Washington derrubou o primeiro governo democraticamente eleito no Irãohttp://www.history.com/this-day-in-history/cia-assisted-coup-overthrows-government-of-iran), o primeiro no Congo (https://www.theguardian.com/global-development/poverty-matters/2011/jan/17/patrice-lumumba-50th-anniversary-assassination), o primeiro no Egipto ( http://www.timesofisrael.com/announced-as-president-of-egypt/ ), e um grande número de outros. Leia Stephen Kinzer Os Brothers. Leia General Smedley Butler, que disse que ele e os fuzileiros navais dos EUA tornaram a América do Sul segura para a United Fruit Company e para os investimentos dos bancos de Nova York. Leia-se John Perkins, Confessions of an Economic Hit Man. Washington opõe com punho de ferro a uma qualquer mudança democrática. Agora, Marine Le Pen, a candidata favorita à presidência da França nas próximas eleições, está em vias de ser destruída por Washington.

Marine não está na lista aprovada por Washington. As razões são: (1) ela fala pelos interesses franceses, não pelos interesses de Washington ou da União Europeia, (2) ela opõe-se ao Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (APT), em que este acordo dá às multinacionais globais a imunidade face às leis francesas contra os organismos geneticamente modificados, às leis francesas do trabalho, às leis de proteção ao meio ambiente e a segurança, (3) ela defende a opinião dos franceses de que estes são franceses e não “europeus” e quer sair da União Europeia, e (4) ela quer a França fora da NATO, que usa a França como uma ferramenta para a agressão norte-americana.

Washington atacou primeiro Marine através dos seus lacaios na imprensa francesa e no governo, tendo conseguido que fosse anulada a sua imunidade parlamentar. Alcançado isto, ela é agora acusada de “desvio de fundos da UE.”

A acusação, é claro, é uma farsa, um caso urdido (frame-up). A acusação, se se revelar eficaz, dependerá da representação que a imprensa francesa prostituída faça de Marine Le Pen como um “fascista” a representar o nacionalismo francês. Hoje, se uma pessoa Europeia é leal ao seu próprio país e não à UE, a pessoa é considerada um “nacionalista”, um termo que foi fundido com “fascista”. A consequência é que ninguém em França, se quer ver representar o francês como sendo um “fascista”.

Marine Le Pen perdeu a sua imunidade parlamentar porque ela colocou fotos de vítimas ISIS no Twitter. As fotos que ela colocou são precisas e corretas, simplesmente expressam a verdade. Mas a acusação é que dizer a verdade acerca do ISIS significa que somos anti-muçulmanos, que hoje é como ser anti-judeu, anti negros, anti-homossexual e anti transexual. A proteção da Política Identitária estende-se agora não só aos refugiados muçulmanos de guerras provocadas pelos Estados Unidos que estão a invadir o mundo ocidental, mas também ao ISIS. As fotografias precisas e verdadeiras violaram a Política Identitária.

O consenso dos poucos que na Europa estão fora da matriz criada para eles por Washington e pela prostituída imprensa americana é que a CIA não irá permitir que Marine Le Pen se torne presidente da França. Ela constitui uma ameaça para o império de Washington. Se ela não puder ser destruída com escândalos e falsas acusações, como Dominique Strauss-Kahn, ela irá ser assassinada.

A democracia não pode funcionar sem uns media honestos. Em nenhum lugar do mundo ocidental hoje existe uma imprensa honesta. Há relativamente poucos sites nos meios de comunicação de Internet, como este, o seu site, que são independentes das elites dominantes e que falam verdade na medida em que a podem encontrar. Mas o muito sombrio site PropOrNot, provavelmente um produto da CIA ou de George Soros, declarou que aqueles que entendem que as boas relações entre as potências termo-nucleares são essenciais, são então “agentes russos.”[1]

Uma dúzia de Satan 2 ICBMs russos são o suficiente para destruir os Estados Unidos. Um é suficiente para destruir a França, o Reino Unido, ou o Texas. (http://www.telegraph.co.uk/news/2016/10/25/russia-unveils-satan-2-missile-powerful-enough-to-wipe-out-uk-fr/ )

Porque é que Washington e os fantoches europeus, canadianos, australianos convidam a um tal resultado com falsas acusações contínuas contra a Rússia (e a China)? Nenhuma pessoa com alguma inteligência pode, eventualmente, considerar o três vezes presidente eleito da Rússia como ” um novo Hitler”, ” um bandido”, um “Don da Máfia”.

Orquestrando a russofobia no Ocidente, Washington pôs toda a humanidade em risco. Os russos presenciaram falsas acusações de Washington contra o Afeganistão, Iraque, Síria, Somália, Líbia, Yemen, Paquistão, Irão e contra a própria Rússia – “invasão da Ucrânia.” As falsas acusações têm sido sempre, no século 21, feitas para o país alvo de uma próxima invasão ou um próximo bombardeamento.

Estas provocações emitidas diariamente pela imprensa ocidental idiota, os governos ocidentais idiotas e os não menos idiotas comentadores preparam o terreno para um mal-entendido de que pode resultar em guerra termo-nuclear e o fim da vida na Terra.

Quando se lê o New York Times, o Washington Post, ou se ouve a CNN, NPR, ou a MSNBC ou os media britânicos, canadianos, alemães, franceses e australianos, estamos a ser doutrinados para uma guerra com a Rússia (e a China) e, então, isso sim, estamos a preparar o nosso próprio funeral.

Habituados a procurar a esperança dentro do seu próprio país, os americanos ficam deprimidos quando se deparam com este tipo de factos. Considerando que a oligarquia americana é muito forte para que possa mudar, a situação na Europa é mais esperançosa. A UE é um conjunto de países que têm pouco em comum. Os britânicos concluíram que submergir a sua identidade em algo chamado “Europa” não é do seu interesse. Outros países tais como a Hungria, a República Checa, a Grécia e Portugal, estão a perceber que o capitalismo é mais ganancioso e voraz do que os comissários e poderão procurar uma saída da crise através da recuperação da sua soberania. A saída da União Europeia, uma organização patrocinada pela CIA, poderia ganhar novo impulso.

A NATO também se poderá desmanchar, à medida que as populações europeias percebam que não é a Rússia que é a ameaça. A ameaça é sim feita por Washington que está a forçar a Europa a entrar em conflito com a Rússia, um conflito em que a Europa não tem nada a ganhar. Para a Europa, um conflito com a Rússia significa a morte da Europa. Alguns europeus ganharam a sensibilização suficiente para começar a perguntar: “Porque é que morremos pela hegemonia de Washington”.

Esta é a pergunta de Marine Le Pen, e que agora está a começar a ser também levantada na Alemanha. Como os europeus ganham consciência da insanidade de Washington, a questão vai continuar a levantar-se por mais gente. Os milhões de refugiados muçulmanos de guerras de Washington que estão a inundar a Europa com problemas, estão a colocar os despreocupados europeus perante o preço de aceitar a direção de Washington como se seja seu vassalo.

As privatizações, que destruíram as perspetivas para a Letónia, Ucrânia e Grécia, que fizeram subir os custos e que baixaram os níveis de vida na Grã-Bretanha e na França, enquanto se verifica uma concentração de rendimento e de riqueza no topo da escala da distribuição de rendimento, tudo isto é uma perfeita lição aos europeus de que as socializações parciais da social-democracia são mais habitáveis do que o sistema de pilhagem que agora domina e faz lei.

A máscara da benevolência de Washington está a desfazer-se, revelando a face da ganância e do mal que é, de resto, a sua verdadeira face. Esta face é muito mais terrível do que a orquestrada “ameaça russa”. Se mais europeus ganharem consciência, a ameaça de guerra termo-nuclear vai desmoronar com a queda do império de Washington.

Leia o original em http://www.paulcraigroberts.org/2017/03/07/washingtons-benevolent-mask-disintegrating-paul-craig-roberts/

[1] Sugiro uma visita ao sítio ProporNot, que opina sobre Paul Craig Roberts conforme se segue abaixo, para nos apercebermos da máquina que está a ser montada para alimentar a russofobia:

“the guy who puts even him in the shade is almost certainly Paul Craig Roberts. An economist who once worked as an editor at the Wall Street Journal and as Assistant Secretary of the Treasury under Reagan, Roberts has since gone off the deep end, contributing regularly to Counterpunch – the journal of the loony, Jew-hating far left – and routinely siding with Putin against the U.S. Indeed, “Putin apologist” is far too feeble a term for Roberts; he’s a hard-core propagandist, pure and simple, serving up breathtaking, bald-faced claims that are almost always the very antithesis of the truth.”

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