A GALIZA COMO TAREFA – indianos – Ernesto V. Souza

Castelao, “O emigrante” 1918

Emigrar é uma resposta individual, desesperada e violenta ante a incapacidade de dar solução a um problema coletivo, de enfrentar uma situação de opressão e frustração económica, ideológica, política, jurídica, social, nacional ou de classe.

Emigrar fisicamente é doloroso, não apenas porque comporta um deslocamento geográfico dos espaços, dos costumes, das presenças amigas e dos carinhos; é doloroso porque a vida se estira e se não rompe completamente.

Não deixam de ter-se duas residências, duas vidas, duas mentes, duas realidades, duas ocupações e preocupações, duas línguas até. Não se está plenamente onde se vive e também não se está realmente de onde viemos. Não se existe onde queremos, e onde vivemos se inexiste. A fantasia saudosa da origem transtorna a percepção do lugar de recepção como conflituosa.

Seria quem de encher páginas de sensações e impressões. Mas tanto tem e não é o caso. Trata-se apenas de oferecer contexto para dizer que, com a língua, me acontece sentir parecido.

Luis Seoane, “Emigrante”, 1967

Poderia dizer, em paralelo, que escrever em Português é uma resposta individual, desesperada e violenta ante a incapacidade de dar solução a um problema coletivo. Cada vez mais tenho a sensação de que muitos galegos, mais e mais, estamos a emigrar nela; procurando, nas margens permitidas dos mercados e espaços lusófonos, perseverar com imenso esforço e trabalho.

Dito isto, suponho que haverá, portanto, nas vindouras décadas que esperar alguma cousa de indianos, retornados e das associações que venham fazer estes emigrantes.

Castelao, “O regresso do indiano”, 1916

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