EDITORIAL: A rebelião das massas – por Carlos Loures

José Ortega y Gasset nasceu em Madrid em 9 de Maio de 1883 (m. em 1955)- La rebelión de las masas, é talvez a obra mais marcante do grande pensador castelhano. Publicada pela primeira vez em 1930 na Revista de Occidente por ele fundada.  Obra de uma extraordinária profundidade, nela surge o inovador conceito de «homem-massa», ser humano que recusa e condena a originalidade, proclamando a vulgaridade e as ideias-feitas e lugares comuns como valores. Temos um exemplo desta forma de avaliar a transcendência na actual moda de, com um orgulho imbecil , elevar à categoria de suprema filosofia a afirmação de que se deve «viver um dia de cada vez». Mas não vou entrar no labirinto da sua filosofia, pois corro o risco de, não saber como sair. A não ser que, como Teseu, usasse um novelo de Ariadne, Faltando-me o novelo, fico-me pelo empréstimo do sugestivo título.

Um dos pressupostos revolucionários que nos chegam do século XIX, é o do papel revolucionário das massas. Está por provar que essas massas proletárias, nomeadamente os operários e os camponeses, contenham a carga revolucionária que, não digo os teóricos, mas os activistas políticos lhes atribuem. Não me lembro de nenhuma das revoluções que se verificaram no século XX ser liderada por um proletário – Lenine nasceu numa família da classe alta, Estaline foi um seminarista, Mao um bibliotecário filho de camponeses abastados, Fidel um advogado proveniente de uma família importante de Havana, «Che» um médico… As massas não produzem os seus líderes, eles vêm da aristocracia ou das instituições escolares da burguesia, onde recebem a formação e ganham a consciência de que é necessário extinguir a injustiça social que os beneficiou. Mas as massas são sempre invocadas – É em seu nome que as revoluções se fazem. A ideia não é nova, como pudemos ver pelas palavras de Fernão Lopes na sua Crónica de D.João I. Mais próxima    de nós, a Revolução Francesa mostra como a burguesia ilustrada, impaciente por tomar o lugar da moribunda aristocracia, se serviu das massas populares, envolvendo-as numa trama onde esperava ser protagonista, reservando ao povo o habitual lugar de figurante. Sob o barrete frígio da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, ocultavam-se interesses económicos e ambições políticas da emergente burguesia. Sabemos o que aconteceu. O animal tomou o freio nos dentes e muitos dos que esperavam tomar o poder, ficaram com a cabeça cortada. (1)

Quando se envo( ve o povo numa revolução e se diz que ele é o protagonista, existe sempre o perigo de que acredite. Como aconteceu em Lisboa, em 1385. E em 1974, quando os feiticeiros das tribos convocaram o grande Manitu, o povo acreditou que ia mesmo tomar o poder e sempre que o povo acredita nos feiticeiros, avança e derruba os  santos que encontra pelo caminho. E não há maneira de o povo aprender…Evitando a balbúrdia de «verões quentes», a «democracia representativa» foi criada para impedir que as massas intervenham na cousa pública. A democracia representativa é uma democracia asséptica – ama o povo, mas não lhe suporta o cheiro. Os, cidadãos trabaham, pagam impostos e votam. Os políticos fazem política – «cada macaco no seu galho». usando a filosofia de telenovela. Que é a que as pessoas  «normais» devem seguir. Para quê perder tempo a ler Ortega y Gasset e outros lunáticos?

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Fernão Lopes descreve-nos, a maneira subtil como, num dia de Dezembro de 1383, o Mestre de Avis e o seu partido ( liderado por Álvaro Pais – «homem honrado e de boa fazenda») – após terem morto o conde de Andeiro, tentaram manipular o povo de Lisboa: «Os outros quiseram-lhe dar mais feridas, e o Mestre disse que estivessem quedos e nenhum foi ousado de lhe mais dar. E mandou logo Fernando Álvares e Lourenço Martins que fizessem cerrar as portas que não entrasse nenhum, e disseram ao seu pajem que fosse à pressa pela cidade bradando que matavam o Mestre, e eles fizeram-no assim».No plano do Mestre e seus partidários, o papel dos mesteirais e da arraia-miúda na conjura foi o de figurantes. Sabia-se que a multidão, supondo o Mestre em perigo, acorreria ao paço, impedindo que sobre ele se exercessem represálias pela morte do conde de Andeiro. Assim foi: o povo acorreu de todos os lados, ameaçou incendiar as portas e só se aquietou quando D. João surgiu a uma janela, agradecendo as aclamações da multidão, pediu aos populares que regressassem a suas casas, pois «não havia deles mais mister». Cumprido o seu papel, podiam abandonar a cena. Foi a partir daqui que o plano urdido por Álvaro Pais falhou – a população amotinou-se, linchou o bispo de Lisboa que, recusando-se a mandar tocar a rebate os sinos da Sé, foi considerado implicado na falsa conspiração contra a vida do Mestre. A insurreição alastrou e não se conseguiu evitar o assalto às casas dos judeus e dos ricos da cidade. Como um grande incêndio começado por uma brincadeira com fósforos, a intriga palaciana deu lugar a uma incontrolável Revolução. As massas estavam em movimento.

 

 

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