ERA NA ESCOLA, ERA EM CASA por Luísa Lobão Moniz

Chorei, sujei a página com as lágrimas e as mãos. Ainda me lembro como me foi difícil ler “lá” “le” li” lo” “lu”, pois o que me saía da boca era” al,el il,ol,ul”.

Apesar de as lágrimas não ajudarem o processo de aprendizagem, estas ficaram como recordação de um ensino que tantas vezes me obrigava a ler aquilo que eu não era capaz de ler, ao contrário dos outros.

Era na escola, era em casa.

Na escola, já se sabe, castigos por causa da minha falta de atenção! Tudo o que não sabíamos era falta de atenção, pois o professor já tinha explicado para todos e da mesma maneira.

O acompanhamento que me faziam em casa, acabava sempre em lágrimas, e agora?

Lá veio o dia em que comecei a ler correctamente, não sei como, não me lembro, o que me lembro é que não foi com castigos, mas com estratégias por mim encontradas.

O famoso método de aprender as letras, depois os ditongos e só depois ba,be,bi,bo,bu… este, como qualquer método, ensina a ler e a escrever se a criança para isso estiver preparada e motivada sem medos de falhar.

Mas qual o sentido desta aprendizagem, em que quase tudo era repetir o que estava no livro e todos ao mesmo tempo e em voz alta. Era o momento preferido para aqueles que não sabiam ler, pois limitavam-se a imitar os outros numa lenga-lenga sempre com o mesmo ritmo.

As palavras, quais palavras?!, os sons das vogais e das consoantes dançavam à minha volta, mas eu não conseguia compreender aquela música: b a ba, b e be….. e quando se avançava para as palavras, oh valha-me senhoras didáctica e pedagogia!

Era inevitável que em Portugal, de lés a lés, se começasse a ler pela vogal I de Igreja e que no Natal já todas as crianças soubessem ler.

Sabendo nós que as crianças não aprendem todos da mesma maneira, nem ao mesmo ritmo é evidente que isto era pura fantasia, pois não havia apoio para quem tinha mais dificuldades.

Não “se ouvia uma mosca na sala de aula, porquê? Não era certamente pala capacidade de atenção dos alunos, mas sim por medo dos professores que iam dizer aos pais que os filhos eram preguiçosos e pela reguada que vinha a caminho.

A mosca que não se ouvia, estava em cima das carteiras onde os alunos passavam mensagens, uns aos outros, até alguém ser apanhado e castigado.

As mensagens eram muitas vezes a combinar brincadeiras para o recreio e…às vezes era a gozar com algum colega, ou até mesmo com a professora, de quem os alunos gostavam. Mas era uma tentação.

Era como no capuchinho vermelho em que o capuchinho se deixou levar pela tentação de apanhar todas as flores do campo para dar à avó, sem saber o que lhe podia acontecer, não tanto por ter desobedecido, mas porque sobrepôs o princípio do prazer ao princípio da realidade.

Deixar-se levar pela tentação é, não desobedecer, mas dar resposta ao prazer da sua vontade. Esta vontade que a faria feliz a ela e à avó.

 No final da História da Menina do Capuchinho Vermelho tudo correu bem.

O lobo ficou com a barriga cheia de pedras, segundo algumas versões, e por isso caiu ao rio e não voltou a aparecer, a mãe não castigou e a menina compreendeu o valor da palavra dada, a avó abraçou a menina e que o prazer e a realidade quase nunca se tocam.

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