EDITORIAL: PORTUGAL EM FESTA, por António Gomes Marques

 

O dia 13 de Maio deixou bem feliz uma larga percentagem de portugueses. O Benfica foi campeão, o que fez a felicidade de uma maioria significativa; o Papa visitou Fátima, o que contentou os católicos, mesmo aqueles que não gostarão muito de algumas afirmações de Francisco, e, por fim, Portugal foi o vencedor do festival da Eurovisão, o que terá enchido de alegria o país inteiro.

Poderíamos dizer que a trilogia salazarista -Fátima, futebol e fado- se cumpriu em pleno, mas não o dizemos. O fado, a chamada canção nacional, hoje património imaterial da humanidade, emancipou-se há já muito tempo desta trilogia; não foram apenas os excelentes intérpretes, músicos e cantores, que muito contribuíram para essa emancipação, fruto da acção de mais do que uma geração, mas também os poetas que se juntaram a esta emancipação, para além das escolhas feitas por alguns intérpretes que, há já muito tempo, vêm tendo em consideração poemas de alguns dos grandes poetas portugueses. Claro que não foi apenas no fado. O movimento de emancipação da música portuguesa do choradinho habitual há muito se vem afirmando, sendo o Zeca Afonso o símbolo máximo dessa afirmação, não estando eu aqui a considerar a música clássica portuguesa, cuja afirmação se pode encontrar ao longo da sua rica história, se não em quantidade, seguramente em qualidade.

Se no festival da Eurovisão Portugal apresentou, ao longo dos anos, algumas canções de qualidade, nunca conseguiu despertar a atenção dos votantes, muitas vezes levando à vitória canções de qualidade bem duvidosa e que a maioria das pessoas depressa esqueceu. Este ano, por fim vencedores, podemos orgulhar-nos de ter vencido com música de qualidade e um poema que nos encanta, com um excelente intérprete, resultante da união feliz dos dois irmãos Luísa e Salvador Sobral, bem conhecedores da linguagem musical, o que bem se nota, ela já com uma carreira plena de êxitos no mundo difícil do jazz, ele, que constituiu uma agradável surpresa para a generalidade dos portugueses e para mim em particular, tem agora a oportunidade que merece de se afirmar no mundo da música portuguesa, com uma particularidade para mim de salientar: não tem nada do vedetismo que assalta alguns portugueses quando obtêm um pequeno êxito, por mais insignificante que seja. Salvador Sobral é um anti vedeta, mostrando-se um ser bem consciente do mundo em que vive, atento aos acontecimentos perturbadores do nosso tempo. Bem-haja!

Mas o 13 de Maio, para mim, não deixou de ser uma demonstração do tipo de Presidente da República que temos —ser optimista é algo de necessário ao país, mas não o optimismo irresponsável que Marcelo Rebelo de Sousa vem mostrando, provavelmente sentindo-se na necessidade de espalhar a sua bênção de optimismo, como que a seguir o exemplo do Papa a lançar a sua bênção pascal e de Natal urbi et orbi, da varanda central da Basílica de S. Pedro, no Estado do Vaticano, aos seus fiéis seguidores—, quando, deslocando-se a Fátima, nessa qualidade, portanto em representação do Estado e de todos os portugueses, Estado laico, como se afirma na Constituição portuguesa, se curvou perante o Papa Francisco —penso que não chegou a ajoelhar—, beijando-lhe o anel.

Os resultados do crescimento recentemente anunciado do PIB português não lhe dão razão para tanto optimismo. Que se mostrasse satisfeito com tal resultado, satisfação que eu próprio senti, e que os portugueses em geral também terão sentido, é uma coisa, embandeirar em arco e até durante uma visita oficial a um país estrangeiro, é algo que me parece irresponsável. Esperemos que os próximos trimestres confirmem o crescimento, mas, sobretudo, desejemos que esse crescimento seja mais baseado no crescimento da produtividade do que resultante das receitas do turismo, receitas estas que estarão para durar, pelo menos enquanto os conflitos no Médio Oriente se mantiverem.

Como católico e praticante, como se afirma, tem todo o direito de expressar a sua fé e seguir os ritos da igreja, o que respeito; como Presidente da República, não pode esquecer que representa todos os portugueses, em todos os actos oficiais, e um Estado que é laico. Está imbuído de um poder temporal que, hoje, em extensão territorial, é bem superior ao poder temporal do Papa, agora restringido ao minúsculo Estado do Vaticano. Evidentemente, não quero cometer a descortesia de dizer que o Presidente da República de Portugal se curvou perante o poder temporal do Papa, representante desse minúsculo Estado, mas sim que o representante máximo de uma República como a portuguesa não pode curvar-se perante o representante do poder espiritual de qualquer religião, católica, muçulmana, judaica ou outra. Se um dia, não muito provável, me encontrasse perante o Papa Francisco, ou outro Papa ou outro representante de qualquer religião, tratá-lo-ia com o respeito que qualquer ser humano me exige, mas não me curvaria perante ele, nem lhe beijaria a mão ou o anel. As religiões monoteístas desenvolvem a sua actividade com o sentimento de serem universais, o que eu não me sinto na obrigação de aceitar; respeito todos os fideísmos, mas os crentes têm também o dever de respeitar o meu ateísmo, estando o Presidente da República de Portugal também obrigado a fazê-lo, o que não aconteceu no comportamento que teve em Fátima, no dia 13 de Maio.

Mesmo que, depois, aproveitando uma deixa do Papa Francisco, se tivesse afirmado como peregrino em Fátima.

Não vi imagens da visita que Marcelo Rebelo de Sousa, como Presidente da República, fez à Rainha Isabel II, mas esta sua atitude em Fátima fez despertar em mim alguma curiosidade e irei procurar imagens de tal encontro.

Recentemente, Marcelo Rebelo de Sousa mostrou ter em alta consideração o ex-Presidente da República General Ramalho Eanes, o que lhe fica bem, lamentando eu que, para além da consideração manifestada, não tenha aprendido muito com ele, ou seja, temo que a consideração manifestada por alguém que de facto a merece não tenha passado de mais um episódio do espectáculo em que o actual Presidente da República quer ser não apenas o principal mas também o único actor. Portugal merece mais e melhor!

Chã de Alvares (Casal de Baixo), 2017-05-23

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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