
O dia 13 de Maio deixou bem feliz uma larga percentagem de portugueses. O Benfica foi campeão, o que fez a felicidade de uma maioria significativa; o Papa visitou Fátima, o que contentou os católicos, mesmo aqueles que não gostarão muito de algumas afirmações de Francisco, e, por fim, Portugal foi o vencedor do festival da Eurovisão, o que terá enchido de alegria o país inteiro.
Poderíamos dizer que a trilogia salazarista -Fátima, futebol e fado- se cumpriu em pleno, mas não o dizemos. O fado, a chamada canção nacional, hoje património imaterial da humanidade, emancipou-se há já muito tempo desta trilogia; não foram apenas os excelentes intérpretes, músicos e cantores, que muito contribuíram para essa emancipação, fruto da acção de mais do que uma geração, mas também os poetas que se juntaram a esta emancipação, para além das escolhas feitas por alguns intérpretes que, há já muito tempo, vêm tendo em consideração poemas de alguns dos grandes poetas portugueses. Claro que não foi apenas no fado. O movimento de emancipação da música portuguesa do choradinho habitual há muito se vem afirmando, sendo o Zeca Afonso o símbolo máximo dessa afirmação, não estando eu aqui a considerar a música clássica portuguesa, cuja afirmação se pode encontrar ao longo da sua rica história, se não em quantidade, seguramente em qualidade.
Se no festival da Eurovisão Portugal apresentou, ao longo dos anos, algumas canções de qualidade, nunca conseguiu despertar a atenção dos votantes, muitas vezes levando à vitória canções de qualidade bem duvidosa e que a maioria das pessoas depressa esqueceu. Este ano, por fim vencedores, podemos orgulhar-nos de ter vencido com música de qualidade e um poema que nos encanta, com um excelente intérprete, resultante da união feliz dos dois irmãos Luísa e Salvador Sobral, bem conhecedores da linguagem musical, o que bem se nota, ela já com uma carreira plena de êxitos no mundo difícil do jazz, ele, que constituiu uma agradável surpresa para a generalidade dos portugueses e para mim em particular, tem agora a oportunidade que merece de se afirmar no mundo da música portuguesa, com uma particularidade para mim de salientar: não tem nada do vedetismo que assalta alguns portugueses quando obtêm um pequeno êxito, por mais insignificante que seja. Salvador Sobral é um anti vedeta, mostrando-se um ser bem consciente do mundo em que vive, atento aos acontecimentos perturbadores do nosso tempo. Bem-haja!
Mas o 13 de Maio, para mim, não deixou de ser uma demonstração do tipo de Presidente da República que temos —ser optimista é algo de necessário ao país, mas não o optimismo irresponsável que Marcelo Rebelo de Sousa vem mostrando, provavelmente sentindo-se na necessidade de espalhar a sua bênção de optimismo, como que a seguir o exemplo do Papa a lançar a sua bênção pascal e de Natal urbi et orbi, da varanda central da Basílica de S. Pedro, no Estado do Vaticano, aos seus fiéis seguidores—, quando, deslocando-se a Fátima, nessa qualidade, portanto em representação do Estado e de todos os portugueses, Estado laico, como se afirma na Constituição portuguesa, se curvou perante o Papa Francisco —penso que não chegou a ajoelhar—, beijando-lhe o anel.

