De uma crise a outra, dos anos de Mitterrand aos anos de Hollande, da tragédia de outrora à farsa de agora: Uma outra série de textos 3ª Parte: Os tempos da ascensão de Hollande, tempos do desprezo. Texto 3.2 – Que estratégia eleitoral para 2012 –relatório Terra Nova (Conclusão)

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

3ª Parte: Os tempos da ascensão de Hollande, tempos do desprezo

 3.2. Que estratégia eleitoral para 2012 –relatório Terra Nova

O texto que se segue é constituído por extratos do relatório emitido em maio de 2011 pela Fundação Terra Nova (Prefácio, Síntese, Introdução, ponto I. e ponto III.1), “GAUCHE: QUELLE MAJORITE ELECTRORALE POUR 2012” produzido por um grupo de trabalho presidido por Bruno Jeanbart(*) e Olivier Ferrand(*) e tendo como relator Romain Prudent.

Conclusão (extratos constituídos por Introdução, ponto I. e ponto III.1)

INTRODUÇÃO

Por toda a parte na Europa, desde o fim dos anos 1990, a social-democracia está em declínio. Está hoje em crise. Ela governa apenas em 6 de 27 países [4]. Não foi capaz de capitalizar politicamente a Grande Crise de 2008, que no entanto desqualificou o modelo liberal dominante.

Como explicar este descontentamento político? Há, aqui, certamente, uma crise ideológica. A social-democracia teve e aplicou o seu modelo, o modelo da economia social de mercado, centrado no Estado providência. Este modelo fez a felicidade da Europa durante os Trinta Gloriosos, aliando crescimento, emprego e coesão social em redor da criação de uma vasta classe média cada vez mais próspera. Fragilizado desde o começo dos anos 1980, revela-se hoje incompatível com as novas condições históricas do mundo globalizado. A esquerda está à procura nada menos do que uma refundação ideológica: é necessário inventar um novo modelo de desenvolvimento, enquadrado pelos seus valores mas adaptado ao século XXI [5]. A reflexão sobre o projeto é assim um elemento chave do renascimento político da esquerda.

Mas há outra razão para a crise da social-democracia. Esta tem a ver com a sociologia eleitoral: a coligação histórica que tem sido a peça fundamental para as vitórias eleitorais da esquerda desde há quase um século, e que estava baseada na classe operária, está agora em declínio. Uma outra coligação está a emergir, mas esta coligação moderna ainda não atingiu a sua fase de maturidade. Apanhada entre estes dois eleitorados, com quadros de valores diferentes, a esquerda está em crise. É o caso da França, como no resto da Europa e, mais amplamente, no mundo ocidental.

 

I – ESQUERDA : UMA COLIGAÇÃO ELEITORAL HISTÓRICA EM DECLÍNIO

Desde há trinta anos, em França como em toda parte do mundo ocidental, a sociologia eleitoral da esquerda assiste a uma mudança fundamental: a sua base histórica – os operários – tem estado a desparecer. A explicação é simples: um divórcio crescente entre os valores da esquerda e os do mundo operário.

I.1. O FIM DA COLIGAÇÃO OPERÁRIA

A – A coligação eleitoral da esquerda assentava sobre a classe operária

A esquerda política estruturou-se progressivamente, durante o século XIX, em oposição às remanescências da ordem antiga e ao sistema capitalista nascente. No plano político, ela trouxe a igualdade dos direitos e a liberdade individual – promovendo a República contra a monarquia, a democracia contra a aristocracia, a laicidade contra a influência da Igreja, Dreyfus contra o exército… No plano social, ganhou-se a igualdade de condições, recusando-se a permanecer passiva em face da transformação de uma sociedade de ordens numa sociedade de classes.

O trabalhador é então a figura emblemática do mundo novo: originário dos campos, da agricultura, procedente de uma família de camponeses, vem instalar-se na cidade para encontrar trabalho nas fábricas. Desenvolvendo uma sociabilidade distinta da familiar e aldeã, tende gradualmente a libertar-se das tradições, religiosas e políticas. Na cidade, é um indivíduo liberto da pressão dos seus pares. Na fábrica, é integrado num coletivo de trabalho, onde pode constatar as desigualdades económicas produzidas pelo capitalismo – dispondo apenas da sua força de trabalho, é a vítima direta – e por isso pode denunciar a situação.

A esquerda, embora agregue componentes diversas – aristocratas e burgueses iluminados, professores e funcionários “hussardos da República”,… – encontra na classe operária uma base eleitoral central, com a qual está em sintonia tanto do ponto de vista cultural como económico, base sobre a qual a esquerda vai capitalizar progressivamente.

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A propensão dos trabalhadores em votarem á esquerda vai ser cada vez maior, desde o início do século até aos anos 1980.

Na origem, a população operária é atravessada por certa diversidade política: existem muitos trabalhadores revolucionários, contestatários, reformistas, mas existem também operários mais conservadores, católicos ou mesmo indiferentes. No início do século XX, “pelo menos dois terços dos eleitores que pertenciam [à classe operária] não votavam socialista”. E “em 1928 e 1932, a percentagem dos votos socialistas e comunistas permanecia inferior ao dos trabalhadores da indústria” na população [6].

É com a Frente Popular que a dinâmica se desencadeia,e que os trabalhadores se mobilizam coletivamente em redor da esquerda. Logo a seguir à Segunda Guerra mundial, por ocasião das eleições de 1958 e de 1967-1968, os inquéritos de opinião IFOP dão-nos elementos tangíveis para se ter uma ideia da estruturação do votos: os trabalhadores votam mais à esquerda que o conjunto da população (respetivamente +8 pontos e +14 pontos). “O alinhamento” do voto operário sobre a esquerda reforça-se aquando das eleições legislativas de 1973: os trabalhadores dão então 22 pontos suplementares à esquerda em relação ao voto do conjunto do eleitorado. 68% dos trabalhadores votam então à esquerda; 69% aquando das legislativas seguintes, em 1978 [7].

Esta dinâmica eleitoral é reforçada por uma dinâmica demográfica: a população operária está em expansão. Em 1936, um século depois do início da primeira revolução industrial, representa já 30% da população ativa. No fim dos anos 1970, atinge 37% [8].

Em 1981, a esquerda ganha a eleição presidencial graças a esta dupla dinâmica – e à agregação complementar das classes médias. Na segunda volta das presidenciais, os operários votaram Mitterrand em 72%, contra uma média nacional de 52% (+20 pts).

B – Menos trabalhadores: A diminuição da classe operária…

A partir do final dos anos 70, assiste-se a uma brutal mudança na evolução demográfica: a classe operária, até aí em expansão na população ativa total, contrai-se rapidamente.

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As duas crises petrolíferas de 1974 e 1979 põem em dificuldade vários sectores industriais (siderurgia, metalurgia,…). A partir de 1982, a parte dos trabalhadores na população ativa desce para 34%, o seu nível no início dos anos 50. É o fim dos “Trinta Gloriosos”, o início dos “Trinta Lamentáveis”. Com exceção do início dos anos 2000, a erosão é quase contínua: mais de um milhão de empregos operários foram destruídos desde o início dos anos 1970; em 2006, somente 23% da população ativa era operária [9].

Esta contração é ainda ampliada pela redução ou mesmo perda, do ponto de vista subjetivo, do sentimento de classe. Em 2010, os ativos que se reconhecem como pertencendo à classe operária não são mais do que 6% – um quarto da população operária (contra 23% em 1966 – cerca de dois terços) [10].

A explicação para este fenómeno encontra-se na recomposição interna ao mundo operário. O número de trabalhadores não qualificados decresceu fortemente, enquanto o número de trabalhadores qualificados, adaptados às novas exigências induzidas pelo progresso técnico, tendo acesso à sociedade de consumo e reconhecendo-se mais como pertencendo à classe média, continuou a crescer. Os sectores de empregos evoluíram fortemente: “hoje, dois em cada cinco trabalhadores trabalham no sector terciário: como motoristas, nos serviços de manutenção, condutores de empilhadoras ou de transportes internos nas grandes unidades de intermediação de produtos, nos serviços comerciais como trabalhadores temporários ou de limpeza, em situações profissionais caracterizadas por um isolamento e uma precariedade acrescidas, sem tradições de luta sindical e de ação coletiva” [11]. A dessocialização operária de um lado, a progressão social do outro, a fragmentação das formas e dos lugares de trabalho: a força da identidade operária dissolveu-se num triplo movimento.

 

C- … E menos à esquerda: os trabalhadores não votam mais à esquerda

A partir de 1980, não somente os trabalhadores são cada vez menos numerosos em proporção na sociedade francesa, mas votam cada vez menos à esquerda. Esta tendência é já percetível no final dos anos 70. Se é certamente difícil reforçar divergências já elevadas entre grupos sociais no âmbito de uma dinâmica maioritária, a especificidade do voto operário atenua-se: na segunda volta, a percentagem de votos da esquerda nos operários era superior em 22 pontos em relação ao voto do conjunto dos Franceses em 1978, enquanto em 1981 era de 20 pontos, ou seja uma erosão de dois pontos.

A partir desta data, a erosão acelera-se até tomar contornos de uma verdadeira hemorragia eleitoral nestes últimos anos, como se mostra com o gráfico abaixo. Na primeira volta das presidenciais, a diferença de votos a favor da esquerda entre os trabalhadores e o conjunto dos Franceses passa de +15 pontos em 1981 (66% contra 51%), para +14 em 1988 (63% contra 49%) e depois para apenas +8 em 1995 (49% contra 41%) e cai a ZERO em 2002 (43% contra 43%).

Em 2002, a percentagem de votos à esquerda nos operários é igual à obtida para o conjunto do eleitorado. Deixa pois de haver especificidade do voto operário. Pior, o candidato socialista Lionel Jospin obteve apenas 13% dos sufrágios operários: os operários votaram menos Socialista que o conjunto dos Franceses, que foi de 16% (ou seja -3 pontos). Entre 1981 e 2002, é nos operários que o recuo do voto à esquerda é mais importante: -23 pontos (de 66% para 43%), contra -8 pontos em média para o conjunto do eleitorado (de 51% para 43%).

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A eleição de 2007 confirma a tendência. À primeira volta, os trabalhadores votaram certamente a favor de Ségolène Royal na média dos Franceses. É um sobressalto em relação a 2002, e este resultado deve muito ao posicionamento específico de Ségolène Royal, que apela diretamente às classes populares. À segunda volta, no entanto, os trabalhadores partilharam o seu voto: 50-50 entre Nicolas Sarkozy e Ségolène Royal. Os trabalhadores votam mais por Ségolène Royal que a média do conjunto dos Franceses (+3 pontos). Mas pela primeira vez na história contemporânea, os trabalhadores, que já não votavam mais à esquerda na primeira volta, também não votam mais à esquerda na segunda volta.

A perda do voto operário põe a esquerda numa situação eleitoral crítica. Em 2007, na hipótese de uma participação dos trabalhadores nas urnas de 70% (contra uma participação média de 84%), uma mesma propensão dos trabalhadores a votar à esquerda em 2007 como em 1981 teria permitido uma vitória de Ségolène Royal com 51,5% dos votos (cf. quadro abaixo).

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D- As clivagens no seio da classe operária

No interior destas tendências gerais, é necessário notar que a classe operária também já não é ela tão homogénea quanto o era nos anos 1950. Como começámos por evocar acima:

– o trabalhador especializado, ameaçado no seu emprego, vive uma realidade social diferente do trabalhador qualificado, mais integrado;

– os operários isolados, aos contrário dos trabalhadores de fábrica ou de atelier, não podem integrar-se num coletivo de reivindicação;

– os operários filhos de operários podem ter um sentimento de relegação social e um receio do estrangeiro mais forte que um trabalhador naturalizado ou procedente da imigração recente.

Estas clivagens podem ter consequências em termos eleitorais. Constata-se por exemplo que o voto frentista (à esquerda) ao longo do período 1988-2002, está correlacionado positivamente com o número de vínculos ao operariado [12] :

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Diferentes identidades operárias, com opções políticas distintas, refazem-se. É isto um retorno à situação política da frente popular, onde Mattei Dogan testemunhava a diversidade da classe operária?

I.2. NA ORIGEM DO DIVÓRCIO: UMA MUDANÇA DE VALORES

Historicamente, como se referiu acima, a esquerda política e a classe operária estão alinhadas uma sobre a outra, tanto em termos de valores socioeconómicos como culturais. Sob a Frente Popular e a seguir à Segunda guerra mundial, ambas assumem as mesmas reivindicações: limitação do tempo de trabalho, licenças pagas e salário mínimo, reforço da proteção social, nacionalização das grandes empresas, enquadramento dos preços… Uma como a outra permanecem conservadoras sobre o plano dos costumes – o direito de voto só é concedido às mulheres em 1945, em 1945; a visão muito heterodoxa de Léon Blum sobre o casal e a família não tem lugar nos programas de esquerda. [13].

Maio de 68 marca uma primeira rutura entre a esquerda e a classe operária: embora permaneçam em sintonia no plano económico (reivindicação de direitos sociais novos, aumento do poder de compra), criam-se oposições no plano cultural, de que as incompreensões entre estudantes e trabalhadores são um testemunho. Liberdade sexual, contraceção e aborto, questionamento da família tradicional…: a classe operária não é uma fervente partidária da liberalização dos costumes à qual aderiu a esquerda política. A prevalência do fator económico sobre o fator cultural, a prioridade dada aos salários nas reivindicações operárias, a manutenção de um discurso “de rutura” com o sistema capitalista, permitem no entanto, ao longo deste período, preservar e mesmo amplificar, até depois das crises petrolíferas, a adesão dos trabalhadores à esquerda.

Os anos 80 constituem a verdadeira viragem

Sobre as questões económicas, a esquerda pôs em prática reformas de grande amplitude – pensões de reforma aos 60 anos, semana de 40 horas, aumento do salário mínimo, novas nacionalizações… – mas ela não está em condições de as manter. A política de rigor, iniciada em 1983, é uma rutura que suscita o desencanto. Os trabalhadores, atingidos duramente pela crise, depois pela mundialização e pelas reestruturações e pelo desemprego, não se vêem com direito a futuro. A afirmação de Lionel Jospin, “o Estado não pode tudo”, face ao encerramento das fábricas Renault, foi, para a classe operária, o símbolo da impotência do político: as determinantes económicas perdem preponderância no voto operário.

Em paralelo, o declínio da classe operária – a subida do desemprego, a precarização, a fragmentação social e a perda de identidade coletiva – dá lugar a reações de isolamento e de regressão social. O orgulho de ser operário dá lugar ao desenvolvimento de um ressentimento contra possíveis novos entrantes no mercado de trabalho. A luta contra a imigração – e os imigrantes -, a luta contra a assistência – e os assistidos –, a promoção de uma sociedade “moral”, dotada de normas fortes, em que esta se protege das margens, encontraram na classe operária um terreno favorável.

Agora, os trabalhadores posicionam-se prioritariamente em função dos seus valores culturais – e esses valores estão profundamente ancorados à direita (ver gráfico seguinte [14]:

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I.3. UMA EVOLUÇÃO GERAL NO CONJUNTO DO MUNDO OCIDENTAL

Uma mesma dinâmica tem-se estado a verificar no conjunto do mundo ocidental. A Suécia, país social-democrata por excelência, mas também a Alemanha, a Grã-Bretanha ou os Estados Unidos, entre outros, viram, como a França, atenuar-se desde 1945 a segmentação entre os votos de esquerda operária e os votos de esquerda não operária (índice de Alford) (cf. gráfico abaixo).

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III–QUE ESTRATÉGIA ELEITORAL PARA 2012?

A eleição de 2012 desenrola-se num período de mutação profunda da paisagem política: a estruturação de ontem está enfraquecida mas ainda não desapareceu, enquanto a de amanhã emerge mas ainda não se desenvolveu plenamente. Esta situação deixa campo a várias opções estratégicas.

III.1 A estratégia central “FRANÇA DE AMANHÔ: Uma estratégia de valores

Uma linha de conduta incontornável para a esquerda é então a de agir apoiando-se no seu novo eleitorado “natural”: os jovens, as minorias e os bairros populares, as mulheres, os diplomados. É o eleitorado “França de amanhã” que está no centro do voto de esquerda, é ele que se vai tornar o motor que leva a que se constitua uma nova maioria eleitoral de esquerda.

É tanto mais necessário quanto a perspetiva de um “novo 21 de abril” representa um risco real: o nível eleitoral inédito da Frente Nacional e a fragmentação do campo progressista ameaçam a esquerda de uma eliminação à primeira volta da eleição presidencial. Reunir o seu campo eleitoral à primeira volta será pois vital em 2012.

Que estratégia deve a esquerda adotar para fazer o pleno do seu novo eleitorado natural?

Deve optar por uma estratégia de valores, em primeiro lugar.

Sabe-se que o novo eleitorado da esquerda continua a evoluir à esquerda em tendência: vota já à esquerda mas no futuro deveria votar ainda mais claramente à esquerda. O objetivo estratégico é acelerar esta transição para maximizar o potencial eleitoral. As eleições regionais de 2010 mostram que avanços importantes podem ser realizados: os jovens (+8 pontos, a 66/34) e as mulheres (+10 pontos, a 58/42) progridem mais fortemente que a média do eleitorado (+7) para se atingirem valores à “Obama”.

Para alcançar o seu máximo eleitoral, a esquerda deve portanto fazer campanha sobre os seus valores, socioeconómicos mas sobretudo sobre a promoção dos valores culturais que juntam todas as componentes do seu novo eleitorado. Deve pôr a tónica sobre o investimento no futuro, na promoção da emancipação e, portanto, ter um discurso de abertura às diferenças, uma identidade nacional integradora…

A esquerda deve igualmente privilegiar uma estratégia de mobilização.

A abstenção é claramente superior à média em certos segmentos desta coligação (jovens, minorias). A taxa de inscrição é igualmente mais fraca nos subúrbios populares, apesar da inscrição obrigatória para a maioria. A participação pode ser melhorada através de uma campanha de mobilização: trata-se de convencer uma população garantida a ir votar, e isso passa principalmente por uma ação de terreno (porta a porta, telefone,…) como o modelo americano.

A esquerda pode ganhar sobre esta única base em 2012?

A resposta é provavelmente sim. Quanto à participação, os peritos americanos consideram que uma boa campanha de mobilização pode melhorar de dois pontos a participação do seu campo. Vista em termos de França (36 milhões de eleitores em 2007), esta melhoria diferencial poderia em teoria aumentar o número de eleitores de esquerda de aproximadamente 700.000 pessoas.

Sobre a intensificação do voto à esquerda, a hipótese de trabalho, voluntariamente conservadora, é uma manutenção inalterada dos resultados de 2007 com a única melhoria do voto das categorias de esquerda: o princípio é que a campanha permitiria embolsar a evolução diferencial do voto destas categorias em relação à média entre 2007 e 2012.

Assim, o voto à esquerda dos jovens aumentou de 1 ponto a mais que a média nacional entre 2007 e 2010 (+8 contra +7). É plausível, dada a dinâmica para a esquerda deste eleitorado e o atraso constatado em relação aos países estrangeiros, nomeadamente os Estados Unidos, levar este diferencial a 2 pontos em 2012. Com base num eleitorado de 4 milhões de pessoas, isso significa um crescimento líquido de 160.000 votos para a esquerda em relação a 2007.

As minorias votam já massivamente à esquerda, será difícil melhorar a captação neste eleitorado. Para este eleitorado, o objetivo estratégico é a melhoria da participação.

As mulheres, em contrapartida, constituem um forte potencial. Representando metade da população (18 milhões de eleitores em 2007), o seu voto à esquerda saltou de +10 pontos nas eleições regionais em relação às presidenciais, ou seja 3 pontos mais que a média nacional. É também aí plausível, num eleitorado em plena transição política, que esta evolução possa continuar a verificar-se. Se se conseguir levar este diferencial a 4 pontos, as mulheres trariam um apoio considerável ao candidato de esquerda em 2012: 1.440.000 votos suplementares.

Por último, os diplomados melhoraram a sua taxa de votação à esquerda de 1 ponto mais que a média nacional. O potencial da esquerda neste eleitorado é difícil de avaliar: os diplomados partilham fortemente os valores culturais da esquerda, mas não os seus valores económicos. Conservando a sua taxa das regionais e dado o seu peso eleitoral (8 milhões), isso representa um crescimento líquido de 160.000 votos.

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[N.T. Avaliação do impacto eleitoral de uma estratégia “França de amanhã”. diferença de votos total em 2007 Nicolas Sarkozy – Ségolène Royal:+2.193.000. Evolução tendencial dos jovens -80.000 +80.000. Evolução tendencial de minorias de 0,0. Evolução tendencial das mulheres -720.000 +720.000. Evolução tendencial diplomados -80.000 +80.000. Melhoria da participação +700.000. TOTAL + 2.460.000. Desvio total corrigido +267.000]

Sob estas hipóteses, e com tudo o resto constante, Ségolène Royal teria batido Nicolas Sarkozy: esta estratégia traria quase 2.500.000 votos à esquerda na segunda volta, que se eliminaria os 2.200.000 de votos de avanço que a direita teve em 2007. Os fatores chave do sucesso são o voto feminino (representa quase 60% da melhoria eleitoral) e a participação devida à mobilização (30%). Contudo, o resultado permaneceria apertado.

Notemos de novo que estas hipóteses são conservadoras. Mantêm “o ambiente” da eleição de 2007, favorável a Nicolas Sarkozy. Se fosse registada a melhoria real do voto da coligação de esquerda nas regionais de 2010 (e não a sua diferença de pontos relativamente à média), então teríamos uma mudança superior a cerca de cinco milhões de votos.

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NOTAS

(*) Bruno Jeanbart, diretor geral adjunto de Opinionway, empresa francesa de sondagens políticas e estudos de marketing e Olivier Ferrand, 1969-2012, fundador e ex-presidente do think tank Terra Nova.

[4] Portugal, Espanha, Grécia (sociais-democratas), Chipre (comunistas), Eslovénia (aliança com os liberais), Áustria (aliança com a direita). Os sociais-democratas participam, aliás, no governo conservador de Enda Kenny na Irlanda.

[5] A direita está aliás numa situação similar. A Grande Crise mostrou que o modelo liberal também já não era compatível com o mundo sistémico no qual entrámos: se se deixa a economia para os mercados, estes já não se autorregulam, eles autodestroem-se.

[6] Veja-se Mattei Dogan, « Les clivages politiques de la classe ouvrière », IN Léo Hamon, LES NOUVEAUX COMPORTEMENTS POLITIQUES DE LA CLASSE OUVRIERE, Presses Universitaires de France, 1962.

[7] Florent Gougou, Les mutations du vote ouvrier sous la Ve République, Revue FondationS

[8] A evolução social da população ativa, Baudouin Seys, Département de l’édition, Insee, 1996, http://www.insee.fr/FR/FFC/DOCS_FFC/ip434bis.pdf (Quadro atualizado pelo INSEE na base deste artigo. )

[9] «População operária» em sentido: esta inclui os operários da indústria, em queda e que agora representam apenas  13%   da   população ativa, mais os operários  do terciário  (motoristas, serviços de manutenção e armazéns…)

[10] Etude sur les classes moyennes, Ifop pour la Fondapol, Novembre 2010

[11] Nonna Mayer, Que reste-t-il du vote de classe ? Le cas français, Lien social et politiques, n°49, 2003

[12] Nonna Mayer, Que reste-t-il du vote de classe ? Le cas français, Lien social et politiques, n°49, 2003

[13] Em   Du Mariage (1907), Léon Blum denuncia a exigência da virgindade imposta às raparigas até ao casamento e defendia uma visão liberal do casamento e do casal.

[14] Fonte:  V. Tiberj

Para aceder ao texto do relatório veja em:

http://tnova.fr/system/contents/files/000/000/704/original/Rapport_Terra_Nova_Strat_gie__lectorale.pdf?1436783291

Para aceder à 1ª parte publicada em A Viagem dos Argonautas, veja em:

https://aviagemdosargonautas.net/2017/05/28/de-uma-crise-a-outra-dos-anos-de-mitterrand-aos-anos-de-hollande-da-tragedia-de-outrora-a-farsa-de-agora-uma-outra-serie-de-textos-3a-parte-os-tempos-da-ascensao-de-hollande-tempos-do-desprezo-t-3/

 

 

 

 

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