
Mais uma Cimeira Luso-Espanhola, a 29.ª, recheada de velhas promessas e uma certeza: não se chegou ainda a um acordo em matéria de energia, considerada por ambos os países como a primeira prioridade, com a atenuante da falta de colaboração da França, a qual, sendo também exportadora de electricidade, não tem interesse em abrir a chamada barreira dos Pirinéus, impedindo assim que Portugal e Espanha exportem electricidade para o resto da Europa e também impedindo o alargamento do mercado do gás natural em que os dois países poderão cobrar uma taxa pela passagem do gás pelos seus territórios.
É mais uma demonstração da «solidariedade» entre os países da União Europeia. A França impõe a sua vontade, defendendo os seus interesses egoístas, mesmo contra os interesses dos países do Norte da Europa, muito dependentes dos fornecimentos da Rússia.
Há que destacar, entre os acordos assinados, o compromisso assumido pelos representantes máximos dos governos de Portugal e Espanha, António Costa e Mariano Rajoy, em concluir as ligações ferroviárias há muito fazendo parte destas Cimeiras e de várias declarações de políticos de ambos os países:
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concluir até 2018/19 a ligação ferroviária Porto-Vigo, absolutamente fundamental para o desenvolvimento do Norte de Portugal e da Galiza, onde o porto de Leixões e o aeroporto Sá Carneiro são peças fundamentais;
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concluir, até 2021, as ligações ferroviárias Aveiro-Vilar Formoso, que dará ligação à Europa, nomeadamente a Paris, via Salamanca, e a ligação Sines-Caia.
Destas ligações ferroviárias, não sou muito entusiasta da ligação Sines-Caia se apenas contribuir para aumentar a centralidade de Madrid, nada conveniente ao nosso país. Ou será que Portugal assinou este acordo como moeda de troca com a assinatura do governo de Espanha do acordo na ligação Porto-Vigo? Ou a assinatura deste acordo por parte de Portugal é por ser este um país exemplar da solidariedade que se anuncia nos tratados da U. E. mas que se não pratica? Deixo as minhas dúvidas, reforçadas pela memória que não apaga as cedências aos interesses de Espanha por parte de Durão Barroso, quando ocupava o cargo de primeiro-ministro de Portugal.
Quando vejo uma referência a Sines logo me lembro da luta de décadas de Henrique Neto, não só para uma definição de uma estratégia para o país como também na defesa de investimentos essenciais para Portugal, como se pode ler no seu livro «Uma Estratégia para Portugal» (Ed. Lua de Papel, Lisboa, 2011) e na última entrevista que concedeu, publicada no jornal i, no passado dia 26 de Maio, da qual transcrevo: «Eu considero que a grande oportunidade para o crescimento da economia portuguesa depende do crescimento do Porto de Sines. Nós precisamos de um grande argumento para atrair investimento estrangeiro, aquilo a que eu chamo empresas integradoras. Hoje, a Autoeuropa, por exemplo, faz um automóvel com componentes e sistemas do mundo inteiro. Uma empresa com estas características tem de estar num sítio favorável para receber componentes de todo o mundo. Sines é o melhor local para isso. Portugal está no centro do Ocidente e com comunicações marítimas para todo o mundo. Isto é uma vantagem que tem de ser aproveitada.»
Após esta longa citação, pergunto:
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é do interesse de Portugal a ligação ferroviária Sines-Caia-Madrid?
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nem ao menos se pensa em investir em Sines no alargamento do porto, com automação que permita descargas rápidas, permitindo uma menor permanência do porta-contentores no porto, gerando consequentemente grandes poupanças, e também na criação dos necessários espaços de armazenamento dos contentores?
