TROVOADA SECA por Luísa Lobão Moniz

Gentes morreram intoxicadas com o fumo.

Gentes morreram queimadas pelas chamas do gigantesco incêndio.

Gentes sobreviveram dentro de um tanque com água até ao pescoço.

Os écrans dos televisores tornaram-se cor de fogo.

Gentes morreram porque fugiram pelo sítio errado. Qual o caminho certo?

Não há forças que detenham a Natureza. Parecia que a Natureza estava zangada com o Ser Humano.

O Ser Humano quando não se zanga consigo próprio ou com outros é generoso e solidário. Foi tecida uma enorme teia de apoio por parte dos portugueses para minorar o desespero, foi comida, água, roupa…e uma grande esperança.

 Certamente que foram tomadas decisões menos certas e outras mais certas e se calhar houve quem tomasse decisões sozinho, sem coordenação.

Ainda não se sabe qual a origem deste incêndio: trovoada seca ou mão criminosa?

Se for trovoada seca, os Seguros não cobrem os danos, se for mão criminosa os seguros terão que participar na recuperação dos danos…

Nada é simples, o momento da avaliação dos estragos nem o da distribuição de verbas.

As vidas nunca mais vão ser como eram antes do incêndio.

Quando é que aquelas populações começam a adormecer tranquilamente?

Quando é que aquelas crianças retomam a sua vida normal?

Mesmo depois de a vida retomar o seu ritmo, nunca mais os portugueses se vão esquecer das 64 vítimas mortais e das centenas de feridos com queimaduras gravíssimas.

Ninguém se esqueceu da bombeira que morreu a apagar um incêndio, há três anos.

Ninguém se pode esquecer destes bombeiros, voluntários ou profissionais, que morrem a defender a vida de outras pessoas.

Quantas vezes se viram os bombeiros, os soldados da Paz, serem considerados exemplos de cidadãos responsáveis e participativos na sociedade?

Quem é que sabe as dificuldades que passam para obterem mais um carro para combater os fogos?

Guardar os acontecimentos para memória futura faz parte da democracia.

Esquecer, não revelar acontecimentos, faz parte de sociedades não democráticas, por isso quase ninguém se lembra da disponibilidade e sacrifício dos 25 militares que morreram em 1966 ao tentarem apagar as chamas na Serra de Sintra.

O incêndio de 2017 foi o que registou mais mortes. Destronou o de 1966.

É preciso desenvolver uma cultura de responsabilidade com a Natureza, sem ela não podemos viver. A vivência dessa cultura cabe a todas as crianças e a todos os adultos.

É preciso saber-se porque é que a limpeza das matas não é feita pelos seus proprietários, privados ou públicos.

Cantava o poeta “Somos nós e a Natureza e a Natureza sou eu…

 

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