A GALIZA COMO TAREFA – Studiolo – Ernesto V. Souza

C. W. Peale: The Artist in His Museum (autorretrato, 1822) wikipédia.

O Studiolo é um gabinete de curiosidades nascido na Itália renascentista a imitação de gregos e romanos; o Pequeno estudo ou Camerino era, normalmente uma sala privada, tamanha em função das possibilidades do dono, onde o proprietário podia se retirar para perseguir seus próprios interesses culturais, artísticos ou científicos, rodeado de objetos e curiosidades do mundo natural, antiguidades, artefatos, livros, obras de arte e rarezas que por algum motivo ocupavam os seus interesses e inspiravam.

Na época, e até os tempos modernos em que a museística e a academia especializada começaram a se impor, os grandes humanistas, os ricos e poderosos e não poucos soberanos foram reunindo interessantes coleções particulares que podiam se dispor em armários simbolicamente decorados ou ocupar palácios inteiros desenhados para tal fim.

O colecionismo, os objetos colecionados e o jeito em que se organizam nestes espaços dalgum jeito teatrais, em um ambiente que poderia ser curioso, educativo, científico, simbólico, alegórico ou enciclopédico, revelam muito da personalidade do proprietário e também dos interesses de cada época.

Existiram ao longo da história numerosos exemplos significativos deste tipo de colecionismo privado ou semi-público (aberto a hóspedes, ou restrito a visitantes de qualidade), por vezes público (e até aberto a todos), que evoluíram correlatos e em função da transformação do pensamento científico, dos saberes e das modas de cada época.

Algumas destas coleções, divididas, destruídas parcialmente, vendidas ou reunidas com outras ao longo dos séculos por outros colecionistas, terminaram fazendo parte das mais importantes coleções dos espaços museísticos do mundo. 

Isto, e muitas outras cousas de interesse podem-se ler, num livro fascinante sobre os colecionistas e as suas doidices geniais, Philipp Blom: “To have and to hold” (Penguin, 2003). A través delas e de casos e coleções particulares em épocas diversas, conjetura-se como vai mudando o pensamento e portanto os sistemas de classificar objetos e saberes no decorrer da história.

Dos tempos semi-mágicos de bezoares, alquimistas, monstruosidades e rarezas mais exóticas chegadas das Índias pelos mares abertos ao comércio, até os inícios da museística nacional e das grandes coleções especializadas da era Vitoriana. No meio, talvez como marca do clinamem entre o colecionismo antigo e o moderno, uma frase que cifra a categoria e a ideia e anuncia muito do que viria a ser a catalogação, e classificação científica moderna, especializada e sistemática (e também as ataduras das que parte e nas que entra):

Linnaeus was a pious man and belived that God’s work could be expressed and grasped in more systematic terms.” (p.88)

Do gabinete humanista de Ulisse Aldrovandi e as maravilhas botânicas que tanto influíram na paisagem britânica dos Tradescant (pai e filho) até o colecionismo capitalista de J. P. Morgan e W. R. Hearst; do acópio de curiosidades bizarras e deformes “monstruosidades” com seres humanos dissecados, mumificados ou passados pelo taxidermista como manifestação do poder da nobreza até as mórbidas vitrinas das Cátedras anatómico-patológicas, das que emergirão a frenologia, a eugenesia e o nazismo. Obsessões particulares, exploração de colonizadores, depredação de conquistadores, o capitalismo na sua origem moderna. Da revolução burguesa e do museu educativo dos “citoyens” até as grandes coleciones conformadas como verdadeiras narrativas do “catecismo científico” explicativo das mitologias nacionais e das grandezas dos impérios na vanguarda.

Trabalho verdadeiramente interessante, na ausência de um arquivo, uma biblioteca, uma pinacoteca, um botânico e museus de toda ordem verdadeiramente nacionais, seria reunir dados dos sábios e ilustrados eruditos galegos, antiquários, bibliófilos, arqueólogos, naturalistas, etnógrafos, historiadores da cultura e da língua, indianos, políticos e gente das grandes academias, colecionistas de objetos e dados de toda época; dos Condes de Gondomar, Lemos e Monterrei até os Álvaro Gil, Luis Seoane, Isaac Diaz Pardo, passando pelos Romero Ortiz, Murguia, Augusto Besada, os irmãos Naveira, Ramon Valle, Pedro Barrié, Filgueira Valverde, Anton Fraguas, Garcia Sabell, Ben-cho-shey… e comprovar como neles e na transmissão de ideias, pugnas e preferencias de arte, livros e objetos arqueológicos, foram-se fraguando os mitos e tropos que alicerçam a história da Galiza.

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