SOFRER COM A AUSÊNCIA por Luísa Lobão Moniz~

África.

Moçambique, segundo país mais pobre do mundo…

Pelo chão de Moçambique estão plantadas imensas aldeias pobres onde é difícil uma habitação digna, uma escola, sarar uma ferida…

Uma dessas aldeias tem centenas de crianças órfãs de pais e de mães com SIDA. A organização Voluntários sem Fronteiras foi procurá-la, foram médicos, enfermeiros, psicólogos, professores e outros. Lá encontraram o que não imaginavam que fosse real: centenas de crianças entregues a si próprias à procura dos seus Direitos, construindo os seus Direitos.

Os seus Direitos? Como, se ninguém lhes disse que os havia?! Os Direitos são inerentes a uma vida pelo menos confortável, brotam dos seus “eus”.

Três crianças irmãs dormem num recinto quadrado reduzido a um chão de terra, com um buraco fazendo de tecto com uma chapa por cima. Mesmo assim dormem. Mesmo assim vivem. Durante o dia obedecem ao irmão mais velho que os orienta na busca de comida e da escola. Não têm material escolar, escrevem na terra com um dedo.

Quando o professor, com a sua bata branca como o algodão, entra na “sala” ao ar livre elas levam-se e dizem em coro “Bom dia senhor professor” e olham para ele com admiração e curiosidade. Estas crianças gostam de ir à escola.

As crianças não tinham casa e por isso foram construídos, com materiais simples, o local onde se podiam abrigar, e quem sabe, serem felizes.

 Os Voluntários falavam com elas e davam-lhes afecto. Pegavam nelas ao colo, davam-lhes beijinhos e faziam festinhas nas suas caras ávidas de amor. As crianças não fugiam, pelo contrário, corriam para eles, começavam a criar laços afectivos e de vinculação com aqueles adultos. Estas crianças não conheciam a violência por parte dos adultos, por isso confiaram neles.

Este comportamento fez-me recordar um grupo de crianças que convivia com a violência, que era vítima de comportamentos desregulados de adultos. Estas fugiam dos adultos que não conheciam, como os professores que chegavam para lhes “dar” aulas… estas tinham medo de gostarem dos professores e depois serem abandonadas por razões burocráticas de colocação de professores.

“ Estes estão agora aqui, fazem-se nossos amigos e depois desaparecem, não, não corro para eles porque depois vou sofrer com a sua ausência…”

Os meninos moçambicanos, de aldeias plantadas onde calhava, tinham um olhar que nunca mais se esquece. Estão vivas, nunca tinham visto as suas caras! Quando se viram reflectidas, nas lentes dos óculos dos Voluntários, apontavam e riam, riam apontando com o dedo para as lentes… O que se terá passado depois? Como se sentiram depois de se verem? Que efeitos psicológicos terão sido despoletado na construção das suas identidades?

Aqueles olhinhos muito escuros, mostravam uma tristeza tamanha, mostravam uma lágrima, sempre suspensa, pronta  a escorrer pelas suas caras levando atrás dela um rio sem parar…

Como se pode deixar que as nossas crianças sejam maltratadas e negligenciadas!

As crianças, daquela aldeia em Moçambique, estavam vivas, apesar de serem órfãs, sabiam lidar com a Natureza que lhes era, muitas vezes, hostil. Tomavam “conta” umas das outras, todas eram responsáveis de todas em relação a tudo, menos pelos seus futuros, por serem capazes ou não de se agarrarem à esperança de uma vida diferente.

Por todas as crianças abandonadas, maltratadas, negligenciadas, institucionalizadas, órfãs de guerra, órfãs de pais que se entregaram à morte porque os seus corpos não aguentaram mais dores e sofrimento… por todas elas lutemos pelos Direitos Humanos, e não desperdicemos tempo, o tempo de quem está a crescer a construir a sua identidade…

Que estranho mundo este! Somos todos iguais mesmo com aldeias só de crianças que crescem sem saberem como. Somos todos iguais perante a vida!

É difícil perceber estas vidas tão diferentes, mas com o mesmo direito de serem “pessoa”.

Era uma vez um menino que vivia num país tão grande, tão grande, mas onde não cabiam os Direitos da Criança…

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