EDITORIAL –  A COVA DA MOURA CONTRA O RACISMO – por João Machado

O racismo é um dos maiores flagelos que aflige a sociedade. Não é com certeza exagero, nem especulação evasiva da realidade, afirmar que as suas manifestações remontarão aos primórdios da humanidade. Nasce claramente da necessidade de justificar maus sentimentos e violências cometidas de modos diversos por seres humanos sobre outros seus semelhantes, a pretexto de disputas e competições que implicam desde a sobrevivência directa até meras questões de estatuto simbólico. As diferenças físicas são as mais rapidamente invocadas como justificação de actos abusivos, controlados ou descontrolados, por serem mais evidentes e de fácil generalização a outros indivíduos,  para além dos envolvidos directamente na questão original.

O racismo contra estrangeiros tende a tornar-se particularmente violento, e assume formas de exclusão muito fortes, quando estes se agrupam em zonas habitacionais separadas. Em Portugal sempre existiram comunidades deste tipo, mas o problema ter-se-á agravado a partir da década de 1950, com a chegada de um número significativo de oriundos das colónias africanas, com particular destaque para Cabo Verde. Este país foi, ao longo da sua história, devastado por secas e fomes (clicar no último link abaixo), como na década de 1940, durante a qual uma parte significativa da população pereceu ou emigrou. Muitos cabo-verdianos procuraram então Portugal, ou directamente, ou passando por outros países, desde S. Tomé e Príncipe, Angola ou mesmo a Holanda. Um bairro como a Cova da Moura, nascido em terrenos privados, nas freguesias da Damaia e Buraca, com uma localização atractiva por estar situado perto de Lisboa, cercado de vias de comunicação e outras aglomerações urbanas, cresceu com a presença de muitos desses emigrantes, oriundos de Cabo Verde e de outros países africanos.

Ao fim e ao cabo temos hoje ali um bairro residencial pobre, com uma população trabalhadora muito numerosa, natalidade alta, problemáticas sociais difíceis, terá obviamente uma vida complexa. Mas basta observar as imediações da Cova da Moura às horas do nascer do sol, e ver o fluxo de pessoas que sai do bairro à procura dos seus postos de trabalho, para perceber a ligação intensa que estes nascidos noutro continente (ou os seus descendentes de primeira e segunda geração) mantêm com o tecido social e económico da Grande Lisboa.

A história recente de Portugal e dos países que foram suas colónias ajuda a explicar os acontecimentos recentes e as violências e abusos que terão sido cometidos na Cova da Moura. A explicar, mas não a justificar, evidentemente. O racismo, infelizmente, está muito mais implantado nas mentalidades do que muita gente quer admitir. Em Portugal e nos outros países, e não só no estado norte-americano do Mississippi. Para o podermos combater temos de reconhecer este facto. E que na Cova da Moura a maior parte dos habitantes, apesar de evidentemente condenar as violências policiais, e sentir-se atingida pelo ódio rastejante e injustificável que lhes está subjacente, considera que no bairro tem de haver policiamento. Como outro bairro qualquer, como aquele onde moramos.

Propomos que cliquem nos links abaixo:

http://www.dn.pt/portugal/interior/18-agentes-da-psp-acusados-de-tratamentos-crueis-e-desumanos-a-jovens-da-cova-da-moura-8627745.html

http://observador.pt/2017/07/11/psp-destaca-presuncao-de-inocencia-de-policias-na-cova-da-moura/

http://www.esquerda.net/artigo/bloco-questiona-mai-sobre-violencia-policial-na-cova-da-moura/35723

https://www.publico.pt/2017/07/12/sociedade/noticia/uma-esquadra-inteira-acusada-de-racismo-da-a-mensagem-de-que-algo-tem-falhado-1778738

https://en.wikipedia.org/wiki/Os_Flagelados_do_Vento_Leste

http://www.uc.pt/fluc/depgeo/Publicacoes/livro_homenagem_FRebelo/697_712

 

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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