14. A desmundialização inquieta os defensores de um liberalismo em desespero de causa

A esquerda tem uma escolha a fazer: ou continuar a recitar a mesma cartilha neoliberal e livre-cambista – ou seja, a defender a mundialização – e então a história varrê-la-à do plano da política ou procurar compreender o que se jogou desde 1983 e enfrentar a realidade do mundo: neste último caso, seria então fiel à sua vocação histórica e o futuro poder-lhe-ia sorrir de novo. (Aquilino Morelle)

Os socialistas franceses têm mais de 30 anos de avanço sobre a Troika a defenderem as políticas de austeridade.

Crónica sobre os anos 80, sobre “Viva a Crise! “ – Texto 14

(Aquilino Morelle, 07/09/2011)

mundialização

Foram os socialistas que impuseram o dogma da sociedade de mercado.

“A desmundialização” está no centro das primários da esquerda e estará ao centro da próxima eleição presidencial. A convergência e a virulência dos ataques a que este projeto político tem sido submetido, em especial os pontos de vista críticos publicados recentemente nestas colunas por Zaki Laïdi, por Pascal Lamy e por Pierre Lellouche, é um muito bom indicador da apreensão que a desmundialização suscita nos ardorosos defensores do neoliberalismo.

A sua tese é conhecida: a mundialização seria um fenómeno inelutável, porque provocado por mutações tecnológicas irreversíveis – “porta-contentores e Internet”, para retomar as palavras de Pascal Lamy. Além disso, a economia mundial teria atingido um tal grau de interligação e de interdependência que as próprias noções de exportações e de importações ter-se-iam tornado caducas. Considerada como o horizonte inultrapassável da Humanidade, a mundialização implicaria “a adaptação” das economias e das sociedades nacionais. Somente a “ regulação” permitiria “dominar” os seus “excessos”

 “Quanto aos milhões de mulheres e de homens que a mundialização colocou em situação de desespero – desempregados ao Norte, escravos ao Sul e ao Leste – estes teriam apenas que aguentar com paciência os seus males, uma vez que os seus supostos benefícios devem necessariamente fazer-se sentir “a longo prazo”. Sacralizada, a exemplo de uma lei da Natureza, a mundialização impor-se-ia por conseguinte aos homens. Propor um outro modelo de desenvolvimento desencadeia imediatamente uma clássica resposta de desqualificação: a desmundialização seria um absurdo” (Zaki Laïdi), “uma ilusão demagógica”, “uma fábula” (Pierre Lellouche), “um conceito reacionário” (Pascal Lamy).

Resumidamente, um verdadeiro pecado do espírito porque, para os seus zeladores, a mundialização é uma finalidade ao mesmo tempo teleológica e teológica. Então relembremos a estes espíritos religiosos que a lei da gravitação não impediu os homens de construir aviões nem os aviões de voar. As únicas leis que se impõem ao homem são as da sua razão e da sua vontade. O que foi feito pelos homens pode ser corrigido – e porque não mesmo desfeito? – por outros homens.

Sobretudo, se a mundialização tira efetivamente uma parte da sua força de dados técnicos, a mundialização é sobretudo um projeto ideológico pensado, pretendido e posto em prática com uma brutal teimosia por intelectuais e responsáveis políticos, de esquerda, além do mais. O papel central de certa elite da esquerda francesa, encarnada por Jacques Delors, por Pascal Lamy e por Michel Camdessus, na concepção e a promoção da mundialização, foi explicado por Rawi Abdelal, professor em Harvard Business School, em Capital Rules : The Construction of Global Finance, (Harvard University Press, 2007). Um livro que seria de salubridade pública traduzir, enfim, em francês e de fazer ler ao maior número possível de pessoas.

Envolvidos na ideia de superioridade da livre-troca, estes homens sempre se consideraram como progressistas em luta contra os conservadores “do velho socialismo” dirigista; persistem nesta visão das coisas: é o que dá o seu sentido à palavra  “reacionário” na boca de Pascal Lamy. Para eles, em 1983, o choque “da condicionalidade externa” (é assim que se designava-se então a mundialização) foi um acontecimento providencial, uma ocasião para imporem as suas conceções jogando com o traumatismo político que representava naquela altura este “fim das ilusões”.

Então convenceram François Mitterrand a liberalizar a finança. O ano de 1983 não foi o ano da capitulação da esquerda francesa diante da finança, mas o ano do alinhamento da esquerda com a finança. Um alinhamento em que as palavras de ordem terão sido “controlo” e “regulação”. A partir de 1985, assumindo a Presidência da Comissão Europeia (Delors e Lamy) e do FMI (Camdessus), estes ideólogos difundiram esta política de liberalização financeira a todo o planeta. Pela sua habilidade política e pela sua perseverança, estes “socialistas” franceses tiveram êxito a estabelecer o que é conveniente chamar o “ consenso de Paris”.

É este consenso e não o de Washington, tão frequentemente acusado, que deu o impulso à liberalização mundial dos movimentos de capitais. Estes homens de esquerda franceses criaram assim um novo Moloch liberal, que devorou toda a esquerda europeia e abriu a Tony Blair o caminho para a sua “Terceira via”. Eis pois o que nos confirma o historiador americano no seu edificante trabalho – quando a investigação universitária conforta a análise política.

A mundialização primeiramente tem sido de ordem financeira: em 1983, Internet não existia e os porta-contentores não enchiam os oceanos. Ainda hoje assim é, são os fluxos financeiros que comandam, dirigem, a economia. Ver os financeiros e os seus cúmplices invocarem a felicidade dos povos do Sul e do Leste – é o papel do mito “da enorme classe média chinesa” – para justificar um sistema que serve sobretudo para os enriquecer, é um dos espetáculos mais obscenos a que já nos foi dado assistir. É o triunfo da avareza denunciado pelo Prémio Nobel da economia Joseph Stiglitz. Um triunfo tornado possível não pela demissão dos homens políticos de esquerda, como demasiado frequentemente se pensa ainda, mas pelo seu consentimento!

Financeira, a mundialização, ao sabor dos acordos sucessivos de comércio livre impostos aos povos sem que estes se apercebam das suas consequências, por esta elite ativa da esquerda liberal, tornou-se também no objetivo de colocar em concorrência as economias, os salários, a fiscalidade, as proteções sociais, os povos, os homens, as suas vidas. Que cegueira ideológica esta, a de ter aceite a entrada da China na OMC em 2001 sem nenhuma contrapartida! “As ideias, o conhecimento, a arte, a hospitalidade, as viagens: são pois coisas que, por natureza, devem ser internacionais. Mas produzamos mercadorias no nosso país sempre que tal seja razoável e praticamente possível”. Foi por esta razão e por este sentido das realidades humanas sublinhadas por Keynes que os partidários da mundialização nos quiseram fazer perder. É o regresso à esta sabedoria que está no meio do projeto de desmundialização.

Para os seus promotores, a mundialização sempre foi um projeto ideológico, o sonho, enfim, de um mundo desembaraçado da política, onde o homo economicus definitivamente teria suplantado homo sapiens, o que Jürgen Habermas resumiu pela fórmula: “A mundialização, é o desmoronamento do poder de compra dos boletins de voto”. Quanto à “mundialização feliz”, raramente uma mistificação tão cínica terá sido tentada.

Este projeto foi desmascarado e esta mistificação dissipada. Os povos compreenderam a verdadeira natureza da mundialização e retiram a sua confiança aos governos – direita e esquerda confundidas que lhes impôs o desemprego e a austeridade ao mesmo tempo que lhes vai prometendo dias melhores.

Esta desconfiança exprime-se nas taxas recorde de abstenção, no avançar a grandes passos da extrema direita, na cólera dos camponeses brasileiros sem terra ou na dos trabalhadores de Continental Clairoix, despedidos por motivos económicos e que receberam em 2010 uma proposta de reclassificação em Bizerte, na Tunísia, por um salário mensal de 260 dinares, ou seja de 137 euros. Os povos recusam doravante esperar pelo “ longo termo” para obterem os supostos benefícios da mundialização, porque sabem, de acordo com Keynes, que” a longo prazo, estaremos todos mortos “.

Seja, ou nós conduzimos uma estratégia de protecionismo bem pensada, europeia, social e ecológica, ou os povos render-se-ão às sirenes perversas das extremas-direitas. A desmundialização opõe-se assim tanto ao delírio da abertura infinita dos mercados que destroem as proteções sociais, as indústrias e os modos de vida, como ao isolacionismo nacionalista e odioso de Marine Le Pen

Desmundializar, isto não é retirar-se do mundo, pelo contrário; é querer habitá-lo na solidariedade e na harmonia. A desmundialização é um projeto de moderação de um sistema financeiro e económico mundial que se tem tornado extremista. A desmundialização é o desmantelamento da financeirização, a des-mercantilização e a reorganização do mundo. É o projeto de construir, com os países do Sul e do Leste, um novo sistema de Bretton-Woods. É o keynesianismo do século XXI. Aí está porque é que a desmundialização é um projeto nascido ao Sul e que em que o próprio termo desmundialização foi forjado pelo sociólogo filipino Walden Bello.

É da França que nasceu e partiu o tsunami financeiro e a vaga de mundialização liberal; e é por conseguinte da França que deve partir o golpe de morte que à mundialização deve ser dado. Para a esquerda, chegou o tempo da confrontação com a finança, toda ela atingida profundamente pela ganância ilimitada. A hora de tornar a República mais forte que a economia também já chegou. A desmundialização é um repor a esquerda no seu lugar, ela que tem estado de pernas para o ar desde a vitória das ideias liberais em 1983.

Face à crise da mundialização, o socialismo redistributivo, apoiado no Estado providência, é um impasse; o socialismo do acompanhamento, enfermeiro da economia liberal, é uma impostura; o socialismo da transformação, o que quer alterar as regras da finança e da economia, é doravante um imperativo.

“Ao longo dos anos 2000, os lucros da economia real foram confiscados pelo sistema financeiro que se pôs em marcha e por sua própria conta e para os seus líderes, em condições extravagantes (…). Vai ser necessário regressar a um conceito de mundialização mais são e mais refletido. A mundialização dos transportes, das comunicações, da informação é legítima. Mas o risco financeiro deve permanecer controlado. É necessário ter consciência: se não se fizer nada, haverá outras crises, sem dúvida bem mais graves (…). O regresso ao protecionismo, não será por esta vez, mas se-lo-á aquando da próxima crise. De um só um golpe, a lógica da mundialização aparecerá então como inadaptada. ” De quem são estas afirmações sem apelo nem agravo? De Emmanuel Todd? De Arnaud Montebourg? Não, de Valéry Giscard d’Estaing.

A esquerda tem uma escolha a fazer: ou continuar a recitar a mesma cartilha neoliberal e livre-cambista – ou seja, a defender a mundialização – e então a história varrê-la-á do plano da política ou procurar compreender o que se jogou desde 1983 e enfrentar a realidade do mundo: neste último caso, seria então fiel à sua vocação histórica e o futuro poder-lhe-ia sorrir de novo.


A  acabar esta série deixamos aqui sugestões de leitura de textos que estiveram presentes direta ou indiretamente em  toda esta série:

  • Le Bruit de la main gauche, Charles Salzman, Robert Laffont, 1996.
  • François Mitterrand, les années du changement, 1981-1984, sous la direction de Serge Berstein, Pierre Milza, Jean-Louis Bianco, Perrin, 2001.
  • Histoire du franc, Georges Valance, Flammarion, 1998.
  • Défis républicains, Jean-Pierre Chevènement, Fayard, 2004.
  • Les journaux télévisés de l’époque (sur le site de l’Institut national de l’audiovisuel) et les archives du Monde.
  • La deuxième droite, Jean-Pierre Garnier et Louis Janover, Robert Laffont, coll. Libertés, 2000.
  • Lettre ouverte à ceux qui sont passés du Col Mao au Rotary, de Guy Hocquenghem
  • La décennie, le cauchemar des années 80, de François Cusset
  • Le grand bond arrière et Quand la gauche essayait, de Serge Halimi
  • Et la vertu sauvera le monde et Fonds de pension, piège à cons, de Frédéric Lordon
  • Journalistes précaires – Journalistes au quotidien, sous la direction d’Alain Accardo, avec une longue contribution de Gilles Balbastre
  • Libération – de Sartre à Rothschild, de Pierre Rimbert
  • D’une révolution conservatrice et de ses effes sur la gauche française, de Didier Eribon
  • Une nouvelle vassalité : Contribution à une histoire politique des années 1980, d’André Bellon
  • Vive la crise ! ou l’art de répéter (inlassablement) dans les médias qu’il est urgent de réformer, de Sebastien Fontenelle
  • Capital Rules- The contruction of global finance, de Rawi Abdelal.

Texto original aqui

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