A propósito do Reino Unido. Reflexões sobre um sistema político falhado. Parte 1: análise do resultado eleitoral do partido Trabalhista (1ª parte). Por Will Denayer

Seleção e tradução de Francisco Tavares

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Reflexões sobre um sistema político falhado. Parte 1: análise do resultado eleitoral do partido Trabalhista (1ª parte)

Por Will Denayer(*), Will denayer

Publicado por Flassebeck-economics, em 20 de junho de 2017 flassbeck_logo

“Quando os historiadores escreverem sobre estas eleições – na medida em que se interesem por isso – não falarão sobre a tributação da demência [referência à proposta dos Conservadores sobre a assistência aos idosos], ou aos campos de trigo, ou aos políticos que se esquecem das suas verbas. Admirar-se-ão como uma democracia avançada pôde realizer umas eleições gerais sem abordar a questão que estava prestes a mudá-la para sempre” (Ian Dunt – ver aqui).

Pela primeira vez, Jeremy Corbyn foi aplaudido de pé pelos parlamentares, essencialmente sociais democratas neoliberais, do PLP (i.e. parlamentares ‘New Labour’) os quais, nos últimos dois anos, o tinham boicotado, minado a sua posição, contestado a sua liderança, conspirado contra ele, ridicularizado abertamente as suas políticas e a sua pessoa e votado contra ele em várias ocasiões.

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Figura 1: Resultado das eleições gerais de 2017 (fonte: Michael Roberts –aqui)

 

A idade é o novo indicador chave da intenção de voto na política britânica

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Figura 2: Comportamento do voto dos adultos nas eleições gerais de 2017, por idade (fonte: YouGov)

 

A ideia dominante agora é que o futuro parece brilhante para o partido Trabalhista. O partido Trabalhista ganhou o voto da faixa etária dos 18-25 anos. Na faixa dos 35-44 anos, 50% votaram Trabalhista (ver aqui). Não há dúvida que Corbyn esteve bem. Dadas as circunstâncias, ele esteve muitíssimo bem. Agora ainda há euforia no ar. Veja-se, por exemplo, o que diz Jonathan Cook, um autor perspicaz, competente e honesto (o seu excelente site pode ser visto aqui). Cook compara o resultado de Corbyn com os de Tony Blair, ao mesmo tempo o menino prodígio dos New Labours e o mais firme crítico de Corbyn.

Blair teve 36% dos votos em 2005 – muito menos do que Corbyn. Teve 41% em 2001 – mais ou menos o mesmo que Corbyn. A esmagadora vitória de Blair em 1997 foi obtida com 43% dos votos, somente dois pontos percentuais acima de Corbyn.

Em conclusão, escreve Cook,

Corbyn provou ser o líder trabalhista mais popular entre o eleitorado em mais de 40 anos, exceção feita à vitória de Blair (…) Recordemos o preço pago por Blair (…) Nos bastidores, ele vendeu a alma do partido Trabalhista à City, às grandes empresas e seus representantes. (…) As grandes empresas mobilizaram toda a sua máquina de propaganda para porem Blair no poder. E no entanto conseguiu-o apenas com mais dois pontos percentuais do que Corbyn, que teve essa mesma máquina de propaganda contra ele.”

A maioria esmagadora de Blair em 1997 foi o pico do seu sucesso. Quando os membros trabalhistas se aperceberam do que ele tinha feito, o apoio desvaneceu-se até que foi forçado a demitir-se e a transmitir um partido profundamente danificado a Gordon Brown. Contudo, escreve Cook, “diferentemente de Blair, que transformou o partido Trabalhista num partido Thatcher mais leve, Corbyn está a reconstruir o partido Trabalhista num movimento social para políticas progressistas.”

Georges Monbiot também vê uma mudança positiva. O problema que ele coloca é de extrema relevância: o pernicioso papel da imprensa. A imprensa bilionária, diz Monbiot, atirou com utdo o que tinha contra Corbyn e fracassou em acertar-lhe. Ao fazer isso, opine Monbiot, quebrou o seu próprio poder. Não são de forma alguma somente os tabloides que constituem o problema. “Não vale a pena esconder ou minimizar isto” escreve Monbiot, “estas eleições foram um desastre para todas as entidades dominantes. Os prémios de imprensa são dados àqueles que refletem o consenso, e negados àqueles que pensam de modo diferente. As pessoas não saem deste círculo por receio de ridículo e exclusão. Os media como um todo sucumbiram a uma nova traição dos intelectuais, primeiro absorvendo as ideologias dominantes, e depois persuadindo cada um de que estas são as únicas ideias que vale a pena defender.”

Monbiot está absolutamente certo, mas porque pensa ele que a situação irá melhorar? Cook também tem toda a razão, mas porque pensa ele que é possível ao partido Trabalhista reconstruir-se em movimento social para políticas progressistas enquanto apoiar o Brexit? Estas são as questões fundamentais. Começando pela imprensa, não é óbvio que os leitores dos tabloides não vêem as notícias e que não se interessam por isso? O “media liberal” é um termo erróneo. Se alguma coisa vai acontecer, será provavelmente que os ataques a Corbyn e à esquerda trabalhista aumentarão. Na verdade, porque haveriam de parar, agora que o inimigo se tornou mais forte?

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Figura 3: A “imprensa” britânica em plena glória (fonte: Google Images)

Tomemos o Telegraph deste fim de semana. Primeiro colocou um artigo com o título “não se deixem enganar, a apropriação de terrenos de Corbyn é o primeiro passo em direção á tirania.” Stephen Pollard escreve que:

Até mesmo os eleitores conscientes da sua defesa de causas defendidas por terroristas e o seu fracasso em lidar com o anti-Semitismo no seu partido parecem não estar preocupados. Pensam Eles vêem o sr. Mr Corbyn como um homem cujos erros decorrem de decência inata – fundamentalmente como um homem bom que erra ocasionalmente, mas sempre com a melhor das intenções. A realidade é muito diferente” (ver aqui).

Esta peça de maravilhoso discernimento foi seguida de um artigo de Michael Spicer sobre os a Grã-Bretanha. Como ele escreve:

O sr. Corbyn passou trinta anos empunhando uma marca de extremismo ideológico de esquerda dura e, tal como os seus colegas revolucionários, prepara-se para empurrar, e mesmo a quebrar, até aos limites da decência para prosseguir os seus fins. O seu comportamento a respeito do desastre da Grenfell Tower e, há duas semanas, sobre o ataque terrorista da London Bridge é revelador” (aqui).

Finalmente, foi a vez de Andrew Lilico quanto ao plano de Corbyn de “confiscar” (sic) as casas das pessoas ricas para as vítimas de Grenfell:

Tenho a impressão que os eleitores jovens acham que as simpatias de extrema esquerda de são uma história antiga irrelevante para o seu posicionamento político atual  — uma espécie de namorico de juventude. “Aquilo que aconteceu nos anos oitenta deveria ficar como era nos anos oitenta” (ver aqui).

O artigo continua, explicando que isso é uma falácia fatal: Corbyn nunca mudará. Ele continua a ser um esquerdista radical. E que mais?

Ou ler as contribuições de Evans-Pritchard, também no  Telegraph: “A Grã-Bretanha de Theresa May tornar-se-á o paraíso da Europa, ordeiro e calmo” (aqui). Para a seguir perguntar o manifestamente óbvio: um paraíso de ordem e calma para quem? Para os sem abrigo? Para os usuários dos bancos alimentares (como as enfermeiras do NHS – pessoas com emprego)? Para os expulsos da assistência social? Para os idosos que não podem aquecer as suas casas no inverno morrendo algumas centenas? Para os desempregados ou os da zero horas? Para os trabalhadores que têm os seus salários estagnados? E tudo isto enquanto o apodrecimento no país continua a espalhar-se literalmente por toda a parte? É por acaso um paraíso de ordem e calma para os habitantes da torre Grenfell que morreram queimados na semana passada porque os parasitas neoliberais eram demasiado sovinas para colocarem extintores de incêndio no edifício, utilizaram os materiais errados e agora têm a escandalosa temeridade de dizer que isso tinha sido uma boa decisão? (“Penso que deveríamos estar orgulhosos de nos termos livrado de uma quantidade de regulamentação desnecessária tornando a vida mais fácil”, disse Philip Hammond. De qualquer modo  “os extintores de incêndio poderão nem sempre ser o melhor meio técnico para assegurar segurança contra incêndios,” disse Hammond (ver aqui mais um grande exemplo da imparcialidade e humanidade dos Conservadores). Para todos aqueles apanhados pelo pior da austeridade, a Grã-Bretanha não é um paraíso mas um inferno disfuncional neoliberal. Este artigo saiu depois de um outro do mesmo autor sobre a esquerda em França durante as eleições presidenciais nesse país: ‘A Europa corre o risco de um pesadelo à medida que um ‘bolchevique’ anti-euro assola a França’ (ver aqui). Uma citação é suficiente:

A meteórica ascensão de Jean-Luc Mélenchon sobre uma plataforma Proudhonista – senão mesmo Bolchevique – alterou a equação. Ele é tão nacionalista e radical como Marine Le Pen da Frente Nacional (…) Ambos os candidatos são anti-alemães, anti-americanos, anti-globalistas, anti-NATO, e pro-Putin. Ambos querem rasgar os tratados da UE” (ver aqui).

Imaginem, este é o mesmo Evans-Pritchard que comunicou a todo o mundo no ano passado que iria votar a favor do Brexit.

O silêncio tem sido a arma de alguns daqueles que deveriam estar ao lado de Corbyn. Social Europe, um portal social democrata que publica dois artigos todos os dias úteis, publicou apenas (se não me engano) um par de artigos sobre Corbyn nos últimos dois anos. Houve um artigo no ano passado sobre o terrível problema de anti-semitismo dentro da esquerda do partido Trabalhista (escrevi dois artigos sobre o assunto, ver aqui e aqui – problema terrível esse que não existe) e um artigo de seguimento sobre o mesmo assunto alguns meses mais tarde (repetindo o disparate). Para Social Europe, Corbyn não existiu e não existe. Será que estes social democratas preferem um governo Conservador a um governo de esquerda do partido Trabalhista? É um problema muito importante. Se tivesse havido uma discussão honesta, ter-se-iam tido alguns ganhos, por exemplo em relação ao Brexit. Recentemente, houve alguns contributos sobre a austeridade no Reino Unido e sobre o Brexit, por exemplo de Wren-Lewis (ver aqui). Mas o problema persiste: quem é Corbyn?

 

(continua)

Texto original em http://www.flassbeck-economics.com/reflections-on-a-failed-political-system-part-1-analysis-of-labours-electoral-result/

(*) Will Denayer estudou Ciência Política na Universidade de Bruxelas e Educação na Universidade de Ghent. Doutorado pela Universidade de Estado de Leiden (Holanda) em 1993 com uma dissertação sobre o pensamento político de Hannah Arendt. Denayer tem sido investigador na Universidade Católica de Lovaina, na Universidade de Ghent e no Trinity College em Dublin e foi professor de Ciência Política e de Economia Política na Universidade de Cork. Os seus interesses situam-se em teoria económica, teorias das crises capitalistas, sociologia do sistema mundial, controlo da mudança climática e desigualdade. Trabalha como investigador independente e escritor.

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