A propósito do Reino Unido. Reflexões sobre um sistema político falhado. Parte 1: análise do resultado eleitoral do partido Trabalhista (2ª parte). Por Will Denayer

Seleção e tradução de Francisco Tavares

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Reflexões sobre um sistema político falhado. Parte 1: análise do resultado eleitoral do partido Trabalhista (2ª parte)

Por Will Denayer(*), Will denayer

Publicado por Flassebeck-economics, em 20 de junho de 2017 flassbeck_logo

(continuação)

A essência do problema é que vivemos numa redoma em que consideramos essas pessoas como sendo “jornalistas”, os jornais tais como o  Telegraph como pertencendo à imprensa dominante decente e  Social Europe como um portal que proporciona informação imparcial. Escolhemos viver nessa redoma, porque a explicação alternativa – de que vivemos numa espécie de ditadura suave – é demasiado dura para ser aceite. Se não vivemos numa espécie de ditadura, há coisas que não consigo compreender. Se um terrorista mata pessoas na rua, todos concordamos que isso é terrível e inaceitável. E devemos concordar. Todos estamos de acordo de que devem ser tomadas medidas de forma a que essa crueldade sem sentido não ocorra de novo. Isso é indiscutível. Certamente.

Mas quando a Universidade de Oxford publica um estudo que diz que, no decurso do domínio dos Conservadores, ocorreu um excesso de mortos da ordem dos 30.000 devido a avaliações de aptidões de trabalho e à austeridade (ver aquiaqui  e aqui) é-se apelidado de “defensor inválido” quando se escreve sobre o assunto ou “radical” ou ainda simplesmente “arruaceiro”. Nas ditaduras a verdade é sempre tratada como se de uma praga se tratasse. São estabelecidos limites sobre o que pode ser dito, como e onde. Isso não impede que as pessoas estejam a morrer – pessoas “normais”, como se lhes chamam. Isto já torna a coisa um pouco menos dramática. Cria distância, porque quem de nós pensa sobre si mesmo como pessoa “normal”? Houve alguns tipos normais que, no paraíso de calma e ordem de Cameron, foram sancionados pelo Departamento de Trabalho e Pensões (DWP) e deixaram de poder pagar a conta da eletricidade, pelo que a sua insulina apodreceu no frigorífico até que morreram de cetoacidose diabética – com uma pilha de CVs em cima da mesa (o seu nome era senhor David Clapson). Há alguns 30.000 casos destes. Por alguma razão completamente ilógica e absolutamente ignóbil a isto não chamamos terrorismo. Claro que não, porque onde vamos buscar a ideia de que a providência social está lá para proteger as pessoas? Claro que não, porque, afinal de contas, fomos nós que o fizemos. Encontramos sempre uma palavra para tudo, uma explicação para todo o nosso sadismo e disfunção e uma solução para nada. Assim, sejamos cívicos e socializados e não falemos disso. Afinal, que se passa de errado consigo?

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Figura 4: Benefícios familiares recebidos pelos mais pobres e os 20% mais ricos em 2012/13. Isto tornou-se indubitavelmente pior no entretanto (Fonte: Ons.Gov).

 

O partido Trabalhista também vive numa redoma. Contra todas as expetativas, e totalmente por seu mérito, Jeremy Corbyn conseguiu obter um muito bom resultado (embora, obviamente, não o suficiente). Muitos no partido Trabalhista estão contentes e isso é bem compreensível. Na verdade, Corbyn deve ser sinceramente congratulado por esta campanha. Bravo, camarada, mas também tu acabarás do lado errado da história se não alterares a tua posição sobre o Brexit, duma maneira ou doutra. A estratégia do partido Trabalhista durante a campanha foi muito clara. Teve o cuidado de falar o menos possível sobre o Brexit durante a campanha. Em vez disso, cnetrou-se em assuntos internos, como o NHS, as propinas universitárias, a evasão fiscal e os benefícios sociais. Deste modo, foi possível matar dois coelhos de uma só cajadada: a sua posição a favor do Brexit assegurou não perderem votantes favoráveis ao Brexit. E não falando sobre o Brexit, mantiveram consigo os opositores do Brexit. Como disse Keir Starmer ,

a estratégia que adotámos foi uma estratégia que não apelava aos nem aos 52% nem aos 48%, e o partido Trabalhista seria o partido dos 0% (…) Sinto-me vingado: e não foi apenas uma inteligente resposta de advogado; foi politicamente astuto”.

Mas esta resposta é estritamente uma estratégia que acontece apenas uma vez. Na próxima vez os Conservadores não chafurdarão na sua sobranceria. Não serão conduzidos por uma mulher arrogante que não é capaz de responder claramente a qualquer questão, uma mulher cujo carisma e empatia são tais que as pessoas a comparam a uma máquina, uma mulher de tal modo forte e estável que recusou qualquer debate público.

Existe evidência de que muitos defensores da manutenção na UE votaram Trabalhista porque assumem que um Brexit com os Trabalhistas será menos destrutivo que com os Conservadores. Ainda que os Trabalhistas não tenham querido falar sobre o Brexit, a verdade é que é um partido partidário do Brexit. Um Brexit duro (fim da Liberdade de circulação, e por conseguinte, fim do acesso sem restrições ao mercado único) está no manifesto do partido Trabalhista. Os Trabalhistas têm sido consistentemente pro-Brexit, até mesmo favoráveis a um Brexit duro. No ‘Peston on Sunday’, McDonnell propôs um Brexit duro fora do mercado único – radicalmente contra as opiniões dos jovens companheiros que conduziram a explosão eleitoral trabalhista.

Dias mais tarde, no mesmo programa, Corbyn explicou que o partido Trabalhista quer um Brexit, que trate de “proteger postos de trabalho”, “proteger o investimento”, “proteger o comércio”, “proteger os direitos comunitários dos nacionais da UE que fiquem na Grã-Bretanha”, “proteger os direitos que obtivemos com a pertença à UE”, que o Brexit não trata de “ameaçar ir-se embora” ou “organizar uma economia de baixos impostos nas costas da Europa” mas, ao invés, que o Brexit trata de “construir uma economia conduzida pelo investimento e atingir uma maior justiça social (sic) no Reino Unido”.

Corbyn e os trabalhistas de esquerda estão enganados se pensam que este incoerente disparate tem asas para voar. Uma “economia com trabalho em primeiro lugar” e um “Brexit conduzido pelo investimento” são palavras vazias. Muitos defensores da continuação na UE [Remainers] afluíram ao partido Trabalhista porque ele é exemplo dos seus ideais: uma sociedade mais respeitadora, menos desigual, com serviços públicos funcionais. Mas o Brexit é um perigo letal para uma tal sociedade. Segundo a investigação de Helen De Cruz, 56% dos questionados que votaram Trabalhista apresentavam o terminar com o Brexit duro como opção de topo. Este motivo para votar Trabalhista estava entre os 3 principais para 76% dos votantes trabalhistas (a sua amostra foi considerada não representativa e YouGov apresentou outros dados entretanto. Segundo YouGov, dos 35% de votantes trabalhistas que disseram que o Brexit motivou o seu voto, 4% quer um Brexit duro, enquanto 27% se opõem à saída).

Os Remainers que votaram Trabalhista fizeram-no principalmente à custa dos Conservadores, embora os Verdes também perdessem votos para os Trabalhistas. Os Liberal Democratas ganharam – apelaram àqueles que recusavam votar a favor de um partido pro Brexit. Ganharam 4 lugares (12 no total). O perigo é que os Liberal Democratas conservadores suaves – que é aquilo que verdadeiramente eles são – ganharão mais. Corbyn e os estrategas trabalhistas querem tornar o Brexit não-discutível. A sua estratégia é propôr políticas para as quais exista um apoio generalizado. Esta eleição confirmou esta estratégia. Mas o Brexit não é não discutível. A oposição ao Brexit está viva e é crescente. Evidentemente, no momento em que as classes médias constatem a mordedura do Brexit, os Remainers terão desaparecido. E o mesmo sucederá ao partido Trabalhista.

Porque de que está Corbyn realmente a falar? Segundo May, o Reino Unido é a economia de crescimento mais rápido da Europa, embora, de facto, no primeiro trimestre de 2017, o PIB real do Reino Unido cresceu mais lentamente do que qualquer PIB das restantes economias do G7. A inflação tem tendência para aumentar futuramente, baixando os rendimentos reais e isso quando as famílias britânicas sofreram a mais longa estagnação do rendimento real dos últimos 166 anos (ver aqui). O défice comercial do Reino Unido com o resto do mundo continua a aumentar à medida que os exportadores britânicos não conseguem tirar partido de uma libra mais fraca e da subida dos preços de importação. A razão porque o capital britânico não está a ganhar com a desvalorização é que a manufatura britânica e os serviços ainda não são competitivos porque o crescimento da produtividade é virtualmente zero (ver aqui). É verdade que, se podemos confiar nos dados oficiais, o desemprego no Reino Unido diminuiu. Mas e depois, se afinal as pessoas que trabalham ainda têm que se socorrer dos bancos alimentares? Além disso, o crescimento do emprego abrandará e a produção nacional fraquejará salvo se a produtividade aumentar (ver aqui).

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Figura 5: Crescimento real dos salários no Reino Unido desde 1850 (Fonte: Bank of England)

É garantido que o Brexit, se não for revertido, tornará as coisas piores. Somente agora as pessoas estão a compreender as consequências da decisão tomada no ano passado de que a Grã-Bretanha votou, com efeito, para se tornar mais pobre. Foi Philip Hammond, sucessor de Osborne e perito atual em extintores de incêndio, quem, desafiando a obsessão de May com um Brexit duro, lhe recordou que as pessoas que votaram Brexit não votaram para ficarem mais pobres. Mas isso foi o que os 51,9% dos que votaram fizeram efetivamente (ver aqui).

A Universidade de Harvard publicou um  relatório altamente relevante  escrito por Ed Balls e Peter Sands, antigo chefe executivo do Standard Chartered. O relatório deixa uma mensagem simples: os empresários britânicos prefeririam não ter de enfrentar o Brexit de modo algum. Assim, “contrariamente a muitos dos comentários dos media e dos políticos, a maioria dos empresários (…) estavam geral mente satisfeitos com as orientações regulamentares existentes nos seus setores”, e “falavam da qualidade global das regulamentações da UE e dos processos de realização da regulamentação” (ver aqui).

Não vê Corbyn que o Brexit já fracassou em todas as promessas que fez? Corbyn recusa-se a ver que não existem benefícios conhecidos do Brexit, apenas prejuízos sociais, políticos e económicos. Até ao dia de hoje, não existe uma análise séria, feita por um investigador sério, que indique benefícios reais do Brexit para a população britânica.

Para ir ao cerne do Brexit, basta fazer uma simples pergunta: cui bono [a quem beneficia]? A única conclusão possível é que o Brexit encolherá a economia, mas os plutocratas, que governam o país, terão uma fatia maior de uma tarte mais pequena. Ainda ficarão mais ricos e aumentarão a sua influência. O estado da economia ou o destino do país nada significa para estas criaturas que Veblen tanto desprezava e com toda a razão (ver aqui).

Os plutocratas conseguiram baixar os níveis de vida. Introduziram uma ácida austeridade. As suas obsessões com o “défice” enganaram as pessoas que não compreendem que uma nação não é um agregado familiar e que cortes na despesa pública são o inverso do que é necessário em tempo de depressão. E de que fala muita gente? As pessoas foram absolutamente enganadas e contaram-lhes mentiras. A federação dos camionistas britânicos, os fabricantes de automóveis do Sunderland não se opõem à austeridade, eles querem o seu país de volta. Trata-se tudo do disparate doentio da soberania e da imigração (ver aqui). Que teria acontecido se o partido Trabalhista se tivesse oposto a estas mentiras que protegem os plutocratas? Muito provavelmente teriam perdido esta eleição, porque o senso comum não sobrevive onde a verdade é tratada como se fosse uma doença contagiosa. Mas e então? Afinal eles perderam. Mas talvez pudessem ter ganho. Teria sido a maior vitória eleitoral dos tempos modernos. Matéria de livro de história. A prova de que, por vezes, a política trata de princípios e de discernimento racional. Mas Corbyn não quis travar esta guerra.

Como reunirá Corbyn a sua ‘Grã-Bretanha conduzida por investimento’? De onde aparecerão magicamente todos estes postos de trabalho post-Brexit? A resposta não é ideológica ou de preferências, mas de lógica: se o divórcio ocorrer a Grã Bretanha estará a caminho de se tornar uma economia super-privatizada, de baixos impostos e fraca regulamentação. Este é o único caminho que resta para atrair investimento para o país. E mesmo então o estado deplorável da indústria britânica poderá assustar os investidores, apesar das leis sociais minimalistas, a miséria dos contratos zero horas e dos salários estagnados ou em queda. Entretanto, as importações ficarão mais caras. Isto não parece que seja estratégia para “atingir mais justiça social na Grã Bretanha.” A agenda social trabalhista não é conciliável com a sua posição sobre o Brexit. O Brexit não irá desaparecer. O partido Trabalhista estará do lado lado certo ou errado do Brexit (ver a petição ‘My vote for Labour was not a vote for the Brexit aqui).

Não, Corbyn não pode levantar-se hoje e dizer que o partido Trabalhista está a abandonar o Brexit. Isso é ridículo. As mensagens incoerentes que os Trabalhistas emitem – “precisamos de sair, mas queremos manter a maior parte (senão todas) das vantagens de pertencer à UE” – são puramente palavras sem sentido. Faz sentido acreditar que estarão destinadas a dar ao partido suficiente espaço para mudar – e mudar drasticamente – quando a opinião pública se orienta contra a saída da UE. Esperamos que assim seja. As negociações secretas entre Trabalhistas e Conservadores quanto a um Brexit “suave” (?) apontam nessa direção. Mas as convicções de Corbyn apontam em sentido contrário. A posição de Corbyn baseia-se numa aversão ideológica de longa data à adesão à UE. Isto não é propaganda de direita. É simplesmente a verdade. Alan Johnson da campanha Labour In recorda que “durante meses, Corbyn e o seu gabinete resistiram às chamadas minhas e da campanha  Labour In  para que declarasse o seu apoio pessoal a ficar na Europa.” Quando se propôs fazer filmes quinzenalmente videos para o Facebook, dizendo aos apoiantes de Corbyn o que ele fazia, o que teria sido natural no meio de tão histórica campanha eleitoral, ele recusou. Will Straw, que na altura era director da campanha Stronger In  e candidato trabalhista em 2015, diz que demorou 6 meses a conseguir o único encontro que teve com a equipa de Corbyn. Foi em Março. “Foi sem esperança basicamente,” diz Straw. “Ele (Corbyn) não se quis comprometer.”

De Cruz termina o seu artigo com as seguintes palavras: “Daqui a vários anos as divisões entre Leave e Remain serão menos salientes do que são agora. Por essa altura, apelos à “vontade do povo” à medida que o nível de vida se afunda não será politicamente conveniente com o é agora. Trabalhistas, prestem atenção.”

Poderá ler na segunda parte deste artigo sobre as negociações em curso entre os Conservadores e o DUP[partido Unionista da Irlanda do Norte]. Ou, para terminar com uma nota de “humor”, como disse Frankie Boyle, a fim de ter um governo moderno, May está agora a negociar uma coligação com a ala direita do Velho Testamento. Tais são os tempos desesperados em que vivemos. A fim de salvaguardar a democracia, governaremos com alguns dos maiores fanáticos da Europa.

A mais imponente e efetiva de todas as mentiras no pressuposto de harmonia do eixo sobre o qual gira o mundo capitalista. É precisamente esta mistificação que é necessário destruir. Há muito tempo, Marx escreveu que:

A parte final do capitalismo será marcada por desenvolvimentos que são familiares para a maioria de nós. Incapaz de expandir e gerar lucros aos níveis do passado, o sistema capitalista começará a consumir as estruturas que o sustêm (…) Realocará, como o fez, cada vez mais postos de trabalho, nomeadamente substituindo posições fabris e profissionais por equipas baratas de trabalhadores. As indústrias mecanizarão os locais de trabalho (…) Os políticos tornar-se-ão, na última fase do capitalismo, subordinados do poder económico, levando os partidos políticos a esvaziarem-se de qualquer conteúdo político e ficarem abjetamente submissos aos ditames e dinheiro do capitalismo mundial.”

Se ele estiver certo, tem razão. A mensagem é clara: partido Trabalhista põe-te de pé!

Texto original em http://www.flassbeck-economics.com/reflections-on-a-failed-political-system-part-1-analysis-of-labours-electoral-result/

(*) Will Denayer estudou Ciência Política na Universidade de Bruxelas e Educação na Universidade de Ghent. Doutorado pela Universidade de Estado de Leiden (Holanda) em 1993 com uma dissertação sobre o pensamento político de Hannah Arendt. Denayer tem sido investigador na Universidade Católica de Lovaina, na Universidade de Ghent e no Trinity College em Dublin e foi professor de Ciência Política e de Economia Política na Universidade de Cork. Os seus interesses situam-se em teoria económica, teorias das crises capitalistas, sociologia do sistema mundial, controlo da mudança climática e desigualdade. Trabalha como investigador independente e escritor.

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