AS ELEIÇÕES ALEMÃS: AS QUESTÕES ERRADAS E NENHUM CONCEITO PARA O FUTURO – por HEINER FLASSBECK – selecção e tradução de FRANCISCO TAVARES

As eleições alemãs: as questões erradas e nenhum conceito para o futuro

Heiner Flassbeck, The German election: the wrong issues and no concept for the future

Flassbeck Economics, 26 de Setembro de 2017

 

Muito pode acontecer em quatro anos. Nas eleições gerais anteriores, o centro-esquerda ganhou a maioria. O Partido Social Democrata (SPD) estava em condições de formar um governo com os Verdes e o Partido da Esquerda (Linke), que poderia ter acabado com a estagnação política na Alemanha e até mesmo ter proporcionado à Europa um impulso novo e progressivo. O SPD também poderia ter forçado Angela Merkel a liderar um governo minoritário, dando ao SPD a chance de influenciar a política enquanto forte partido de oposição. Em vez disso, os social-democratas escolheram a linha de menor resistência, juntando-se a Merkel numa grande coligação e apoiando políticas que eram exatamente o oposto dos princípios e objetivos social-democratas.

Hoje, o SPD enfrenta um desastre de sua própria criação, embora a aliança de Merkel (uma união do seu Partido Democrata Cristão, CDU e o partido irmão bávaro, a União Socialista Cristã, CSU) tenha tido o pior resultado eleitoral em 50 anos. É caso para perguntar quantas bebidas à borlas foram servidas antecipadamente àqueles que participavam na “celebração” da eleição na sede do SPD em Berlim para garantir que a multidão aplaudiria o discurso do líder do partido, Martin Schulz? O SPD deixou de ter opções políticas viáveis – algo que pelo menos a liderança do partido parece ter entendido. Mas isso não impedirá o SPD de continuar da mesma maneira. Sem quaisquer políticas alternativas reais, o SPD terá dificuldade em desenvolver um perfil forte, especialmente quando confrontado com o mix de políticas a serem estabelecidas por uma futura coligação da aliança de Merkel, com os Democratas Liberais Libres (FDP) e os Verdes.

A frase sonante mais ridícula após os resultados das eleições foi a afirmação repetidamente feita pelo: “Juntos ganhamos, juntos perdemos”. Este é o tipo de coisa que se poderia esperar de um clube de futebol que enfrenta a despromoção, onde ninguém está disposto a assumir a responsabilidade pelo desastre. Para o SPD isso significa implicitamente, não mudaremos nada, e o nosso líder era apenas uma figura de proa, sem o carácter para assumir a responsabilidade pelo programa falhado do partido. Se Jeremy Corbyn não tivesse sido tão bem sucedido nas recentes eleições gerais britânicas, ele certamente teria renunciado como chefe do Partido Trabalhista, pois era responsável por sua nova política progressista. Por outras palavras, uma vez que Schulz nada contribuiu para o programa político do SPD, ele dificilmente pode ser responsabilizado pelo seu fracasso.

Na cobertura da televisão após os resultados iniciais das eleições, a Sra. Merkel pareceu cansada e frustrada. Ela também deveria ter se demitido – algo que ela percebeu durante a transmissão. A nova coligação será muito mais difícil de administrar do que com o SPD, devido às importantes diferenças políticas entre o FDP e os Verdes. Ela não só tem que encontrar compromissos, ela tem que lidar com o inchado líder do Partido Liberal, Christian Lindner.

Nas eleições, a sociedade alemã demonstrou que perdeu o sentido da proporção das coisas politicamente. Não apenas no debate televisivo entre Merkel e Schulz, mas em quase todos os programas produzidos pela media, a política de refugiados foi apregoada como a questão mais importante das eleições. Isso foi o alimento político ideal para o partido de ultra-direita, Alternativa para a Alemanha (AfD), com sua ideologia anti-imigrante, ultra-nacionalista e anti-muçulmana. A Sra. Merkel já respondeu a inúmeras questões sobre a sua política de refugiados em 2015, mas quando o AfD declarou que seu principal objetivo, com seus assentos recém-conquistados no parlamento, será questionar a legalidade de algumas dessas decisões políticas, ela pode muito bem pensar que este poderia ser um preço muito alto para ela mesmo pagar.

Por conseguinte, não foi surpreendente que, na discussão televisiva pós-eleitoral, Merkel tenha concordado com Katja Kipping, co-líder do Partido da Esquerda, que se queixou de que demasiada importância havia sido dada à questão do refugiado e que outras questões urgentes foram ignoradas: política social, aumento da desigualdade, pobreza e pensões, investimento negligenciado em infraestrutura pública, estado desolador da União Europeia. Todos estes assuntos foram desconsiderados por causa da obsessão irracional dos media alemães, especialmente dos media estatais, retratando a política de refugiados como a questão eleitoral mais importante.

Eu não acredito que exista uma especial tendência de direita por trás disso. Mas a questão dos refugiados é fácil para os jornalistas compreenderem: as questões são claras e as diferenças entre as partes são simples de identificar. Por que haveriam os jornalistas de abordar questões difíceis, como a política económica e financeira europeia, quando podem produzir um show muito melhor usando uma questão tão simples?

O que a Alemanha agora pode esperar será uma caída sem precedentes dos detalhes dos argumentos. A Sra. Merkel tentará pressionar com as suas políticas como de costume. Os Verdes, o partido mais fraco da coligação, irão batalhar a cada minuto para melhorar a política da Alemanha sobre mudanças climáticas. O FDP tentará diminuir o Estado sempre que possível. Este é um choque fundamental, embora a retórica das duas partes seja similar. Para provar que tem alguma opinião na política, o FDP também pressionará para mais privatizações e apoio às médias empresas. Isso não só aumentará a desigualdade na sociedade alemã, mas também agravará erros passados no programa de pensões público da Alemanha.

A política da UE do FDP é especialmente desastrosa, e os Verdes provavelmente não serão suficientemente fortes para limitar os danos causados. O FDP quer responsabilizar cada Estado membro por quaisquer desenvolvimentos negativos, recusa-se a reconhecer os desequilíbrios da UE causados pela Alemanha, e gostaria muito de introduzir uma lei de falências para estados individuais da UE. Uma vez que o FDP não possui uma política económica digna desse nome, recusar-se-á a reconhecer os erros de política catastróficos dos últimos anos que até os conservadores agora assumem. Se o senhor deputado Lindner conseguisse tornar-se ministro das Finanças, poderíamos acabar por encontrarmo-nos todos a implorar o retorno de Wolfgang Schäuble.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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