CARTA DO RIO – 172 por Rachel Gutiérrez

A atriz e produtora Ruth Escobar morreu na tarde da última quinta-feira, 5 de outubro (5) aos 81 anos, informou a Associação de Produtores de Espetáculos Teatrais do Estado de São Paulo (Apetesp). O obituário publicado no dia seguinte, pelo jornal O Globo, a definiu como “empreendedora e militante das artes cênicas”; e um artigo, no mesmo jornal, assinado por Gerald Thomas, a chamou de “Mãe do moderno teatro brasileiro.”

Notícia de um outro jornal revelou que a morte da grande atriz ocorreu no Hospital Nove de Julho, em São Paulo, onde vivia.

Quero lembrá-la também como ativista política, ex-deputada e primeira presidente do Conselho Estadual da Condição Feminina, criado em São Paulo nos idos de 1980, quando mulheres de todo o Brasil fomos suas companheiras de luta.

No Rio, nosso Grupo de Reflexão, o Mulherando, publicou uma agenda, para o ano de 1986, com 12 textos escritos por mim sobre mulheres do Brasil e do mundo que julgávamos importantes e representativas do Movimento Feminista então em franca atividade. E entre tais mulheres encontrava-se, naturalmente, a exuberante Ruth Escobar.

Sob sua bela foto, reproduzimos um pequeno trecho do discurso que ela pronunciara ao tomar posse como Deputada Estadual em São Paulo:

“… me elegi para lutar pelos Direitos Humanos, pelos direitos das chamadas minorias, pelos direitos da mulher,  do homossexual, dos negros, pelo direito à vida, à educação, à  saúde, ao prazer, pelo direito à liberdade.”

E eis o meu texto:

A fascinante mulher de teatro, combativa, e incansável militante política e feminista, Ruth Escobar, nascida na cidade do Porto, em Portugal, veio, aos 16 anos, para São Paulo, onde iniciou uma carreira de múltiplas faces.

Proprietária da revista “Ala Arriba”, projetou-se como a inteligente entrevistadora de personalidades famosas. No Teatro, destacou-se não apenas pelo brilho de suas atuações, mas pela corajosa escolha do repertório. Produziu, encenou e trabalhou como atriz em peças de vanguarda e de profundo sentido político como “Mãe Coragem” obra-prima de Brecht, “Cemitério de Automóveis”, de Arrabal, “A Missa Leiga” de Chico de Assis e “O Balcão”, de Jean Genet, que recebeu mais de vinte prêmios e consagrou o nome de Ruth Escobar internacionalmente como produtora e atriz de Teatro de Vanguarda.

Antifascista e defensora dos direitos humanos, Ruth encenou também “A Revista do Henfil” e “Fábrica de Chocolates”, contestadoras peças políticas num período difícil de nossa história recente. Em 1978, participou da fundação do Comitê Brasileiro pela Anistia e organizou no teatro Ruth Escobar, o 1º Congresso Internacional pela Anistia no Brasil.

Em 1979. Ruth fundou a Frente de Mulheres Feministas de São Paulo e colaborou na criação do Conselho Estadual da Condição Feminina, empossado no atual governo de André Franco Montoro.

Deputada Estadual pelo PMDB de São Paulo desde 1982, com sua extraordinária tenacidade Ruth vem ocupando a Tribuna Parlamentar para defender a mulher, a criança, as minorias e a Cultura.

Eleita personalidade cultural do ano de 1982, pela UBE/RJ, agraciada com a Medalha Anchieta e o Diploma de Gratidão da cidade de São Paulo, em 1984, homenagem também prestada a Zuleika Alambert, sua companheira de luta, Ruth Escobar realizou. No mês de outubro do ano passado, o 1ºSeminário sobre Mulher e Política.

E para completar esta homenagem, reproduzo agora outras notícias dos jornais da última sexta-feira:

 Ruth Escobar montou a companhia Novo Teatro, com o diretor Alberto D’Aversa, e protagonizou peças escritas ou dirigidas pelo marido, Carlos Henrique Escobar. Ela foi a estrela de espetáculos como “Antígone América” (…) e “Males da Juventude”, de Ferdinand Bruckner, em 1961, ambas dirigidas por D’Aversa. 

Em 1964, passou a investir mais no teatro popular, transformando ônibus em palcos e levando peças para várias regiões de São Paulo, no projeto Teatro Popular Nacional. Na década de 60, produziu peças como “Júlio Cesar”, de William Shakespeare.

Nos anos 70, [a montagem da peça “Missa Leiga”, de Chico de Assis ] causou polêmica por ter sido proibida de utilizar a Igreja da Consolação como palco e acabou sendo encenada em uma fábrica.

Nos anos seguintes, ela se dedicou ao Centro Latino-Americano de Criatividade e ao Festival Internacional de Teatro, em São Paulo. Outra iniciativa de Ruth foi a Feira Brasileira de Opinião, em 1976, com espetáculos dos mais importantes dramaturgos da época. O evento foi “interditado” pela censura.

Voltou a atuar [em 1977 quando] interpretou Ilídia de “A Torre de Babel” e trouxe a São Paulo o autor Fernando Arrabal para dirigi-la. A lista de peças ganha novos capítulos com “Caixa de Cimento”, quando foi dirigida por Juan Uviedo, e “Fábrica de Chocolate, peça que ela produziu a partir de texto de Mario Prata sobre a tortura.

Nos anos 80, (…) deu uma pausa na carreira. [Foi então] eleita duas vezes deputada estadual.

(…) em 1987, lançou o livro “Maria Ruth – Uma Autobiografia”. E em 1990, retornou aos palcos, numa encenação de Gabriel Villela, de Relações Perigosas, de Heiner Müller.

 Estive poucas vezes com Ruth Escobar. Mas jamais vou esquecer que quando fui apresentada a ela, na casa de uma companheira feminista, ao ouvir meu nome ela exclamou sorrindo com grande simpatia: – Você é a Rachel, a autora de O Feminismo é um Humanismo, assim pequenina? Imaginei você uma mulher muito mais alta e forte!  E eu, que costumo ter respostas prontas na ponta da língua, talvez um tanto intimidada, não fui capaz de retrucar, brincando, qualquer coisa tola sobre “frascos pequenos” ou que pequeno, em estatura, Napoleão também o foi.

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: