A GALIZA COMO TAREFA – faunos – Ernesto V. Souza

Andam faunos pelos bosques era o título daquele, duas – ou até três – vezes clássico e delicioso romance do Aquilino Ribeiro. Não sei se lembram aquela histeria coletiva e fantástico conclave rural de Padres, que se sucede arredor de uns ataques inexplicáveis às donzelas e mocinhas, no mundo camponês e labrego daquele Norte quase congelado no tempo, mas nos princípios do século XX.

Fauno 1941 Castelao

Castelao ‘Fauno’ (1941)

Inexplicáveis os feitos, demoníacos talvez e certamente malignos. Faunos, demos, diabos, criaturas míticas, teologias, saberes populares e retóricas clássicas. Padres com filhos, amas, hortas e vinhas que atender num rural bem arrumadinho de numerosa e humilde população. Hoje os tempos são outros. Post modernos. Outra é também aquela sociedade e paisagem.

O presidente da Junta da Galiza, Alberto Nuñez Feijóo, fez uma declaração institucional na Segunda feira passada a respeito dos incêndios que arrasaram milheiros de hectares, provocaram incalculáveis destroços nas propriedades, uma imensa devastação na paisagem e causaram quatro vitimas mortais.

“Estamos loitando contra o impossível”, disse o presidente Feijóo. A seca, os ventos rachados da cauda do Ophelia, as alucinantes condições meteorológicas, tudo se conjurou com “os lumes que entrarom de Portugal” e o “terrorismo incendiário“.

E o presidente destacou: “Galicia está farta de que se relativice o terrorismo incendiário, farta de que se aproveiten das condicións meteorolóxicas, o terrorismo incendiário non só destrúe o patrimonio, senón que pon en risco vidas”.

“A Galicia quéimana, non arde”, insiste Nuñez Feijóo com os principais representantes governativos repetindo e ecoam os mass média, que centram nesse “terrorismo incendiário” e em que “não se politize” (contra o governo) toda a questão e problema.

Porém a hemeroteca, os estudos de décadas, os especialistas, negam a existência dessa rede de terror e lume e confirmam que o PP já politizou com o tema. Por isso, mais outra vez, sob a sarcástica bandeira do Nunca mais, milheiros de pessoas protestam nas ruas da gestão da Junta, a exigirem a demissão de Alberto Núñez Feijóo e um novo modelo de gestão dos montes.

Poderíamos pensar, ou até e simplesmente duvidar, ao ouvir alguns peritos e técnicos, que algumas outras explicações têm mais lógica dentro da complexidade e que o PP usa o conceito de “terrorismo incendiário” para safar na sua gestão e para não entrar num debate profundo sobre a exploração dentro de um sistema capitalista incontrolado.

Esbanja-se dinheiro e improvisam-se recursos no combate, mas a prevenção é o alvo. As monoculturas de eucalipto e pinheiro são o negócio. São, mas a substituição destas espécies por outras mais resistentes ao fogo de pouco servirá no cenário de alterações climáticas e habitacionais, que podem ser agravadas de persistirem nos vindouros anos.

A Galiza arde (não a queimam) porque há uma enorme e crescente massa florestal, que se sustenta e sustenta um modelo económico estrutural, num cenário de alteração climática e de condições de habitação humana e exploração que se afastam das tradicionais.

O 48% do território são bosques, que contribuem o 45% da produção espanhola. Mas a meirande parte do monte está “a monte”. O rural, num processo inverso à sujeição de população que a lógica e a história social da Galiza precisaria, está, de mais em mais, não habitado e também não cultivado. O abandono do rural é um processo, primeiro pela emigração a Europa e depois às cidades, e mais recentemente, pelas diretrizes da UE.

Nas aldeias vive maioritariamente uma população envelhecida e muita da propriedade está ausente após ter dedicado as velhas terras familiares a uma exploração florestal, barata, “rápida”, descuidada, que favorece os interesses das grandes empresas. Sem habitação permanente, sem uso ordenado de passos e recursos, a simples limpeza de materiais combustíveis, conservação e ordenação do mato é cara e exige uns meios, que nem os proprietários absentistas, nem as câmaras podem (nem têm a obriga legal) de assumir.

Indústria da mineração, indústria eólica, indústria do papel, turistas, veraneantes e caçadores, especulação urbanística, desmantelamento dos programas de reforma de terras e montes do bipartido. A gente protesta e dizque figuras públicas, funcionários da Junta, políticos, interesses locais entramados com amigos e parentes conformam uma rede mafiosa a serviço de empresas e interesses relacionadas com o dispositivo contraincêndios do Governo galego, com as grandes papeleiras e as indústrias de bio-massa. Mas nem é necessário isso tudo. O próprio sistema capitalista em funcionamento exige umas condições de matéria prima em enormes quantidades e barata que incentiva uma produção extensiva, sem controlo, com produtores sem formação e com os menos e menos qualificados intermediários.

O furacão Ophelia trouxe massas de ar quente e seco. Ventos. Qualquer faísca, qualquer despiste podia prender e provocar os incêndios mais terríveis neste contexto complexo.

Mas, não, as criaturas míticas são, na mente e no discurso escapista dos políticos galegos e espanhóis do Partido no governo autonómico da Galiza e nas altas responsabilidades do estado, as culpáveis da “pontual”, mais uma vez, tragédia.

Se eu procurasse um inimigo imaginário para um romance decantaria-me pelos clássicos e fogosos faunos mais que pelos post modernos terroristas. Agora, no mundo real, na Galiza, não termino de ver outro inimigo real que o “cacique”.

Há que pensar o que se quer para a floresta. Para o rural. Certo. Mas não se trata de definir uma solução tecnicamente validada para mudar este ciclo. Também não apenas de uma nova gestão de fogos rurais, inserida numa estrutura altamente técnica e coordenada, preventiva e informativa. Nem apenas de programas que plantem espécies de baixa inflamabilidade e também com valor produtivo e económico. Isso tudo é necessário, mas exige uma mudança radical da política, da gestão, uma análise e planificação dos modelos explorativos do rural, investimentos e programas a meio e longo prazo. Infelizmente uma mudança assim, não é algo que esteja nas mãos da gente.

Por isso, antes, do que se trata, é de ter outra opção política governando. Uma que pense no país, no seu progresso e tenha um plano para a uma outra ordenação não exploradora e esbanjadora do território, da população, das comunicações, uma que pense na gente e no futuro, e não apenas nos benefícios individuais e curtopracistas do capitalismo pataconeiro em que uns poucos se aproveitam da governação e as instituições para repartirem o país e as suas riquezas. E isso sim está nas mãos da gente.

 

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