ERA UM MENINO DESCALÇO por Luísa Lobão Moniz

Era um menino descalço, com o cabelo por lavar e com a roupa maior do que ele.

Era um menino português filho de uma família sem regras, sem carinho, dono das horas que partilha com os seus animais, com meninos como ele e com meninos de um colégio privado.

Os meninos do colégio privado tinham medo destes meninos que viviam nas barracas, que tinham piolhos e que queriam roubar-lhes as mochilas.

O material escolar era o “quanto baste”. Os livros com os cantos dobrados, os lápis por afiar, as canetas que pintam no papel e em tudo o que eles quisessem, proibido ou não, os cadernos, às vezes, tinham nódoas de gordura, de café ou de leite.

Estes meninos são os eternos desobedientes, justiceiros. Para os meninos a justiça é algo que tem que ser aplicada, mas as suas regras não são as da Justiça. Muitas vezes o seu sentimento de lealdade com os amigos leva-os a reforçar os seus sentimentos de defesa nem que seja de forma violenta.

Viviam no Bairro do Relógio, o Camboja, como era conhecido.

Aqui vivia-se a guerra da subsistência. Não estarei a empolar muito se reconhecer que o bairro estava em guerra. Havia quem quisesse subsídio de risco para lá ir… porque era um perigo passar naquele bairro durante a noite.

Estes meninos defendiam o seu bairro quando se sentiam ameaçados…estes meninos deram lições de solidariedade.

Os primeiros dois anos, de trinta dos que lá estive, foram difíceis até que se conseguiu um ponto de convergência – solidariedade e confiança.

Estes meninos nascidos e criados num bairro com telhados de zinco e ruas lamacentas não se importam de se sentarem no chão, mesmo que esteja sujo. O desconforto é vivido como algo natural na vida das famílias.

A Escola, esse fantasma que acompanha a vida dos alunos, não consegue ensinar, dialogar com meninos de diferentes origens culturais, com fome e com nódoas negras.

Acredito que muitos destes meninos aprenderam que se podia viver de outra maneira.

Quando saía do autocarro para ir dar aulas na única escola, que existia no Bairro do Relógio, as lágrimas vinham-me aos olhos com sentimentos de revolta e de indignação, Vieram-me aos olhos lágrimas cruzadas porque os meus sapatos já estavam cobertos de terra molhada pela chuva da noite anterior.

Dava-me vontade de chorar por saber como viviam aquelas pessoas tão marginalizadas.

As chamas dos gigantescos fogos, o vento em todas as direcções, bombeiros que não conseguem ajudar como queriam, casas completamente derrubadas.

Não são idênticas entre si, estas duas realidades, mas há um fio condutor que é a dor humana. Este fio condutor está cheio de conexões com outras realidades a caminho de uma vida melhor.

O melhor da vida é relativo entre os humanos, mas quando as terras ardem, os animais morrem, as casas caem e quando há vítimas mortais não se pode desistir.…

Os meninos do Bairro do Relógio não caminhavam sobre chamas.

Os meninos do Bairro do Relógio andavam com os pés na lama, mas na cabeça tinham sonhos de uma vida boa.

Os meninos que choraram no calor das chamas irão perguntar Porquê?

E nós temos que perguntar “ como é que isto aconteceu?”

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