Por estes dias, há 308 presidentes de câmara que tomam posse. Uns fazem-no pela primeira vez e outros são reconduzidos. É assim desde 1976, ano em que se realizaram as primeiras eleições livres para o Poder Local Autárquico – uma das mais belas e importantes conquistas do 25 de Abril.
O Poder Local Autárquico mudou o rosto do país, promoveu a resolução dos problemas das populações, aproximou os eleitos dos eleitores; e obrigou o poder instalado no Terreiro do Paço a ver com outros olhos um Interior que há muito agonizava sob a bota do “botas” e o cinismo do “marcelismo”.
Ao longo da minha carreira jornalística conheci e conheço eleitos autárquicos de grande valia e seriedade. Gente que se candidatou e candidata para servir as pessoas e as terras onde nasceu ou reside. Não faltam bons exemplos. Sobretudo, entre aqueles que foram eleitos em 1976 e nos actos eleitorais seguintes. Ou seja, durante os anos em que um presidente de câmara auferia pouco mais do que um quadro técnico da autarquia que liderava e tinha de trabalhar 365 dias por ano.
A situação alterou-se e hoje a gestão autárquica está, em muitos casos, entregue a profissionais que transformam as Câmaras em palco de negócios privados e em local privilegiado para promover a contratação de amigos. Por nomeação ou através de recibos verdes.
Isto é, o Poder Local Autárquico enferma hoje dos mesmos males do Governo da Nação e deles poucos municípios estão a salvo. Mesmo o Poder Local Autárquico exercido pelos chamados “independentes”.
Acresce que num país recheado de vendedores de imagem, ou de vendedores de banha da cobra se quiserem, muitos dos autarcas transformam o exercício do seu cargo em “santuário” privilegiado para conquistar uma alegada notoriedade profissional que o seu “passado” não comprova.
E há, também, aqueles que transformam o acto de posse num “rosário” de vaidade para o qual convidam esposa, filhos e amigalhaços e que registam em retratos para a sua posteridade. Através de poses “à Caras”, fatos “modalfa” e sorrisos “colgate”. Numa exibição de pura cagança e novo-riquismo bacoco.
Ao menos podiam ter aprendido alguma coisa com o sábio e experiente Dr. Isaltino. Ele não convidou nenhum dos seus amigos da “Carregueira”…