Sobre o mercado de trabalho atual: do século XXI ao século XIX, um retorno a Marx. 1 – A centralidade do trabalho vivo – Parte IV

Mas enquanto em Bourdieu, incorporação é um processo de socialização, para Foucault há nisto uma violência disciplinar que tende a fazer os sujeitos formatados, ao ponto de consentirem na sua própria subjugação. Nesta perspetiva, afastamo-nos da visão de Hegel sobre o trabalho permitindo realizar a essência do homem.

A centralidade do trabalho vivo – Parte IV

As implicações teóricas do trabalho vivo. Trabalho vivo e criação de valor

(Por Jean-Marie Harribey, Setembro de 2017)

Apesar da sua ligação ao rendimento de existência, Gorz nunca desistiu da ideia de que a satisfação das necessidades humanas exigia e exigirá uma quantidade de trabalho necessária. Mas é a sua interpretação e a de todos os teóricos do capitalismo cognitivo [34] da famosa passagem de Grundrisse de Marx, em que este último prevê o momento em que o tempo de trabalho imediato já não será nem a fonte nem a medida do valor, que levanta problemas. [35] A introdução cada vez maior dos conhecimentos no processo de produção é inegável, mas o aumento resultante da produtividade do trabalho que daí resulta (ainda…) significa uma diminuição do valor unitário das mercadorias, mas não uma obsolescência da lei de valor. [36] Da mesma forma, esta lei não é invalidada pela existência de externalidades positivas em torno da produção: se os atuais processos produtivos mobilizarem e utilizarem  os trabalhadores do conhecimento muito além do tempo de trabalho oficial, esta mobilização significa uma expansão da esfera de trabalho – uma extensão do próprio conceito de trabalho – e não o seu desaparecimento. E isso não autoriza nem a fazer que qualquer ato de vida seja uma fonte de valor monetário, nem, no final, apagar a distinção entre valor de uso e valor [37], embora  uma atividade livre seja  criadora de ligações sociais. [38] Ainda menos, isso não permite ver nos mecanismos financeiros e na esfera de circulação de capitais a nova fonte de criação de valor. [39]

A meio caminho entre a abordagem filosófica inspirada em Marx e a abordagem psico-sociológica discutida acima – mas talvez de um modo conflituoso de uma para outra – alguns dos teóricos do capitalismo cognitivo, como Toni Negri e Michael Hardt [40], veem o trabalho como um produtor de valor e um produtor de vida social, as duas produções sendo cada vez mais confundidas na  medida em que a parte do imaterial se torna predominante para constituir os ” bens comuns “.

A produção torna-se assim “biopolítica” no sentido que Michel Foucault lhe deu [41]: o poder político exercido sobre a vida, especialmente pela disciplina imposta nos corpos. Mas enquanto em Bourdieu, incorporação é um processo de socialização, para Foucault há nisto uma violência disciplinar que tende a fazer os sujeitos formatados, ao ponto de consentirem na sua própria subjugação. Nesta perspetiva, afastamo-nos da visão de Hegel sobre o trabalho permitindo realizar a essência do homem. Assim, pelo contrário, fica-se no que Bertrand chama de “trabalho até a morte” [42].

Que sentido tem o trabalho ?

A oposição entre Gorz e Castel evocado acima reenvia-nos ao debate filosófico que remonta a Aristóteles, que foi retomado como relevante por Hannah Arendt. [43] Renunciando à dualidade do trabalho sublinhada por Marx e à fortiori à essência de Hegel, Arendt recusa-se a ver no trabalho uma manifestação de auto-realização. Distingue, por um lado, o trabalho obrigatoriamente escravizante e, por outro, o trabalho que só pode representar a liberdade, o controle e o florescimento do indivíduo. Baseia-se no facto de que, nos gregos antigos, o trabalho era feito pelos escravos. No entanto, estes , não consideravam eles as técnicas como sinais de criatividade humana? [44] Isto não impede, no entanto, que, para Arendt, os valores foram invertidos na época da modernidade para fazer da economia, e assim do trabalho, o centro da vida social.

Arendt abandona assim qualquer visão antropológica do trabalho. A isto, deve-se responder que a transformação pelo capitalismo da atividade humana em trabalho abstrato tem um caráter histórico e contraditório complexo: ele destrói o seu sentido e, ao mesmo tempo, não pode impedir totalmente que o trabalhador volte a conferir um sentido à sua atividade, na medida em que todas as lutas laborais de emancipação foram ligadas ao trabalho e ao pôr em causa das suas condições de trabalho. Muitos dos atuais comentadores argumentam quanto a esta complexidade para dizer que a teorização do trabalho abstrato feita por Marx, retomando em parte a conceção de Hegel, equivale a uma instrumentação do trabalho iniciado pela economia política clássica, porque o trabalho é assim reduzido a seu valor de troca. É surpreendente notar que aquilo  que Marx considerava como revelador, como uma crítica de capital, como uma crítica do fetichismo, é transformado por esses comentadores como uma contribuição para o advento do objeto denunciado. Em vez de identificar a contradição na dialética da realidade que, sem dúvida, torna o trabalho um composto indissociável de subjugação e de libertação, estes comentadores situam a contradição na própria conceptualização de Marx. André Gorz, no entanto crítico face ao marxismo tradicional, fala a este respeito de um “vaguear ” de Hannah Arendt [45].

A centralidade do trabalho vivo não é apenas uma questão de ordem filosófica, pois está presente desde a fundação da sociologia. Émile Durkheim deplora os efeitos desastrosos da divisão do trabalho, tal como Smith, Tocqueville, Comte ou Marx antes dele, sobre os trabalhadores privados de sua autonomia e de capacidade de exercerem a sua inteligência e condenados a um trabalho fragmentado e repetitivo.

Mas Durkheim não se situa aliás apenas  no plano da divisão técnica do trabalho. Ele,  interessa-se também pela divisão social. Se a divisão do trabalho é benéfica, não é tanto por causa da sua eficiência técnica, mas porque cria solidariedades na sociedade. Se seguimos a metáfora da mão invisível de Smith [46], o facto de cada um de nós depender de seu padeiro e do seu talhante ao mesmo tempo que estes dependem de nós, tem a virtude de nos levar à eficácia económica maximal sem qualquer intervenção estatal. Mas para Durkheim, a interdependência nascida da divisão do trabalho é uma coisa boa em termos de laços sociais: “a sua verdadeira função é criar entre duas ou mais pessoas um sentimento de solidariedade”. [47] Apesar disso, é quase certo que a divisão do trabalho entre homens e mulheres foi a primeira forma de divisão do trabalho na história e, sem dúvida, aquela pela qual a dominação dos primeiros sobre os segundos foi possível instalar-se. Portanto, encontramos em cada momento de reflexão a ambivalência do trabalho no interior das sociedades.


Notas

[34] Para um exame crítico da teoria do capitalismo  cognitivo, veja-se  Jean-Marie Harribey, La richesse, la valeur et l’inestimable, Fondements d’une critique socio-écologique de l’économie capitaliste, Paris, Les Liens qui libèrent, 2013, retomando um artigo anterior  « Le cognitivisme, nouvelle société ou impasse théorique et politique ? », Actuel Marx, n° 36, septembre 2004, p. 151-180.

[35] «No entanto, à medida que a indústria em larga escala se desenvolve, a criação de riqueza real depende menos do tempo de trabalho e da quantidade de trabalho empregada que do poder dos agentes em movimento durante o tempo de trabalho – o seu poder efetivo – o que, por sua vez, não tem também nenhuma relação com o tempo de trabalho imediatamente gasto para a produzir mas depende, isso sim,  do nível geral de ciência e do progresso da tecnologia, ou seja, da aplicação desta ciência à  produção. Nessa mutação não é nem o trabalho imediato feito pelo próprio homem nem o seu tempo de trabalho, mas a apropriação de sua própria força produtiva geral, a sua compreensão e o seu domínio  da natureza, pela sua existência como um corpo social, numa palavra o desenvolvimento do indivíduo social, que aparece como o pilar fundamental da produção e da riqueza. […] Uma vez que o trabalho, na sua forma imediata, deixou de ser a grande fonte de riqueza, o tempo de trabalho deixa de ser necessariamente a sua medida e, consequentemente, o valor de troca  deixa  de ser a medida do valor do uso. » Karl Marx, Manuscrits de 1857-1858, (« Grundrisse »), Paris, Éditions sociales, 1980, tome II, p. 192-193.

[36] Anselm Jappe destaca-se o valor cognitivo, particularmente na sociedade autofágica, especialmente na  La société autophage, Capitalisme, démesure et autodestruction, Paris, La Découverte, 2017, p. 159 ; veja-se também  p. 211. Para um desenvolvimento  mais completo por este autor, veja-se   Anselm Jappe et Robert Kurtz, Les Habits neufs de l’Empire, Remarques sur Negri, Hardt et Ruffin, Paris, Lignes, 2003.

[37] Este debate é crucial para decidir noutras discussões, incluindo a do autor do rendimento de existência assim como na questão do trabalho ou do voluntariado.  Vejam-se os esquemas que temos proposto em vários lugares e reunidos  na nota de Attac, « Note sur le revenu d’existence universel », op. cit.

[38] Veja-se o debate  entre Jean-Marie Harribey et Carlo Vercellone, « Quelle place pour le travail ? », L’Économie politique, « Faut-il défendre le revenu de base ? », n° 67, juillet 2015, p. 62-75.

[39] Pode-se ficar admirado ao ler em  Yann Moulier Boutang, « Capitalisme cognitif et nouvelles formes de codification du rapport salarial », in Carlo Vercellone (dir.), Sommes-nous sortis du capitalisme industriel ?, Paris, La Dispute, 2003, p. 308 : « L’indépendance de la sphère financière a été largement analysée comme un “régime d’accumulation à dominante financière ou patrimoniale”. Assim, o valor surge a partir da esfera da circulação monetária, enquanto que a esfera da produção industrial e a empresa perdem  o monopólio da criação de valor e, portanto,  do trabalho que é  suposto ser  diretamente produtivo.  Ou ainda do mesmo autor em  L’abeille et l’économiste, Paris, Carnets Nord, p. 221 : « la source de la richesse, c’est la circulation ».

40] Michael Hardt, Antonio Negri, Multitude : Guerre et démocratie à l’âge de l’empire, Paris, La Découverte, 2003.

[41] Michel Foucault, Les mots et les choses, Une archéologie des sciences humaines, Paris, Gallimard, 1966.

[42] Bertrand Ogilvie, « Le travail à mort », in Alexis Cukier (dir.), Travail vivant et théorie critique. Affects, pouvoir et critique du travail, Paris, PUF, 2017, p. 151-186.

[43] Hannah Arendt, Condition de l’homme moderne, Paris, Calmann-Lévy, 1961.

[44] Voir Claude Calame, Prométhée généticien, Profits techniques et usages de métaphores, Paris, Les Belles Lettres, 2010.

[45] André Gorz, Métamorphoses du travail, Quête du sens, Critique de la raison économique, Paris, Galilée, 1988, p. 34.

[46] Adam Smith, Recherche sur la nature et les causes de la richesse des nations, 1776, Paris, Flammarion, 1991, tome 1, p. 82, tome 2, p. 42-43.

[47] Émile Durkheim, De la division du travail social, 1893, Paris, PUF, 1991, p. 19. A principal forma de  solidariedade nas sociedades modernas é considerado por Durkheim como  a solidariedade orgânica por oposição à solidariedade mecânica.


.Artigo original aqui

 A quinta parte deste texto será publicada, amanhã, 30/10/2017, 22h


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