A GALIZA COMO TAREFA – conceito – Ernesto V. Souza

A realidade supera-me. Confesso. Não é apenas a pertinaz crispação informativa arredor, a agressividade inter nós nas redes sociais que de mais em mais fui abandonando.

É a violência social que invade as conversas, a sensação de pressão policial e a judicialização da censura, que se espalha como uma sombra, funesta, onipresente.

Com uma direitização de base nacionalista anticatalanista na sociedade em plena regressão ideológica, social e económica e uma propaganda mediática 24 horas funcionando. Imaginem.

Não se pode protestar perante a polícia em atuação, fotografar, documentar, opinar, fazer piada, nem retweetar, sem arriscarmos delito. Também não se pode sair tomar café com colegas do trabalho, falar descontraidamente com vizinhos, com outros pais e mães dos amigos dos filhos no parque ou nas explanadas dos largos, conversar ligeiro com amigos dos amigos ou familiares. Medonho.

Eu, na procura de civilização, isolo-me e mergulho nas páginas dos livros. Tenho sobre a mesa, nas prateleiras, na casa, em forma de barreira contra o exterior uns quantos por ler, mais por terminar e muitos por re-ler. Livros que acalmem, envolvidos na luz do Sul na tarde. Mas ler, apenas acompanhados de um chá ou um chimarrão, com algo de jazz ou bossa nova, seguramente é também protesto.

Percorro, com os dedos, sem saber bem que procuro (talvez um pouco por solidariedade), as lombadas dos títulos da Obra completa de Joan Maragall, XXIV volumezinhos de correspondência, ensaio, artigos, criação; em tela editorial verde e portada a duas tintas, belas cursivas, de entre 1931 a 1936, cada um com um destacado prologuista. Um pouco afastados – deveria ordenar os livros – os três tomos  que tenho dos Homenots de Josep Pla. É para rir, mas das cousas mais engraçadas a nível espanhol é que com o bombardeamento, ultimamente, toda a gente, constato, está a ler e apreender catalão inconscientemente.

Deixo estar. Podia ser qualquer Cunqueiro, algum Torrente Ballester, o Guimarães Rosa… mas olá, que faz isto no meio. Une journée d’Ivan Denissovitch de Soljenitsyne, Paris, René Julliard, 1963. Papel amarelado, com várias leituras antigas antepostas. Justo no caso: o dia a dia do preso (of course) não político.

Os dous volumes (1941 e 1944) com as Epístolas familiares de Cícero, na tradução do século XVIII adaptada, com prólogos e notas do humanista Pedro Simon Abril, publicadas na Espanha da pos-guerra, pela valhisoletana livraria Santarén. Trato de ler, de quando em quando fragmentos, deliciando-me na versão bilíngue, e sonho um dia lhe dedicar o tempo que merecem. A desfrutar recuperando o Latim grave e sentencioso. Um desses projetos que deixo sempre para o amanhã.

Chama-me também o tomo poderoso de Erasmo y España, de Marcel Bataillon, na sua segunda edição corrigida e aumentada, FCE, 1956. Leva anos aí na espera. Petisco nele. Li durante a carreira, às carreiras, na Biblioteca da Faculdade, mas nos últimos anos Erasmo é recorrente. A ideia do controlo crescente da internet, após aquela primeira época dourada, baralha-se na minha cabeça com a imprensa, o humanismo, a reforma e a contrarreforma. Há que se por, com vagar e lápis. Dedicar um tempo.

Posso também me perder de novo nas páginas de O Leopardo lampedussiano, tradução primeira de Rui Cabeçadas na Bertrand, que topei extraviado, numa livraria madrilena, com encadernação artesanal a meia pele e cantos, papel fantasia, conserva portada e tem pequena fatiga decadente que lhe tanto acai. Só pegá-lo e ter na mão evoca os derradeiros fidalgos das periferias da antiguidade; tou certo que o leitor impenitente poderia colocá-lo num mesmo queipo, com Oblomov de Goncharov, A ilustre Casa de Ramirez, A cidade e as Serras, Los Pazos de Ulloa da Pardo Bazán, Comédias Bárbaras de Valle-Inclán, os Caminhos da Vida e Arredor de Si de Otero Pedrayo.

Le temps s’en va, le temps s’en va ma Dame,
Las ! le temps non, mais nous nous en allons,
Et tôt serons étendus sous la lame…

Já postos na melancolia, Montaigne: Journal de voyage en Italie…, também na seção de livros elegantes. Encadernado, sucedáneo coiro azul, nervos e dourados, com brilhantes folhas de guarda, linda letra impressa, Société les belles lettres, Paris 1946. Nunca passo da introdução, da dedicatória a Buffon e do fantástico Discours préliminaire reproduzido da primeira edição de 1774  por Meunier de Querlon, employé de la Bibliothèque du Roi. Nelas descobrimos a história da descoberta no château de Montaigne, en Périgord, a transcrição, edição, primeiras críticas, notícia e perca do manuscrito a duas mãos e línguas, e pelas que suspicazmente percebemos que “o pai do Francês moderno” tinha menos cuidado, ortografia e respeito por ele que todos os seus apaixonados editores posteriores.

Ou podia ser o volume de tela editorial cor caqui gasto e magnífico papel, com fotos e mapas: The Letters of T. E. Lawrence, na edição de David Garnett, London, 1938 e impresso em Oxford. Fascina, neste exemplar, que um dia Nancy dedicou com bela letra, todo o seu amor e melhores desejos a Jan, percorrer qualquer uma das páginas, fim de uma época e antes da Guerra, epistolares.

No monte de livros comprados e para ler depois, andam pedindo tempo também Belive & Destroy, de Christian Ingrao, Polity Press, 2013 e How the irish became white, de Noel Ignatiev, Routledge, 1995. Mas penso que me tenta, mais que os intelectuais nazistas em construção e os “pretos” da Irlanda fazendo o galhego nos USA, o rexurrexit murguiano: os prólogos audazes e terríveis como constância, do tomo III da Historia de Galicia, na edição de Andrés Martínez [Salazar], Crunha, MDCCCLXXXVIII.

Dá nos olhos, essa prosa ligeira de esgrimista e ourives: “la pluma de Manuel Murguia es cincel y es hacha” como bem disse o malvado de Manuel Casás. O genial homem da Rosalia de Castro, lembra-me sempre, por protesto e contraste, o absurdo, frívolo, injusto com o talento, mediatizado pela política “da nação” e burocrático que é o mundo académico

Mas, todos, são livros densos e sérios, para ler com vagar. Não tenho tempo, e contento-me com estas breves visitas. Apita a chaleira a ferver.

Afinal vou à poesia. Pervago noutra das livrarias, seção poetas e amigos. Escolho Lupe Gomez, Pornografía, exemplar 12, edição de autora de 1995, que devi comprar há alguns  anos, num sebo também out of place. Deixo-me levar pelas páginas conhecidas. Na 54 encontro-me com este poema poliédrico, de plena, continuada, atualidade.

Já que não re-tweeteio, dou fé:

 

CONCEPTO
Son unha muller,

(un home) violado.

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