DO TEATRO DE AMADORES AO EXERCÍCIO DA CIDADANIA – I – ENQUADRAMENTO – por ANTÓNIO GOMES MARQUES

 

DO TEATRO DE AMADORES AO EXERCÍCIO DA CIDADANIA

 

por António Gomes Marques

 

I – Enquadramento

 

A geração nascida logo após ter terminado a Segunda Guerra Mundial, a que pertenço, não iria ter a vida sonhada por muitos que viram derrotadas as forças demoníacas alemãs, italianas e japonesas, para me referir apenas aos principais beligerantes que tiveram a oposição das chamadas forças democráticas, os Aliados. Em Portugal e em Espanha, derrotadas aquelas forças, o sonho de ver Salazar e Franco corridos do poder depressa morreu; os países aliados, com a União Soviética já de fora desta união vencedora —sem a qual as forças hitlerianas não teriam talvez sido derrotadas, ou, no mínimo, a guerra teria tido uma duração bem mais longa— e agora tornada na principal inimiga, logo se apressaram a esquecer que Portugal e Espanha viviam em regime fascista. O inimigo para os restantes países dos chamados Aliados tinha agora um nome: comunismo!

Abandonados pelas tais forças aliadas, os portugueses anti-regime, dos que ansiavam pela democracia aos comunistas, tinham um objectivo: o derrube do fascismo salazarista. Entre todas as forças (?) opositoras, só uma se encontrava organizada, que era o Partido Comunista Português.

Recuando um pouco no tempo, lembremos que o pronunciamento militar de 1926 que levaria Salazar ao poder ditatorial foi facilitado pela instabilidade reinante durante a Primeira República Portuguesa, conhecendo as instituições uma progressiva degradação, com as massas trabalhadores a afastarem-se dos vários governos ao verificarem que o regime republicano nada fez para alterar as relações económicas e sociais herdadas do regime monárquico.

Entre o 28 de Maio de 1926 e a aprovação da Constituição salazarista, a instabilidade foi uma constante, governos atrás de governos, com o herói do golpe, General Gomes da Costa, a ser deportado para os Açores e, com a contribuição do General Óscar Carmona, Oliveira Salazar a ganhar protagonismo. Este consegue estabilizar o escudo e o equilíbrio das finanças públicas, com o aumento dos impostos e com a diminuição das despesas da saúde, da educação e da assistência social —receita recentemente aplicada como só a direita sabe fazer—, o que vem a dar-lhe o domínio sobre a estrutura político-militar, sendo nomeado Presidente do Conselho de Ministros em 1932, passando a ser considerado o «Salvador da Pátria», abrindo-lhe o caminho para a criação de um estado cada vez mais autoritário e repressivo, o que não pode desligar-se dos ventos que sopram da Europa, como já referimos atrás, que levam ao poder as forças nazis e fascistas em vários países.

Implanta-se o Estado Corporativista em Portugal, com uma oposição constituída por vários movimentos oposicionistas, o Reviralho, congregando republicanos, democratas e liberais sem força para impedir a consolidação do regime fascista de Salazar, a que a vitória de Franco na Guerra Civil de Espanha vem dar um grande alento. A Constituição de 1933 é aprovada, cria-se a União Nacional, partido único, a censura prévia aos órgãos de comunicação, a PVDE – Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, com duas secções – a de Defesa Social e Política, para reprimir e prevenir crimes de natureza política e social, e a Internacional, que passava a controlar a entrada de imigrantes e, destes, expulsar os indesejáveis e desempenhar funções de contra-espionagem, mas cuja atribuição fundamental seria perseguir qualquer opositor ao regime do Estado Novo. Em 1945, esta polícia toma a designação de PIDE – Polícia Internacional e de Defesa do Estado, mas mantendo as mesmas funções, —uma nova mudança viria a acontecer, na sua designação, mas não nas suas atribuições, com a nomeação de Marcelo Caetano como Primeiro-Ministro, após a célebre queda da cadeira que impossibilitou Salazar de exercer as suas funções, passando a DGS – Direcção-Geral de Segurança—, sendo também criada a Legião Portuguesa, uma milícia de defesa e combate ao comunismo, a que muitas vezes se aderia para conseguir emprego, sem saber muito bem ao que se ia; fundou-se a Mocidade Portuguesa, que procurava doutrinar os jovens com os valores do regime fascista; instituiu-se no ensino o livro único, em que os valores do regime eram sempre apregoados.

Segue-se a II Guerra Mundial, com os dois países da Península Ibérica a fingirem-se neutrais e a negociar quer com os Aliados, quer com as forças nazis, mas a penderem, claramente, para estas. Foi também o período louco da exploração do volfrâmio, como Aquilino Ribeiro bem mostra na obra a que deu o título daquele mineral, em que o país é rico.

Entretanto, a Revolução Soviética de 1917 enche de esperança uma boa percentagem de trabalhadores portugueses e alguma pequena burguesia mais radical, mas a confusão, com muita informação contraditória, criava algumas dúvidas, com as forças anarquistas tradicionais e os novos revolucionários com as habituais dificuldades para se entenderem e se dedicarem a um objectivo que era comum: o derrube do Estado Novo. Estas dificuldades, na que se juntava o quase desconhecimento do marxismo e, ainda, a falta de informação da estratégia e da táctica do partido de Lenine, não impediriam, no entanto, a fundação do Partido Comunista Português em 6 de Março de 1921, no seguimento de uma proposta de um antigo anarquista, Nascimento da Cunha, provavelmente aproveitando a discussão entre muitas pessoas mais informadas defendendo a criação de um novo partido, em artigo publicado nas páginas do jornal «Batalha», anarquista, note-se, em que o controlo dos cegetistas foi iludido, no qual defendia a criação do Partido Comunista, provocando uma grande discussão e com a C. G. T. a combater a ideia. Seguiram-se reuniões no Sindicato dos Caixeiros, daí nascendo a resolução que levou à criação efectiva do Partido Comunista, que viria a ser proibido pelo regime instalado com o golpe militar de 28 de Maio de 1926 no final dos anos 20 do século passado — as suas sedes já haviam sido encerradas em 1927 —, sendo o partido reorganizado por Bento Gonçalves, com as suas células clandestinas, a partir de 1929.

Foi neste mundo cheio de contradições que um grupo de jovens se foi tornando adulto e criou o Movimento Neo-Realista. Para o seu crescimento como poetas e escritores, mas sobretudo como cidadãos que sentiram a necessidade de intervir no mundo em que viviam, muito contribuiu o conhecimento de poetas e escritores portugueses como Antero de Quental, Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Raul Brandão, Aquilino Ribeiro e Ferreira de Castro, ensaístas como António Sérgio ou Raul Proença, assim como receberam a influência de autores americanos, como William Faulkner, John dos Passos, John Steinbeck, Erskine Caldwell e Ernest Hemingway ou de escritores brasileiros como Graciliano Ramos, Amando Fontes, José Lins do Rego, a que devemos acrescentar grandes autores russos, de que devemos destacar Tolstoi, Dostoievski, Gorki e Tchekhov, com quem também aprenderam, para a obra literária que acabariam por criar, a não confundir realismo com realidade. O combate que empreenderam contra a ditadura fascista foi devido a essa consciência política ganha também com esse conhecimento e com a atenção ao mundo em que viviam, submetido a uma censura feroz.

A filosofia marxista não deixa, apesar da censura, de ser divulgada em Portugal, com realce para a década que se iniciou em 1930, devido à acção de intelectuais bem comprometidos com a luta anti-fascista, sendo disso exemplo a acção desenvolvida por Bento de Jesus Caraça, José Rodrigues Migueis, Álvaro Salema, Álvaro Cunhal e, os mais jovens entre estes, Vasco Magalhães-Vilhena e Mário Dionísio, sendo este último um dos fundadores do Movimento Neo-Realista e, na minha opinião, o mais rigoroso dos seus teóricos, mostrando estes anti-fascistas serem conhecedores de textos não só de Karl Marx, mas também de Nicolai Bukharine, Anatoli Lounacharsky e Georges Plekhanov, com especial realce para a obra deste último «A Arte e a Vida Social».

Na génese do Movimento Neo-Realista teve papel fundamental a imprensa periódica, como bem demonstram os trabalhos pioneiros de António Pedro Pita e de Luís Augusto da Costa Dias, nomeadamente no catálogo que ambos conceberam para a exposição que, sobre o tema, se realizou em Vila Franca de Xira, em Novembro de 1996, não tendo ainda o Museu do Neo-Realismo as actuais instalações, assim como outros trabalhos destes dois autores (Pita, 2002; Dias, 2011).

As pisadas dos criadores do Movimento Neo-Realista vão ter continuidade na acção de uma camada de jovens autores, na «luta a favor dos outros», feliz expressão de Ferreira de Castro numa entrevista ao Notícias da Amadora, ganhando outros espaços geográficos, nomeadamente em Angola, onde Garibaldino de Andrade, Leonel Cosme, Carlos Sanches e Maurício Soares criam as Publicações Imbondeiro (Marques, 2014, págs. 9-10).

O Teatro não podia ficar indiferente. Na década de 50 do século passado, há um salto qualitativo no teatro profissional português, devendo referir-se a acção de Francisco Ribeiro, o popular Ribeirinho, nomeadamente com a sua companhia mais conhecida, o Teatro Nacional Popular, com a qual estreou autores portugueses, como Costa Ferreira e Luís Francisco Rebello, e grandes nomes do teatro universal – Anton Tchekhov, Nikolai Gogol, Bernard Shaw, Oscar Wilde, Samuel Beckett, ficando como uma referência a sua encenação da mais célebre peça deste último, «À Espera da Godot», que estreou em Portugal em 1959, sendo com Shakespeare e a sua «Noite de Reis» que a companhia se apresentou ao público pela primeira vez. “A noite de estreia de «À Espera de Godot» foi um dos momentos mais altos do Teatro português contemporâneo.” (Ferreira, 1985, pág. 406).

Novo salto qualitativo aconteceu em 1961, com o Teatro Moderno de Lisboa, o qual “… ocupa um lugar ímpar no quadro da nossa «práxis» teatral dos derradeiros anos do fascismo. Ele foi o precursor de todos os grupos independentes que, a partir dos finais da década de 60, encetaram um novo capítulo da história do espectáculo cénico em Portugal. Por isso, lembrá-lo, como neste livro se faz, é um acto de pura e imprescindível justiça.” (Rebello, 2009, pág. 20).

Outras companhias mereceriam aqui uma referência – Companhia Amélia Rey-Colaço/Robles Monteiro, Círculo de Cultura Teatral e Teatro Experimental do Porto, por exemplo -, mas as duas referidas são para nós as referências maiores nas décadas de 50 e 60 do século passado.

Do teatro passamos a referir o papel desempenhado por muitas colectividades recreativas e associações culturais, destacando eu a acção de alguns cine-clubes, com a organização de colóquios e sessões culturais de divulgação da literatura portuguesa, particularmente da poesia neo-realista – Manuela Porto, Maria Barroso -, incluindo sessões dedicadas à arte em geral, forma encontrada por aquelas duas gerações de neo-realistas para escapar à feroz censura do regime fascista de Salazar.

Também nas artes plásticas e até na arquitectura a resistência à ditadura se tornou evidente e muitos da minha geração iam absorvendo todos estes sinais.

Foi em muito graças à acção daquelas duas gerações que muitos dos nascidos nos anos que se seguiram ao fim da II Guerra Mundial tomaram consciência que se vivia um tempo odioso em Portugal, reforçada tal consciência pelas revoltas dos estudantes e, antes destas, o clima vivido no país com a campanha para a Presidência da República de Arlindo Vicente e Humberto Delgado. Lembro a recepção popular a Arlindo Vicente, no Largo da Graça, em Torres Vedras, e o desfile que se seguiu até ao Cine-Teatro Ferreira da Silva, em que eu, com 12 anos, fui arrastado e depois, para não ser pisado, protegido pelo meu professor de matemática —o querido e saudoso Dr. Grilo, como todos ainda hoje a ele nos referimos—, onde decorreu o comício. Foi para mim um abalo e que muito contribuiu para me aperceber, apesar da idade, do mundo em que vivia.

Foi a esta luta que muitos de nós se juntaram e nessa acção, não só naquela que se conseguia fazer passar publicamente, mas também em acções clandestinas, onde a presença de militantes do PCP se tonava por nós notada. Foi nestas acções que aprendemos a ser solidários, em que as pequenas ou grandes diferenças não nos impediam de lutar por um objectivo comum e que era o derrube da ditadura salazarista. Foi nestas acções que muitos da minha geração sentiram a necessidade de construir a cidade democrática, para usar uma expressão tão cara ao grande Manuel Vázquez Montalbán.

O teatro para mim resumia-se à récita dos finalistas do liceu. Mas a acção desenvolvida pelo Cine-Clube de Torres Vedras levou-me ao convívio com os principais membros do Teatro Moderno de Lisboa, com quem estabeleci laços de amizade que se mantêm com os que ainda se encontram entre nós. Com Rogério Paulo e depois com Costa Ferreira tomei conhecimento do movimento teatral em França, da existência do Teatro Nacional Popular de Jean Vilar, das polémicas que se geraram à volta deste, onde os nomes de Jean-Paul Sartre —a cuja obra fiquei rendido— e Simone de Beauvoir, Morvan Lebesque, Albert Camus, André Malraux, Roland Barthes, Bernard Dort, Émile Copfermann, Claude Roy, Erwin Piscator e o seu teatro político, os livros de Redondo Júnior, de Gordon Craig, de Constantin Stanislavski e tantos outros, assim como a revista Théâtre Populaire, passaram a ser seguidos avidamente por mim, o que, para o livro sobre o TML, me permitiu escrever um texto que assim termina: «O Teatro, graças ao Teatro Moderno de Lisboa, passou a ser, para mim, a primeira das artes, a que dialoga com todas as outras; a que me mostra que a verdade é uma busca constante, de verdade em verdade, sem me impor uma; que me mostrou, e mostra, que a vida se constrói no respeito por valores e pela diferença; que me ajudou a compreender que a actividade humana tem de ser tomada como actividade objectiva, no sentido em que não é apenas capaz de intervir no real, como também de transformá-lo. É por esta transformação que também o Teatro, hoje, me ajuda a lutar.» (Marques, 2009, pág. 210).

Chegado aqui, o teatro de amadores passou a ser por mim procurado, mas o que ia conhecendo não me satisfazia, como não satisfazia muitos dos que tinham a mesma paixão. Chegado aos anos 70 do século passado, regressado da guerra colonial, fui ocupar o lugar a que tinha direito por concurso público na Caixa Geral de Depósitos, onde apanhei uma secção cultural criada nos Serviços Sociais dos trabalhadores daquela instituição bancária e pude enfim contribuir para a formação do Grupo de Teatro Os Hipopótamos e, em sua representação primeiro e, depois, a convite do Joaquim Benite e do Viriato Camilo juntei-me ao grupo que tentava legalizar uma Associação de Teatro de Amadores e que, desde 1969, aguardava a aprovação dos Estatutos que tinham sido submetidos à aprovação do SNI, aprovação essa apenas conseguida após o 25 de Abril, o que obrigou a APTA – Associação Portuguesa do Teatro de Amadores a funcionar clandestinamente, como conto numa crónica publicada em Maio de 2016 no blogue «aviagemdosargonautas.net», com o título «Para a História do Teatro de Amadores – 4». Desta Associação vim a ser Presidente da sua Direcção durante vários anos e enquanto me foi possível, sem grande prejuízo, conciliar esta actividade com a vida profissional.

É pois na década de 70 que o movimento do teatro de amadores assume a concepção que eu havia abraçado e aprofundado graças aos contactos já referidos e, facto muito importante, as lutas estudantis e os grupos universitários de teatro de amadores, com especial realce para os de Coimbra, deram também a sua fundamental contribuição, não só pelo trabalho que vinham desenvolvendo, mas também por alguns dos seus membros terem desenvolvido grande actividade na criação de outros grupos de teatro de amadores. Até aí, o teatro de amadores seguia um realismo naturalista que, para os da minha geração, já não correspondia aos nossos anseios, o que não invalida o bom trabalho que muitos destes grupos que tal concepção defendiam não tivesse sido altamente meritória, de que é exemplo o trabalho desenvolvido por José Ribeiro, o Mestre, como lhe chamavam, no Grupo de Tavarede.

Nesta mesma região, por exemplo, há um grupo — CITEC – Centro de Iniciação Teatral Esther de Carvalho— que assume claramente esta nova concepção, mas outros exemplos poderíamos indicar. Olhemos para o que escreve Deolindo Pessoa, o principal responsável pela actividade deste grupo ainda hoje, palavras estas que assumo como se minhas fossem: «A partir do início da década de 70, alguns grupos de teatro de amadores do Baixo Mondego mostram o teatro não como a vivência de uma vida imaginária, mas como um fragmento da vida real onde se sucedem factos que dizem respeito ao homem, ou seja, pretendem mostrar uma realidade política em movimento. Procuram mostrar que o homem é capaz de transformar tudo e que tudo se pode transformar, apesar das aparências e de todas as dificuldades. Este conceito pretende renovar a estética, mas sem descurar, simultaneamente, o político e moral. Porém, esta opção não foi fácil e gerou muitos mal entendidos, alguns dos quais talvez ainda hoje perdurem.» (Deolindo Pessoa, 2012, págs. 20-21).

Foi na defesa deste conceito que a APTA foi criada, um conceito que tem no «serviço público» de Jean Vilar um exemplo a seguir e, sobretudo, na tentativa de compreender os textos teóricos de Bertolt Brecht, a partir da edição portuguesa de alguns desses «estudos», contribuindo às vezes mais para aumentar a confusão do que para uma boa compreensão das propostas teatrais do genial poeta e homem de teatro alemão, fundador do Berliner Ensemble, cuja obra é uma “criação verdadeiramente dialéctica que sabe que o esforço para pôr em questão o mundo «tal como está» o compromete numa perpétua contestação.” Diz-nos ainda Bernard Dort: “… o que Brecht nos deixou, mais do que incontestáveis êxitos teatrais e literários, mais do que técnicas dramáticas ou sistemas retóricos novos, foi um ensinamento: o exemplo de uma criação aberta sobre o mundo e as suas transformações, obstinada em deles dar completa notícia e, por isso, levada a modificar-se constantemente, numa clara consciência do seu fim e dos seus meios.” (Dort, 1980, págs. 9-10). Foi também esse ensinamento que procurámos adquirir.

Chega, por fim, o 25 de Abril e a Revolução parece possível. Na rua, beijávamos e abraçávamos os que, às vezes, conhecíamos apenas por nos encontrarmos nas mesmas sessões de teatro e cinema e que julgávamos também estarem imbuídos do mesmo espírito, solidários na construção da tal cidade democrática que, em tempo, julgámos existir já nos chamados países de Leste, mas em 1974 já sabíamos que a realidade não era bem essa. Mas, realizado o 25 de Abril, não tínhamos dúvidas de que íamos conseguir lá chegar! As ilusões também fazem parte da nossa construção como pessoas.

No primeiro 1.º de Maio em plena liberdade ainda o sonho se mantinha, mas no dia seguinte as divisões existentes só não eram vistas por quem não as queria ver. Surgiam as dúvidas quando nos encontrávamos frente a frente com muitos que há pouco abraçávamos por nos sabermos no mesmo barco.

O capitalismo, que quase sempre apelidávamos de selvagem, que tínhamos como o pior inimigo, continuava pujante. Aconteceu o 11 de Março e depois o 25 de Novembro, mas as condições de vida iam melhorando; as crises económico-financeiras, antes do euro, lá se iam superando, com o Estado a não encontrar o rumo que resolvesse os problemas do país e a encontrar na dívida a solução para os problemas mais prementes. A aquisição de casa própria passou a ser a meta a atingir, os bancos a facilitar e a não pensarem no futuro, com a dívida pública, incluindo a das empresas públicas que disfarçavam aquela, e dos particulares a não terem travões, levando o país, já no euro —que triunfo para a pseudo democracia em que vivíamos com a entrada na moeda única— à bancarrota. Entretanto, os partidos políticos iam-se fechando, dominados pelos seus aparelhos. As críticas ao estalinismo eram pronunciadas em altos gritos pelos políticos que se apresentavam como democráticos, continuando a apresentar o «comunismo» (entre comas, claro!), que diziam existente nos países de Leste, como o principal inimigo. Olhando, o mais isentamente possível para os partidos políticos portugueses que contam em termos de votos, pergunto: qual é o que não é estalinista na sua actuação? Ao menos, o PCP não é hipócrita, apresentando-se aos portugueses como sempre foi, com as adaptações necessárias conforme a situação vai evoluindo.

Cai o muro de Berlim e caem as chamadas «democracias populares» (entre comas, evidentemente!) e o Mundo em que vivemos piora a uma velocidade aerodinâmica. O capitalismo selvagem deixou de ter contraponto, apesar do tipo de sociedades em que as populações desses países viviam.

A crise que ainda vivemos é bem diferente das anteriores. Não há paradigmas eternos, mas grande parte de nós não reconhece as diferenças. Ainda há quem se julgue num mundo em que de um lado estão os trabalhadores e do outro os patrões. De que lado estarão as micro, pequenas e médias empresas, esmagadas como os trabalhadores por conta de outrem por impostos que o Estado e os Municípios sugam sem fim? E de que lado estarão hoje mesmo as grandes empresas, as que criam riqueza e não as que ganham milhões especulando? Independentemente do que possamos pensar, não podemos esquecer de que o país necessita destas empresas como de pão para a boca. Não digo que teremos sempre as suas companhias na conquista de todos os objectivos, mas teremos de verificar, momento a momento, quem poderá estar connosco, apenas por uma questão táctica, se quiserem e se isso vos deixa mais tranquilos em relação ao lado em que estou. Acreditem, hoje o grande inimigo é o capital financeiro que vive da especulação e não submetido às leis de qualquer país.

Como dantes, o actor continua a não ser a sociedade, mas as classes sociais que têm de saber defender os seus interesses, mas há que saber construir uma unidade não com olhos no passado, mas com olhos no futuro, procurando saber quem pode acompanhar-nos na defesa de um objectivo comum, logo que este seja encontrado. Há que reconstruir solidariedades, companheirismos e encontrar esse objectivo comum sem esquecer que podemos juntar para essa reconstrução pessoas que ocupam as mais variadas posições na sociedade. Temos de construir sindicatos adaptados a novo paradigma e não deixar que os existentes continuem a pensar viver nos séculos passados, que parece continuarem à espera que os «robots» venham substituir os trabalhadores em milhões de postos de trabalho que, com esta tecnologia, deixarão de existir nos próximos anos.

Temos de ter cidadãos de corpo inteiro, conscientes dos seus direitos e dos seus deveres, só assim sendo possível construir a tal cidade democrática, solidária, com justiça igual e oportunidades iguais para todos, com respeito pelo outro e pelas diferenças. Não poderemos ficar à espera da nova sociedade que aí vem, dos progressos científicos e os desenvolvimentos tecnológicos que todos os dias nos surpreendem e que no futuro mais nos irão espantar. Não fiquemos pois à espera da nova sociedade, que se seguirá à falência do neo-liberalismo que nos ia destruindo e que, no tempo que lhe resta de vida, ainda nos poderá levar a uma crise bem maior do que aquela que julgamos estar já a ultrapassar-se, podendo mesmo ser trágicos os momentos que aí vêm. Actuemos colectivamente e participemos na construção dessa nova sociedade.

Passemos a palavra a uma testemunha viva dos últimos 60 anos, Alain Touraine: “Para todo o sociólogo, uma crise económica (e sobretudo financeira) marca antes de mais uma rutura, a decomposição, talvez, de uma sociedade definida como uma totalidade social onde as relações de dominação ou de conflito, que podem eventualmente desembocar em afrontamentos violentos, são limitadas, na maior parte das vezes, e sobretudo nas sociedades ditas democráticas, porque os adversários têm a mesma ideia da vida social e partilham os mesmos ideais em termos de comportamentos e de instituições. O caso da sociedade industrial é claro: os dirigentes de empresas e os assalariados que foram os actores principais dos conflitos partilhavam em grande medida a mesma representação do mundo económico: davam assim um valor positivo ao trabalho, à produção e sobretudo ao aumento da produtividade que permite a elevação do nível dos salários e do bem-estar. De resto, os Estados, quer diretamente, quer sob pressão das forças políticas e sindicais, intervieram constantemente nos conflitos sociais, em particular nos países sociais-democratas, em favor dos assalariados ou dos que são expulsos provisória ou duradouramente do mundo do trabalho. Os dois objetivos principais do Estado são então reduzir as desigualdades e dar o máximo de segurança possível aos assalariados. (…)

A crise como tal não é resolvida e ultrapassada pela vitória de um campo social sobre o outro. De resto, ela gera sempre um aumento das desigualdades, como foi recentemente o caso nos Estados Unidos, o que torna mais urgentes (e mais difíceis) as intervenções com objetivos sociais e políticos. Ora, é preciso saber que a reconstrução da sociedade graças às intervenções do Estado e sob efeito de uma comunidade de conceção da vida social pelos atores em conflito é o melhor meio de jugular a crise.

O que caracteriza a sociedade presente é que as intervenções maciças dos Estados permitiram a reconstrução rápida dos lucros dos bancos, ao passo que a diminuição do desemprego só diminuirá muito tempo depois de a economia ter sido reposta em funcionamento. (…)

Notemos a propósito disto que os economistas têm razão ao descortinar na superabundância da liquidez e no endividamento dos Estados Unidos, do Estado aos particulares, as razões profundas da crise, não é menos verdade que o comportamento dos muito ricos, dominados pela procura de lucros máximos, desempenhou e continua a desempenhar o papel principal na desagregação do sistema social, quer dizer, de toda a possibilidade de intervenção do Estado e dos assalariados no funcionamento da economia.

(…)

O hábito que adquirimos de procurar nas inovações técnicas a causa principal das mudanças sociais e até políticas, mas também a solução para o subdesenvolvimento ou para o bloqueio do desenvolvimento, deve ser abandonado. (…)

Devemos daqui para o futuro governar a produção e o consumo tendo em conta as necessidades e as possibilidades de todas as categorias de habitantes do planeta. (…)

Existem laços entre a dependência da empresa relativamente aos mercados financeiros e a dependência dos indivíduos reduzidos a não ser mais do que consumidores dominados pela oferta do mercado. É assim que o triunfo da economia financeira tem efeitos em todos os domínios da vida pessoal e coletiva. (…) Na própria medida em que os assalariados não têm liberdade para escolher o seu trabalho, um número importante deles está exposto a problemas novos que não tem capacidade de gerir ou resolver. Suicídios, abandonos, doenças mentais revelam esse esmagamento dos indivíduos de que se diz que são mais responsáveis e mais livres e estão sempre cada vez mais expostos à estratégia das empresas e dos mercados. O que contradiz a ideologia das «relações humanas», que assentava na esperança de reconciliar a economia e as necessidades pessoais.

(…)

A empresa era antes de mais um conjunto de máquinas e um orçamento; é hoje um sistema confrontado com perigos multiformes, de que a dominação financeira é dominante.” (Touraine, 2012, págs. 48-52).

As pessoas hoje vivem só para si, parecem ter medo de intervir, procurando manter a migalha que lhes deixam ter, suportando muitas vezes a fome sem protestar, esquecendo-se de que são cidadãos com direitos e deveres, esquecendo-se de que devem lutar para que o exercício da cidadania seja um acto natural do dia-a-dia.

O progresso de um país, a sua riqueza principal, mede-se pelo grau de desenvolvimento de, no mínimo, três itens: educação, ciência/tecnologia e cultura. Ocupemo-nos agora do último, onde entra a animação cultural e o teatro, incluindo neste o teatro de amadores, até para que as pessoas que me lêem/ouvem não se interroguem: mas que tem a ver com animação cultural e com teatro o que este indivíduo vai escrevendo/dizendo?

Vivemos tempos difíceis, que poderão ser ainda mais difíceis, mas, antes do 25 de Abril, eram ainda bem piores. Hoje, participar num colóquio ou formar uma associação ou mesmo um grupo de teatro de amadores já não nos levará à prisão, como antes poderia acontecer e aconteceu mesmo.

Há que despertar as pessoas, criar projectos que as entusiasmem e que as retirem do seu isolamento. Há que combater um dos maiores males do nosso tempo constituído pela exclusividade dos aparelhos dos partidos com assento na Assembleia da República de tudo decidirem e invocando serem nossos representantes, permitindo-se inclusive a serem eles a escolher os dirigentes de todas as estruturas do país, desde cargos políticos a gestores das mais variadas empresas, em que o critério qualidade é o menos importante. Acreditem, não teremos um regime democrático enquanto não alterarmos esta situação, nomeadamente enquanto não tivermos, para começar, uma lei eleitoral que permita que sejamos mesmo nós a escolher os nossos representantes na Assembleia da República e os dirigentes de todas as instituições públicas que garantam a melhor gestão do país e que nos dê a possibilidade de correr com todos os corruptos que têm minado todas as estruturas do Estado, incluindo as empresas públicas, que a nossa apatia tem consentido.

Nunca tivemos tantas facilidades para comunicar, graças às tecnologias que temos à nossa disposição, mas será que estamos a usá-las para, de facto, comunicar uns com os outros?

Por muito estranho que possa parecer, é pelos direitos humanos que temos, hoje, de lutar. Pensem nisto!

Poderá parecer-vos que estou a pedir uma acção gigantesca a cada um dos cidadãos portugueses, quando, na verdade, penso que o grande objectivo poderá resultar de pequenas acções de grupos de cidadãos, ou de acções a desenvolver em associações de moradores, ou até de uma rua, de associações recreativas e culturais; todas somadas poderão dar um grande contributo para a construção da cidade democrática. O que se torna necessário é atrair pessoas dispostas a trabalhar colectivamente nem que seja num pequeno objectivo, o que constituirá um caminho para formar cidadãos de corpo inteiro, cidadãos conscientes dos seus direitos e deveres, conscientes do que implica o exercício da cidadania e das vantagens que esse exercício poderá trazer para cada um de nós e para o colectivo.

O que me levou ao teatro de amadores, quando tal actividade tinha perigos evidentes, foi também o saber que a construção de um espectáculo dependia de um trabalho colectivo e o seu êxito estava ligado à capacidade de atrair espectadores. Na animação cultural esse trabalho colectivo tem de estar absolutamente presente, com a vantagem de não ter como principal objectivo, na minha concepção, o de atrair espectadores, mas o de levar todas as pessoas a participar em determinada acção, partilhando com os outros as mais diversas tarefas que contribuem para o objectivo a atingir, escolhido democraticamente pelos participantes.

As pessoas esperam que as Instituições funcionem e resolvam todos os problemas, mas as Instituições podem ser tomadas por alguns ou pelo menos podem ver as suas funções dificultadas por esses alguns. Quando as pessoas são cidadãos de corpo inteiro, exercem uma vigilância que pode impedir a criação desses grupos de interesses e, assim, contribuir para que as Instituições sejam fortes e, portanto, que possam exercer as suas funções em prol do país e, por consequência, em prol de todos os cidadãos.

Temos de construir uma sociedade que permita a ascensão das pessoas pelas suas capacidades e não por pertencerem a este ou àquele partido, a este ou àquele lóbi. Temos de lembrar o que Bento de Espinosa nos ensina: «13 – Se dois se põem de acordo e juntam forças, juntos podem mais, e consequentemente têm mais direito sobre a natureza do que cada um deles sozinho; e quantos mais assim estreitarem relações, mais direito terão todos juntos.» (Espinosa, 2012, pág. 86).

(continua)

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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