A NOSSA PENÍNSULA – 7 – O iberismo – por Carlos Loures

 

DEBATE: QUE RUMO QUEREMOS PARA A DEMOCRACIA EM PORTUGAL? – Depoimento de Carlos LouresEm 20 de Abril de 2017, celebrando o DIA MUNDIAL DO LIVRO E DO DIREITO DE AUTOR, a Sociedade Portuguesa de Autores em colaboração com a Delegação em Portugal da Generalitat de Catalunya, realizaram uma sessão de Homenagem ao cantautor catalão Lluis Llach (Girona, 1948) e ao escritor Fèlix Cucurull (Arenys de Mar, 1919-1996). Relativamente a este último, celebrava-se o cinquentenário da publicação de  Dos pobles ibèrics, Portugal y Catalunya, Dois Povos Ibéricos, Portugal e Catalunha, de cuja tradução me encarreguei em 1967.tendo este livro sido vencedor do prestigiado Prémio Josep Yxart de 1968.

Fèlix Cucurull foi um dos maiores novelistas catalães do século XX, grande amigo de Portugal e diligente estudioso da literatura portuguesa – nesta sua obra analisa as relações entre intelectuais portugueses e catalães do século XIX.

Cucurull aborda com particular atenção as relações do grande poeta Joan Maragall (1860-1911) com a vanguarda intelectual portuguesa. Nessa troca de impressões entram catalães como Ribera i Rovira, Julio Navarro i Monzó; do lado português a figura mais em relevo é a de Teixeira de Pascoais. Um dos temas centrais é o do federalismo ibérico. Republicanos portugueses e catalanistas viam na federalização das nações peninsulares a libertação da caduca instituição monárquica portuguesa e do centralismo castelhano, sufocante, aculturante, despótico.

Ficou-nos, aos europeus do século XIX, talvez relacionada com a matriz do Romantismo, a ânsia dos grandes impérios, das grandes óperas, dos grandes amores, dos magnicídios e dos suicídios espectaculares. A unificação da Itália, a da Alemanha, sob a hegemonia prussiana, a cavalgada do Império Russo na conquista das nações circundantes, são exemplos dessa ânsia de grandeza que as elites contrapunham ao populismo das ideias igualitárias do socialismo nascente, para essas elites, redutoras da grandeza histórica a que julgavam ter direito. Il gattopardo, a grande obra de Lampedusa, dá-nos um magistral fresco desse contraste de mentalidades – o ruralismo áspero da Sicília sendo afogado pela refinada cultura aristocrática ou a ela se sobrepondo, enquanto em pano de fundo a gesta unificadora de Garibaldi corria ao som das óperas de Verdi.

Os intelectuais portugueses e catalães não ficaram imunes a essa tentação de grandeza, vendo os últimos na unificação peninsular uma forma de ser autónomos sem grande esforço ou sacrifício. Os portugueses (republicanos e mesmo alguns monárquicos) suportavam com dificuldade os Bragança. Note-se que o iberismo mais recente (meados do século XX) tinha como elemento de coesão o de ambos os povos estar submetidos a ditaduras de teor fascista. Porém, como iremos ver, houve manifestações, de outro tipo, com raciocínios e motivações diversos, que iam no sentido de uma união dos estados ibéricos.

(continua)

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: