O VALE TUDO – por JOÃO MARQUES

OBRIGADO A JOÃO MARQUES, DIÁRIO DE COIMBRA e JÚLIO MARQUES MOTA

Durante décadas o ano de 2017 deixará as suas marcas na nossa consciência tal a violência e a destruição consubstanciadas nos violentos incêndios que atingiram o interior do território nacional em consequência do progressivo abandono a que foram sujeitas, pelo menos duas gerações de portugueses, que tiveram de lutar pela vida noutros lugares.

Não se pense, sobretudo, que a superação desta situação, se pode vir a resolver numa legislatura ou com meia dúzia de obras do tipo ”Estado Novo”, antes implicando cidadãos, associados ou não a organizações da sociedade civil, a recomposição dos serviços públicos em áreas determinantes como a saúde, a educação e em serviços descentralizados da administração pública, com as autarquias a convergirem numa nova situação de coesão social.

Observando, agora, o outro lado de Mediterrâneo, a situação permanece catastrófica e a História continua a ser martirizada por interesses espúrios. Recordo que desde a morte do Profeta Maomé, no século VII (632) e até ao assassinato do califa Ali (664), casado com a sua filha Fátima, ou seja, em 32 anos dois califas foram executados e quatro guerras civis fizeram implodir o islão em sunitas, xiitas e kharijitas, o primeiro grupo sectário islâmico que se foi dissolvendo. Já em 1916, tal o apetite por aqueles espaços magníficos, eis-nos perante o acordo secreto anglo-francês (Sykes-Picot) dividindo o Médio-Oriente entre eles. Desde então e progressivamente o mundo sunita, maioritário no islão, encontrou no Ocidente os seus defensores mais intransigentes, cujo exemplo mais significativo se encontra na relação Estados-Unidos / Arábia Saudita, agora complementada com a aproximação de Israel. Já o Irão, depois da queda da dinastia dos Reza Pahlévi (1979) e com o regime dos Ayatollahs, reforçou todos os aspetos religiosos envolvendo o xiismo. Se o denominado “estado islâmico” foi e é ainda suportado financeiramente pelas monarquias sunitas, o Irão encontrou um parceiro estratégico (Rússia) e, por enquanto, a Turquia sunita. Não há memória de tantas armas e munições serem comercializadas, não só para esta parte do globo, mas a generalização de conflitos – Síria, Iraque, Iémen, Monte Sinai (Egito), Líbia, Palestina, quase todos os territórios africanos do Sahel, Somália, Sudão do Sul, países do Congo – dá-nos indicações de desastres iminentes para 2018, já para não abordar a questão do Mar da China e a situação nuclear da Coreia do Norte.

Dando um salto aqui ao lado, decorrente das eleições na Catalunha, mais uma intervenção do Rei Filipe VI reproduzindo o que já tinha dito em outubro, se excetuarmos a necessidade da luta contra a corrupção por parte do governo actual, quando o Partido Popular e o seu líder Rajoy estão no centro do maior escândalo financeiro, desde a morte de Franco.

Já na Europa Central, a maioria dos intervenientes no espaço mediático nada diz sobre a (não) composição de um governo na Alemanha, quando as legislativas se realizaram em 21 de setembro, com o sucesso que se conhece do partido da extrema-direita (AFD), corrente política que integra, pela primeira vez, o governo austríaco e enche as ruas da Polónia e da Hungria.

Como aconteceu nos últimos 33 anos, o Parlamento Europeu atribuiu este mês o “Premio Sakharov”, destinado aos que lutam pela liberdade de expressão/pensamento, cabendo à oposição venezuelana ao regime “chavista” de Maduro tal distinção. Entre as pessoas que foram selecionadas para o referido prémio, encontrava-se a guatemalteca Lolita Chávez que, rompendo com o protocolo, levantou um cartaz contra as multinacionais que “desfazem países da América Latina”, com a exploração mineira e o corte indiscriminado de árvores ancestrais. Cheguei aos meus 45 anos – sublinhou esta mulher maia – e nunca vi tantos crimes quotidianos, das violações diárias de mulheres jovens até ao assassinato puro e simples.

João Marques, Diário de Coimbra, de 29 de Dezembro de 2017

(enviado por Júlio Marques Mota)

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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