A NOSSA PENÍNSULA -11 – A SARDANA – por Carlos Loures

 

Por uma noite de Verão, vindos da Barceloneta onde jantáramos, magnificamente, como sempre,  Fèlix Cucurull e eu, ao atravessar o Bairro Gótico em direcção ao meu hotel, deparámos com um festejo popular – uma série de ruas em  festa num ambiente que fazia lembrar as comemorações que em Lisboa, pelo Santo António, e no Porto na noite de São João, quando os habitantes dos bairros populares organizam. Barceloneses de ambos os sexos, idades diversas e estatutos sociais diferentes, bailavam, sorrindo, mas concentrados. Fèlix explicou-me que a sardana se dança contando os passos.

E contou-me também uma anedota clássica – segundo a tradição, após a destruição do Primeiro Templo Sagrado alguns dos hebreus exilados migraram para a Península e ali estabeleceram uma comunidade judaica. Depois da destruição do Segundo Templo e a dispersão de muitos judeus pelos países da Europa, a comunidade ibérica foi muito aumentada pelos novos exilados. Fundaram-se muitas comunidades, as quais prosperaram, A Península converteu-se no mais importante centro hebraico na Diáspora. Em 1492, porém as famílias reais de Portugal e de Castela e Aragão deram às comunidades judaicas a escolha entre a conversão ao catolicismo, a morte ou o exílio.

A anedota era assim: numa noite como aquela, cinco séculos atrás, um grupo de hebreus observava os catalães na sua dança ritmada. Pensavam assentar arraias na cidade condal. Um velho rabi perguntou a um jovem, por que razão os bailarinos actuavam tão concentrados. O jovem explicou – os passos tinham de bater certo. O patriarca meditou durante alguns minutos e depois disse, «Não. Aqui também não podemos ficar,,, Um povo que até a dançar faz contas, não é povo que nos interesse como cliente…” Na verdade, muitas vezes as actividades lúdicas características de um povo reflectem a idiossincrasia desse povo.

Em Portugal, antes do tristonho fado, reinavam as endechas, melancólicas também. Numa entrevista que em 1964 fiz ao maestro Fernando Lopes Graça, afirmava ele que o facto folclórico não se cria por esforço ou deliberação de quem quer que seja – os grupos folclóricos portugueses criados pela Propaganda do regime eram meras contrafacções. Para se furtar ao centralismo, os catalães não deverão fazer muitas contas… Do ponto de vista económico irão perder. Mas só a economia conta quando a dignidade de um povo está em causa?

Obrigado a The Random Channel e ao youtube

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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