SINAIS DE FOGO – ABENÇOADOS CTT – por Soares Novais

O elogio das privatizações foi sempre homília obrigatória para aqueles que venderam o país. A preço de saldo. Mário Soares, Cavaco, Guterres, Barroso, Sócrates e Passos Coelho foram os diáconos que levaram a cabo tão evangélica e nobre missão. Em nome da competitividade e da livre concorrência. Obviamente.

Fizeram-no acolitados por padres de cidade e padres de província, ministros, secretários de Estado, patrões de grande e pequeno porte, opinadores de jornais e tevês; e, também, de uma imensa mola de votantes que, por ignorância ou malformação, se deixou levar pela cartilha de tão sábia e ilustre gente.

Por isso, depois da privatização da banca, que deu a merda que se sabe, seguiu-se a privatização da justiça, das águas, da recolha do lixo, da EDP, da PT, da TAP e dos CTT. Apenas faltou privatizar “a puta que os pariu”, como sublinhou Saramago.

Viu-se, depois, que a privatização de tais empresas só foi abençoada para quem dela beneficiou. Isto é, os novos patrões e aqueles que foram escolhidos para ascender ao olimpo do mando. Tais escolhidos usufruem de vencimentos milionários – o Lacerda dos “Correios” saca quase 1 milhão de euros/ano – e mordomias que passam por prémios chorudos, cartões de crédito bem recheados, carro e motorista às ordens, sendo disso claros exemplos os “edp” Mexia e Catroga.

E muitos outros das famílias socialista, social-democrata e democrata-cristão que lograram ocupar os postos-chave de um polvo que engorda administradores-executivos, administradores não executivos, presidentes de mesas de assembleias gerais, consultores e assessores diversos.

Consumados os crimes de lesa pátria, os resultados estão à vista: a qualidade dos serviços prestados diminuiu, os preços subiram, milhares de trabalhadores foram despedidos e substituídos por contratados a termo certo; e o cliente mais não é do que o número que consta nas facturas que lhe escaldam as mãos…

Por estes dias são os CTT que ocupam as primeiras páginas dos jornais, agitam populações e sobressaltam autarcas. Alegadamente. Tudo porque a administração dos “correios” quer encerrar 22 balcões até ao próximo mês de Março e prepara o despedimento de 1000 trabalhadores até 2020. Tal reestruturação, para usar uma expressão cara aos administradores dos “correios”, tem apenas um objectivo: “rentabilizar” uma empresa que, apesar da anunciada quebra de receitas, tem distribuído chorudos dividendos pelos seus accionistas.

Tretas já se vê, pois o que está em causa é a venda de um património imobiliário que foi pago pelo Estado, isto é por todos nós, despedir funcionários e substitui-los por prestadores de serviços sem vínculo e facilmente descartáveis como mandam as regras do mercado livre e da concorrência que a homilia das privatizações pregou em sucessivas e longas missas dirigidas por socialistas, social-democratas e democrata-cristãos.

Por isso, não deixa de ser irónico ver que tudo o que é presidente de junta de freguesia e presidente de câmara abrangidos pelo abate das 22 lojas CTT venha, agora, prometer dar o corpo ao manifesto em defesa dos interesses dos seus eleitores; eleitores que, asseveram, não podem ser privados de tão importante e vital serviço público de proximidade. Chegando mesmo ao ponto de defender o retorno dos CTT à esfera pública.

Espanto-me com tão súbita indignação. E explico: o encerramento dos balcões CTT irá ocorrer em terras lideradas maioritariamente por gente do PS e do PSD. Ou seja,  gente que sempre fez coro com os vendilhões do país e que fizeram das privatizações um dos textos sagrados da sua bíblia política. Logo, também eles têm culpas na cruzada que tornou possível aos “privados” tomar conta do que era de todos. Nosso. Darei uma minhota Clarinha de Fão ou um algarvio Dom Rodrigo a quem fizer tal acto de contrição…

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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