Trickle-down, trickle-up, eis a questão. E qual tem sido a opção? Parte I – Introdução, por Júlio Marques Mota

Uma nova série sobre as novas tempestades que se vislumbram já no horizonte

Imagem 2 Trickle-Down CADILLAC

Introdução à Parte I

Por Júlio Marques Mota, em 7 de fevereiro de 2018 julio-marques-mota

Meus caros

Fruto de um mero acaso, o facto de me ter deparado acidentalmente com o texto de Will Rogers a falar-nos, e com que humor, com que elegância, sobre a economia trickle-up dos anos 20 e 30 do século passado, expressão que eu desconhecia – ignorância minha, é claro- decidi questionar-me sobre a repetição das crises em capitalismo, sobre a repetição das respostas dadas a cada uma das crises (quase sempre as mesmas, exceto com Roosevelt) e sobre os mecanismos de gestação da próxima crise que se anuncia através das novas tempestades que se perspetivam já no horizonte.

Por isso criámos uma pequena serie de textos subordinada ao tema, Trickle-down ou trickle-up, esta é questão. E qual tem sido a opção?

Uma nova série sobre as novas tempestades que se vislumbram já no horizonte em que apresentaremos textos de Will Rogers, de 1932, de Martin Wolf, do Financial Times sobre Davos 2018, de James Galbraith sobre a política fiscal de Trump agora aprovada, de Larry Elliott do Guardian sobre a utilidade de revisitar os anos 30, de Eichengreen a perguntar-nos se estamos prontos para a próxima recessão, de diversos universitários da Universidade de Warthon e de muitos mais.

Nesta série assume papel de relevo a reforma fiscal de Trump, por múltiplas razões, entre as quais está o facto desta reforma fiscal encurralar mais uma vez a Europa uma vez que a vai forçar, no quadro do neoliberalismo que é a sua bíblia, a uma situação que é pura e simplesmente a quadratura do círculo: os impostos americanos sobre os lucros ficam mais baixos que as impostas da maioria dos Estados europeus que contam no mercado mundial, a política de austeridade já mostrou os seus limites, e consequentemente a economia europeia irá perder competitividade face aos americanos.

No quadro da austeridade imposta e continuada isto significava que a saída possível da crise europeia só poderia vir pelo lado das exportações, mas eis que a Europa é agora encurralada pela agressividade comercial tanto dos países emergentes como pelo seu principal parceiro comercial: os Estados Unidos.

Adicione-se a este quadro o aumento de despesas militares que os países europeus têm de fazer para a NATO, assim como a guerra das moedas, e temos a Europa mais uma vez incapaz de fazer seja o que for para remar contra esta situação. Possivelmente irá fazer como é costume: aplicar mais austeridade até porque, como assinala Eichengreen, os Estados já perderam praticamente todos os instrumentos disponíveis de política económica para saírem da crise: os Estados-membros estão fortemente endividados, as taxas de juro são vizinhas de zero, a mão-de-obra está ao nível das competências fortemente desvalorizada, os sistemas de saúde desarticulados, os sistemas de ensino altamente degradados e o tecido produtivo, por via da globalização, está profundamente desarticulado a nível nacional e em perda de relevância no comércio internacional face aos países emergentes, o que é mais que evidente e ainda por cima com uma população fortemente envelhecida. Nada ajuda, nada vai então ajudar a Europa e a saída mais provável, é sempre a mesma, será fazer com que quem trabalhar por conta de outrem, e se situa nos 80% da população com menores rendimentos, volte a ser espoliado, tal como o foi nesta última década. Mais austeridade, portanto, é o que nos pode esperar se não sairmos do quadro do neoliberalismo em que as economias ocidentais mergulharam.

Aliás, o texto de Elliot abre com a seguinte posição:

O que se passou na década de 20 e no início dos anos 30 “foi o maior revés para a economia global desde o início da era industrial moderna. Mas a reação do mundo piorou os efeitos do Grande Colapso de 1929? E será que aprendemos com esses erros?”

Pessoalmente penso, pelo que se tem visto, e para responder à questão levantada por Elliot, que não aprendemos nada ou antes, que esquecemos tudo, e com que rapidez nos esquecemos de tudo o que nos devíamos bem lembrar!. Fico aliás com a sensação de que se aplica hoje o que escreveu John Gray em 2000 em Falso Amanhecer publicado pela Gradiva: “um colapso do atual regime económico global pode bem ser o resultado das políticas correntes. Aqueles que imaginam que os grandes erros políticos não se repetem na história não aprenderam a sua principal lição- que nada se aprende por muito tempo. Estamos atualmente no centro de uma experiência de engenharia social utópica cujo resultado conhecemos antecipadamente.

Boa leitura.

Coimbra, 7 de fevereiro de 2018

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