CARTA DE BRAGA – “DO OFÍCIO DE VIVER” – por ANTÓNIO OLIVEIRA

 

 

“Nace en Dubái la Coalición por la Felicidad para enviar mensajes de bienestar”.

A noticia é do insuspeito “La Vanguardia” do passado dia 13.

Só a trago aqui porque a tal Coligação determinou que Emiratos Árabes Unidos, México, Costa Rica, Portugal, Eslovénia e Cazaquistão, fossem encarregados de organizar o documento constituinte.

Parece que tudo isto passou despercebido por cá.

Admira-me porque o nascimento da Coligação é “un acuerdo de cooperación entre los países identificados como los más felices o con mayor grado de satisfacción global de la felicidad”.

Olhando o conjunto, julgo que poderá dar uma possível série de oportunidades a muitos dos senhores doutores saídos bem felizes das universidades de Verão que se vão sustentando cá pelo Eucaliptal.

Mas, sem ser defensor de qualquer teoria da conspiração, acredito que isto é mais uma manobra global gizada pela poderosa indústria americana, para aproveitar o impacto da sua trumposa imagem da presidência.

Esta minha crença deve-se ao facto de juntar a esta, uma outra notícia vinda no “El País”, já em Dezembro último, sobre os números da indústria do espírito, nome bem giro para falar de mindfulness (atingir a consciência plena pela meditação) e de ioga na versão adaptada para o ocidente, que representam um universo de mais de vinte milhões de praticantes só nos EUA.

Como todos os números têm sempre um justificativo por trás, estes foram divulgados por um estudo feito pelo Departamento de Saúde, mas a importância maior é ali atribuída aos quatro mil milhões de dólares gastos pelos praticantes da meditação, aplicados tanto no ensino como nas práticas posteriores. Os novos praticantes de ioga investem, por seu lado, dez mil milhões de dólares por ano no ensino e em acessórios diversos como o tapete, leggings e frascos inox para a água.

O mesmo estudo também esclarece que o ioga ocupa o quarto lugar entre as indústrias com maior crescimento.

Mas não se reduz ao ioga e ao mindfulness a indústria do espírito, pois ali também está englobada toda e qualquer actividade que tenha por objectivo primário a busca da felicidade.

Creio eu que a felicidade é, aliás, a razão da busca permanente de todos os que já têm resolvidos os problemas ligados às necessidades básicas – pão, casa, trabalho e salário – para não falar de todas as outras que o cidadão vulgar deveria exigir, tais como a net, um telemóvel para selfies, a disponibilidade para um hambúrguer nas filas do fast food ou até para comprar mais um livro.

Não cito todas as outras aquisições que o narcisismo da new wave trouxe para este ocidente de algum modo decadente, onde a pós-verdade é já uma instituição (veja-se o grosseiro americano da presidência!), levando à aceitação colectiva de uma qualquer sentença individual, mas que dispôs de fácil acesso à difusão pelos ecrãs.

Assim se desvanecem ou se fazem desaparecer os espaços onde se pode e deve debater a coisa pública, uma noção também cada vez mais afastada dos palcos dos futebóis, novelas, lifestyle e todas as outras secções dos media que não exigem uso intensivo e abusivo da mente.

E voltando ao conjunto de países encarregado de organizar o documento constituinte, é de salientar o facto de os terem incluído no número dos identificados como mais felizes ou com maior índice da satisfação global de felicidade.

Não imagino como se chegou a tal índice cá no Eucaliptal, mas teoria da conspiração aparte, creio ser cada vez mais evidente que a burguesia deste mundo ocidental nosso, está a ser movimentada por uma poderosa acção de manipulação mercantil, a dar lustro a um egoísmo baseado nas imagens que absorve em contínuo e nas gentes dos afectos que lhe habita os ecrãs, sejam quais forem as posições que ocupam.

E sobre a trumposa imagem, até me lembro de um muito falado “primeiro estranha-se …”

Ao fim e ao cabo, também creio numa verdade (?!) cada vez mais impositiva – só já nos limitamos a produzir e a consumir (os que podem!), as patéticas dimensões a que nos querem reduzir e estremar o ofício de viver!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

1 Comment

  1. é sempre um gosto seguir os caminhos destas reflexões que nos fazem parar, para abanar a cabeça a coisas contras as quais nos posicionamos e que, submissamente, vamos aceitando???Andamos tão apáticos!!!!!Um abração, meu amigo!!

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