A GALIZA COMO TAREFA – o fim da transição – Ernesto V. Souza

Há menos bandeiras. O sol, o vento, a chuva, o aborrecimento foi fazendo as desaparecer.

Algumas – bem demais todavia – ficam. Abandonadas, esquecidas, esfarrapadas, ao avesso, enrugadas, retortas e decoloridas ao sol castelhano inclemente.

A genreira, o ódio permanecem. Parece que vieram fazer parte do jeito castelhano, ou simplesmente que recuperaram do fundo hábitos, com a transição dados a esquecimento.

Simbolizam bem este patriotismo espanhol de hoje aqueles velhos versos de Machado que não me saem da cabeça:

Castilla miserable, ayer dominadora,
envuelta en sus andrajos desprecia cuanto ignora.

Todas as comunidades humanas se autoidentificam e regem por mitologias, mais densas, mais complicadas em função do tamanho, da complexidade, da cronologia da comunidade que as integra. Religiões, códigos em argila, pedra ou bronze, procedimentos administrativos, hierarquias, direitos outorgados pelas divindades, pactos outorgados entre iguais (ou não tanto), burocracia, provas de acesso, constituições… mitos. A ordem nunca é justa, verdadeira ou natural, e por mais que cada geração tenha direito (e de facto reforme) o que importa do mito é a vontade de permanência

Constitución_Española_de_1978

O mito fundacional da Espanha atual é o pacto da Transição, da que emergiu das águas turvas da história a límpida e pura Constituição de 1978.

Na política espanhola atual, diz-que tudo está em crise, como cem anos antes. Que há um agónico fim de ciclo.

Os partidos emergentes, em início falavam do fim da transição, da hipótese da República. Os grandes partidos do sistema rotativista acusam os novos de oportunistas; e os partidos conservadores e os seus porta-vozes e opinadores midiáticos chutam os outros a tese de que estão a destruir a transição, os seus logros e legado. Isso tudo que identificam com a nova (mas eterna) Espanha moderna.

Agora, para mim, o fim de ciclo leva cheirando desde que José Maria Aznar dinamitou os pactos, a cultura e modos da Transição, rompeu o baralho, excluiu o rei e cambiou a direita conservadora tradicionalista, fascinando-se na cultura política e discurso neo-con e na sua paixão deslumbrada e para consolidar a sua ambição rodeou-se de mais e mais loucos inconscientes, que lograram demolir (eles) o tinglado dos partidos turnantes que garantia o equilíbrio.

E isto é interessante. Para os da minha geração, eu nasci em 1970, os anos escolares coincidiram com os da exaltação dos valores civis, da liberdade e da épica do país estar a se dotar em Democracia de uma nova Constituição. As reformas educativas, o acesso maciço à universidade, as estéticas e nova cultura, rádio, música, televisão, literatura imprensa, vinham na oferta. Depois tudo se torceu. Por isso talvez detetamos antes o que agora resulta evidente.

Seria interessante estudar o declive democrático na sociedade espanhola. E como em paralelo foi evoluindo a corrupção, que passou da tradicional, de andar por casa, diríamos, dos partidos políticos que protagonizaram as primeiras duas décadas da Transição, a esta nova, a grande escala, mais profissional, aparecida ao calor do discurso neo-con.

É, sem dúvida, fascinante gizar um esquema de interesses arredor de dous caloteiros como Felipe González e José Maria Aznar. Como da sua mão e nas particulares ascendentes de assalto ao poder de cada um liquidou-se um sistema que em princípio fora desenhado para garantir uma maioria de ordem, na linha da Democracia cristã, com reconvertidos franquistas (visíveis, mas não marcados), como era a UCD de Suárez. Esse espaço Central (e desenhado para ocupar por décadas a centralidade e conduzir a transição moderadamente e sem romper com o franquismo) desenhava-se para ser matizado a esquerda e direita por partidos minoritários, diversamente fragmentados e pelos regionalismos e nacionalismos.

Depois foi que em função de interesses particulares diversos e sob pressão da Europa e dos USA, na procura de uma modernização económica e de mercado da Espanha, impulsou-se um período de esquerda moderada de apelo socialdemócrata, oportunamente rotada por uma direita que agora continha o mais salvável do naufrágio da UDC, junto com a parte mais fotogénica da direita franquista de discurso modernizado por Manuel Fraga.

Seria interessante, como entre 1982 e o 1997, mudou a Transição e concorrentemente seria interessante estudar como nesses anos aconteceu o salto à economia capitalista plena. E como isto, foi na realidade o que demoliu os valores da Transição. Porque este salto político cara um discurso e economia neo-con precisava de grandes capitais e negócios. E aí a construção véu resolver o problema, injetando capital ao sistema. Concelhos, Deputações, Autonomias, instituições, aparato dos partidos, tudo foi alterado e daí emergiu uma nova classe política, menos tradicional, mais ambiciosa, dominada pela ação e os “conseguimentos”, sob uma aparência de gestão e estética de homens neo-con.

Tanto modificaram o sistema, que não era possível, praticar a alternácia rotativista. A Ambição e a engranagem da maquinaria não permitiria o natural relevo com os socialistas. Evidenciando-se, desde 2005, que era impossível à maquinaria económico-midiática do PP, ficar fora das estruturas do Poder, ou reduzido a concelhos, deputações e algumas autonomias. O assalto à estrutura rotativista, numa estratégia implacável de tudo vale por recuperar e manter o poder, terminou por liquidar a imagem de estabilidade do Sistema.

Por isso é talvez importante considerar que foram os anos de maiorias de Aznar os que não respeitaram o ecossistema que a geração anterior desenhara. Os que quebraram os pactos territoriais, linguísticos, autonómicos, o estado de direito, violentaram a divisão de poderes, compraram a imprensa, trataram de destruir a sanidade, as pensões, a igualdade. O que véu depois, o que acontece na Catalunha, é a reação dos conscientes.

One comment

  1. Abanhos

    Texto excelente. Além disso o jeito de como faz luz sobre o dinamiteiro Aznar é excelente

    Gostar

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