Trickle down ou trickle up eis a questão. E qual tem sido a opção?Parte II – 24. O fim de uma era de tranquilidade para os mercados financeiros (2ª parte-conclusão). Por Nicole Bullock, Eric Platt e Alexandra Scaggs

Uma nova série sobre as novas tempestades que se vislumbram já no horizonte

Imagem 2 Trickle-Down CADILLAC

 Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Parte II – 24. O fim de uma era de tranquilidade para os mercados financeiros (2ª parte-conclusão) 

Por Nicole Bullock, Eric Platt e Alexandra Scaggs

Financial Times em 9 de fevereiro de 2018. Republicado por Gonzalo Raffo Infonews.

 

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A manhã de segunda-feira, nos EUA, acrescentou uma nova fonte de incerteza com o juramento de Jay Powell como presidente da Reserva Federal, trazendo um rosto relativamente pouco conhecido para liderar o banco central. Durante a maior parte do dia, Wall Street evitou sérias perdas. Então, uma grande queda pareceu sair do nada. Cerca de uma hora antes do sino de encerramento do mercado, o Dow Jones caiu mais de 800 pontos em 10 minutos.

“A adrenalina entra em ação”, diz Cheslock. “Todos ficam mais incisivos. A complacência já desapareceu há muito”.

Os clientes apressaram-se a aceder às suas contas na Vanguard, TD Ameritrade, T Rowe Price e Charles Schwab, gerando algum engarrafamento nestes sítios. Alguns não conseguiram colocar ordens nos corretores.

“À medida que a volatilidade aumenta e os índices desciam, os rumores começam a aumentar”, diz Michael Arone, estratega-chefe de investimentos da State Street Global Advisors. “As pessoas estão a questionar-se sobre a linha clássica de Warren Buffett sobre quando a maré desce, vê-se quem é que não está a usar calções de banho”.

Durante a última semana, os investidores que tinham ficado mais expostos são aqueles que fizeram apostas na volatilidade moderada. À medida que as cotações das ações caíam, o “medidor de medo” de Wall Street – o amplamente vigiado índice de volatilidade Cboe Vix – disparou.

As estratégias de negociação que se beneficiaram da calma nos mercados em 2017 rapidamente se afundaram. Dois produtos negociados em bolsa que permitiram aos investidores apostarem em baixa volatilidade perderam quase todo o seu valor na segunda-feira.

Após o toque do sino a encerrar o mercado na segunda-feira, o Vix continuou a aumentar e as ações em veículos relacionados com o Vix também caíram.

Na manhã de terça-feira, o Nomura, o banco japonês, disse em Tóquio que sacaria um produto que estava indexado à volatilidade S&P 500. Em meia hora, o Nikkei 225 caiu 2,5 por cento, o que, por sua vez, provocou um período de venda de bitcoin. A moeda digital – no valor de mais de US $ 19.000 em dezembro – caiu abaixo de US $ 6.000 logo após as 2:45 da manhã em Nova York, enquanto os operadores de mercado de Londres e Frankfurt estavam a chegar às salas de mercados. Os mercados de ações em ambos os países abririam com uma descida de 3,5 por cento.

Enquanto os investidores norte-americanos ainda estavam a dormir, a turbulência continuava. Às 4 da manhã em Nova York, uma série de produtos negociados em bolsa relacionados com a volatilidade foram suspensos. Às 7h11 da manhã, mais de duas horas antes da abertura dos mercados nos EUA, o índice de volatilidade Vix atingiu os 50 pontos – apenas a segunda vez que o fez desde 2010. A turbulência forçou os banqueiros a adiar uma série de vendas de obrigações previstas para o dia.

Então, o Credit Suisse disse que fecharia uma nota de dívida negociada em bolsa [ETN], conhecida pela sigla XIV – que está projetada para se mover diariamente na direção oposta exata à do VIX, por isso se diz VIX inverso, e que, portanto, colapsou quando a volatilidade aumentou.

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“As pessoas esqueceram-se que as ações nem sempre estão a aumentar de cotação “, diz Adam Sender, gestor de Sender Company and Partners, um fundo de cobertura [hedge fund]. “As correções são um processo normal. Isto era inevitável. O aumento das taxas de juros foi o gatilho, mas a volatilidade de curto prazo foi o combustível”.

A volatilidade diminuiu no meio de uma retoma na tarde de terça-feira em Nova York, e os mercados de ações mundiais sobreviveram grande parte do dia seguinte sem incidentes. Mas, à 1 hora da tarde de quarta-feira, em Nova York, os sinais de nervosismo voltaram a aparecer. A procura na licitação dos títulos do Tesouro dos EUA foi fraca, um sinal de que os investidores estavam preocupados com a inflação e com o aumento do défice orçamental e, portanto, só comprariam a níveis de rendimento mais elevados. As ações encerraram o dia no vermelho, e quando os investidores em Tóquio voltaram na quinta-feira, os preços caíram rapidamente. A venda mais pesada ocorreu em Wall Street.

Na manhã de sexta-feira, os principais índices nos EUA, na Alemanha e no Japão diminuíram mais de 10% em relação aos níveis de janeiro. Quando a negociação na bolsa finalmente fechou para o fim-de-semana após outro dia de montanha-russa, as perdas dos EUA foram diminuídas para cerca de 9 por cento.

Para alguns, o choque criado pelo colapso dos produtos de volatilidade foi salutar. “É sempre bom lembrar essas coisas com acidentes que não são de importância sistémica para toda a economia”, diz Victor Haghani, fundador do Elm Partners de Londres e ex-aluno de Long-Term Capital Management. “É um sinal de alarme gentil do mercado”.

No entanto, muitos investidores acreditam que as questões levantadas na semana passada vão muito além dos produtos ligados ao índice Vix. “Nós passámos de um mercado habituado a jogar às damas  – ganhos em alta, baixas taxas correspondem a preços mais altos  – a ser forçado a competir no xadrez tridimensional dos grandes mestres: preocupações com o crescimento em relação às taxas, valorização das ações, a força do dólar, e agora as preocupações presentes com a estrutura do mercado”, diz Nicholas Colas, co-fundador da DataTrek, um grupo de investigação de Nova York.

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Enquanto alguns investidores falavam de uma oportunidade de compra, acreditando que um crescimento económico mais rápido e um aumento modesto na inflação representam um cenário positivo para as ações, muitos dirigiram-se para a saída deste mercado. Os investidores retiraram mais de US $ 30 mil milhões de fundos de ações na semana até quarta-feira, a semana de maiores levantamentos no mercado de ações desde que o EPFR começou a rastrear os dados na viragem do século.

A queda nas cotações das ações colocou a Casa Branca na defensiva, dado que o presidente Donald Trump se orgulhou da subida das cotações das ações sob a sua administração. “Nos «velhos tempos», quando as boas notícias eram difundidas, o mercado de ações subiria. Hoje, quando as boas notícias são relatadas, o mercado de ações cai”, escreveu ele no Twitter na quarta-feira. “Grande erro, e temos tantas boas (ótimas) notícias sobre a economia!”

Outros estavam menos confiantes. “Isto ainda não é um grande terremoto”, disse Lawrence Summers, secretário do Tesouro dos EUA sob a Presidência de Bill Clinton. “Se é um tremor precoce ou uma flutuação aleatória ainda se está para ver. Estou nervoso e continuarei nervoso. [Está] longe de ser claro que um bom crescimento e uma finança estável são compatíveis”.

Alguns estrategas esperam que as baixas recentes conduzam ainda a mais vendas uma vez que os fundos conduzidos por computadores que visam a volatilidade são forçados a lançar mais ações no mercado. Os analistas colocam a quantidade de venda automática da recente turbulência em cerca de US $ 200 mil milhões, e mais poderia estar a caminho, a menos que os mercados se acalmem.

Jonathan Lavine, co-gerente da Bain Capital, diz que uma queda dos preços das ações não foi uma surpresa em si mesma. “Foi a ferocidade do movimento, não desencadeada por nenhuma notícia material e impulsionada por um pequeno canto dos mercados financeiros”, diz ele. “Cada um de nós precisa de se questionar o que aconteceria no caso de estarmos, na verdade, perante más notícias”.

 

Informação adicional por John Authers, Joe Rennison e Robin Wigglesworth

 

Texto original em https://www.ft.com/content/803335d4-0d82-11e8-8eb7-42f857ea9f09

Republicado em THE END OF AN ERA FOR MARKET TRANQUILITY / THE FINANCIAL TIMES COMMENT & ANALYSIS

 

 

 

 

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