A GALIZA COMO TAREFA – contextos – Ernesto V. Souza

Para o Marcos Saavedra, registrador de livros esquecidos.

Alguma gente lê textos, eu prefiro – sempre que é possível – ler contextos (livros,  panfletos, manifestos, plaquettes, revistas, fanzines, jornais nas fontes originais). Isto tem muito a ver com a minha interpretação da famosa teoria e quadro da Comunicação de Jakobson.

É dizer, mais simplesmente: que se bem dou muita importância ao emissor (quem, por que, quando, de quem vem sendo…) não dou menos ao contexto (época, biografias, impacto…) e ao canal (onde, como se editaram os textos, qual é a edição, se o livro foi caro, ou popular no seu momento – e que foi dele depois -, a tiragem, exemplares, qualidade do papel, encadernação, marcação ideológica da editorial, coleção de que faz parte…); também considero em base a esses dados e pesquisas – mas esse é conto para outro dia – quem era provavelmente o receptor original e os sequenciais (encadernações, marcas de anteriores proprietários, leitores, notas de consulta…).

Isto, para mim, é importante, como leitor, pois permite-me, por vezes, com o peso do livro na mão, vendo capas, portadas, prólogos, ilustradores, prezo marcado, preliminares, coleção, encadernação, uso, notas manuscritas, decodificar parte da mensagem mesmo antes de proceder à leitura do texto.

Verbi gratia. Há anos (vinte para já) topei em Montevidéu, num posto numa ruela transversal, mais bem uma manta com quincalha diversa, na feira de Tristan Narvaja, um atado de livros vários com as capas da Editorial Mar. Perguntei o prezo e, como era bem pequeno, paguei sem mirar.

Não tinha, infelizmente, entre os comprados, aquele “Los dos de siempre” tantas vezes citado de Castelao, traduzido, prologado (e seguramente impresso) pelo linotipista galego-oriental Arturo Carril, que era a causa pela que eu conhecia a existência da rara editora fantasma de Valência.

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Também não estava a obra teatral do próprio Carril (3 variaciones sobre un tema), nem o mítico Yerma/Mariana Pineda de Federico Garcia Lorca, publicado no 1º aniversario da sua morte (também Valencia, 1937). Tinha porém, um par de tomos de Baroja e uns quantos de El alma encantada, de Romain Rolland precedidas por um volume (nº2) com a biografia escrita pelo seu amigo e discípulo, em “Traducción directa del alemán hecha por Alfred Cahn, con la expresa autorización de Stefan Zweig”.

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A editorial Mar, com o seu belo selo e capas, um bergantim que navega no sol, repetidas variando a cor, é com toda certeza, um curioso projeto do anarquista Carril, vinculado ao galeguismo do Prata. E se o navio apresenta ecos de Ronsel, Alcor Galaico ou Nao senlleira:

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O sol irradiante, sobre o mar, símbolo hermético, do oriente, do espiritismo, a maçonaria e a cultura do novo amanhecer, já está presente nas Lojas portuguesas ou no emblema desenhado por José Fontenla Leal, também emigrante (em Cuba), mação, litógrafo e bibliófilo para a RAG:

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Contudo, o mais surpreendente do livro é seguramente o dado no pé de imprensa: Valência, 1937. Sabemos hoje, porém que como no caso do livro de Castelao, a obra foi impressa em Montevideu.

A falsificação (tão velha como a imprensa e tão frequente nas publicações no anarquismo), parece aproveitar, ou talvez procura movimentar o público leitor, com o apelo à solidariedade ante a Guerra na Espanha e a coincidência da edição propagandística dos Álbuns de Guerra de Castelao: Galicia mártir, Atila en Galicia, publicados em Valencia e Barcelona e ao que se uniria posteriormente Milicianos como apoio à causa da Republica.

Ainda que Cahn não tenha uma militância política concreta é claro que compartilhava o antifascismo e as propostas de divulgação da cultura popular. De origem alemão e tradutor nos selos argentinos TOR, Claridad, Astral, Cahn tinha amizade e correspondência com Zweig desde os seus 16 anos, quando morava em Alemanha, e a partir de 1921, desde Barcelona tornar-se-á o seu tradutor “oficial” para língua castelhana. A correspondência entre ambos intensificou-se desde a ascensão de Hitler ao poder. Em 1936, Zweig, realiza o seu primeiro viagem a Argentina, para assistir ao Congresso do Pen Clube, lá re-encontra com Cahn, quem até os anos 50 será um ativo fundamental na divulgação da obra de Zweig em América do Sul.

Não conhecemos ainda as relações – se existiram – entre Carril (que é provavelmente quem destaca nas “Dos palabras al lector” ser Mar a primeira editora que oferece na íntegra em castelhano El Alma Encantada, para o que cré oportuno proporcionar os leitores a biografia), Zweig e Cahn. Mas talvez existiram, dada a coincidência dos três no espaço editorial do Prata e desde logo pareceria extraordinário que Cahn desconhecesse  uma tradução “pirata” de El Alma encantada e da biografia de Rolland.

De qualquer jeito, o livro movimenta-se numas coordenadas, francamente atrativas. Livro popular, cultura de esquerda, internacionalismo pacifista, Os nomes de Rolland, Zweig, Arturo Carril, Alfred Cahn apresentam reminiscências de textos, personagens e citações de Luís Seoane, Arturo Cuadrado, bem contextualizadas pelo mestre Antón Capelán, ou nas lembranças das conversas com Antonio Pérez Prado, que tanto conformaram e guiaram as nossas leituras e pesquisas doutrora.

A biografia de Rolland, escrita por Stefan Zweig, no momento de mais impacto e fama da figura do famoso rebelde pacifista, em 1921, é um texto mais pesado – talvez pela tradução, talvez pelos excessos da hagiografia ao amigo – que os sempre atrativos textos biográficos (pensemos no seu fascinante Erasmo e na sua auto-biografia O Mundo de ontem) e ensaísticos do polígrafo austríaco. Mas, mesmo assim, não deixa de ser surpreendente, tanto pelos conteúdos, quanto pelo forte contraste que se estabelece com o hoje.

Nos últimos anos, nos fastos dos centenário da Grande guerra, a figura de Zweig, despertou de novo interesse, a re-edição dalguma das suas obras, correspondências e autobiografia, converteram-no numa testemunha incontornável para conhecer a Europa de antes da Grande Guerra e entre guerras. Não podemos dizer o mesmo de Rolland e doutras figuras, fundamentais na época e no seu contexto arredor. Postergado e desconhecido, como tantas uma(s) obra(s) e figura(s), importante(s) e internacionalmente famosa(s) e traduzida(s) do período de entre guerras.

 

Romain Rolland, Nobel de literatura (1915), por méritos da paz, recebido no meio de uma intensa polêmica na imprensa (dado que o nacionalismo francês considerou uma afronta a sua propaganda antibélica e o prémio) era desde Agosto de 1914, radicado na Suíça, colaborador da Cruz Vermelha, do socorro internacional a que cedeu o dinheiro do prêmio.

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Romain Rolland 1914 fonte: Wikipédia (Bibliothèque nationale de France, Agence de presse Meurisse)

Literato, ensaísta, fundador de revistas, musicólogo, historiador da música, professor da Sorbonne, e divulgador. Profeta de um mundo novo, de um humanismo internacional, progressista, admirador do projeto da nascente URSS, Europeísta convencido, mundialmente conhecido pelo seu desgarrado apelo antibelicista de 1914, e por ser um dos instigadores, do movimento intelectual, pacifista e antifascista Amsterdam-Pleyel (Comité mondial contre la guerre et le fascisme) do qual ele se torna o presidente junto com Henri Barbusse com quem forma tandem ativista nos anos 20-30 (e a quem incumbe o desenho dos grupos Clarté = Claridade).

Impressiona a voz independente de Rolland, na Suíça de 1914, erguido qual Gandalf na ponte ante o Balrog, clamando não contra a guerra, quanto contra os justificantes da guerra, contra os patriotas clubistas e os intelectuais contagiados da febre bélica nas suas poltronas guiando à morte e à loucura das trincheiras gerações inteiras de moços. Contra nenhum dos bandos, mas contra o ódio, o absurdo e o sem sentido, chantado ante o estado Francês e Alemão, suportando a perseguição, a condena, a censura, o silêncio na França e dos seus iguais, que devolviam cada um dos seus artigos-manifestos publicados na Suíça e proibidos na França e Alemaha, com uma campanha de ataque e propaganda violentissima que não se vira na cultura francesa desde o affaire Dreyfus e que nem se veria depois mesmo com Sartre e Simone de Beauvoir.

Adolf Hitler chega ao poder em janeiro de 1933, este feito reativa a propaganda antifascista, a propaganda impressa, as conferências, congressos e o ativismo antifascista. Nesse magma cultural intelectual, no que destacam as figuras de Rolland e Barbusse, originar-se-iam os diferentes movimentos de intelectuais internacionalistas contra o imperialismo e o fascismo na que emergiriam como os ideólogos e figuras públicas da Frente Popular na França e na Espanha).

Com o Nazismo no poder, a obra de Zweig foi proibida e censurada na Alemanha; em 1934 foge a Londres. O autor de Le feu (um dos grandes best-sellers antibelicistas com o também proibido de Remarke), delicado de saúde, morreu em 1935, numa viagem de propaganda na URSS. Em fevereiro de 1936 a Fronte Popular ganha as eleições na Espanha, em julho, como consequência do golpe de Estado militar com apoio do fascismo, começa a Guerra da Espanha, e a pesar das campanhas internacionais contra a guerra e o fascismo, a ingerência das potências fascistas, o bloqueio britânico e francês à ajuda a República, assim como depois os efeitos do Pacto Molotov–Ribbentrop, marginalizam os intelectuais antifascistas europeus nas vésperas da II Guerra Mundial.

Em 1937, Rolland retira-se em Vézelay. Durante a ocupação, isola-se, refugiando-se nas suas memórias, que completa em 1940. Dá os últimos retoques à pesquisa musical sobre a vida de Ludwig van Beethoven. Em 1942, Zweig, suicida-se, no Brasil. Rolland, morrerá na histórica vila da Borgonha em 30 de dezembro de 1944.

Mudaram no mundo muitos valores desde os anos vinte, e as famas, sabemos, são mais ligeiras que os anos. Hoje, apenas há lembranças de Rolland e do seu contexto, deste precedente da Europa moderna emergida da última guerra europeia, do pacifista, do ativista, do músico, do divulgador de Beethoven, do criador de uma filosofia idealista e internacionalista da cultura e da divulgação popular.

Dificilmente hoje, faltos de contexto e tradição, entendamos a admiração por este – talvez o derradeiro – herói intelectual da Europa, da civilização e cultura da Mitteleuropa do século XIX. Erguido no meio de uma loucura destruidora, que contagiou por igual, estadistas, intelectuais, académicos, sindicatos, massas, levando-as à destruição mais brutal da civilização e chacina sem sentido que conhecera a história moderna. O impacto da grande guerra, em palavras de Rolland, uma “guerra civil ao coração da Europa” foi talvez definitivo e os seus efeitos sociais, políticos económicos e culturais, definiram em realidade e como quebra todo século XX.

Profeta contra o nacionalismo e o imperialismo, profeta contra a desfeita de Versalhes que condenava todos a derrota; profeta contra o militarismo, o nazismo e o fascismo, quando poucos intelectuais e estadistas ainda percebiam os grandes monstros e ambas as guerras. Discípulo de Tolstói admirador, divulgador e primeiro biógrafo de Gandhi, europeísta e reivindicador de uma consciência e alma europeia, antes que ninguém. Talvez, a sua análise profética da realidade europeia; talvez o seu apoio a União Soviética e ao internacionalismo proletário; talvez a sua reivindicação e exemplo criativo por uma cultura humanista, de um internacionalismo pacifista e de esquerda; talvez a sua constate pugna contra uma literatura canônica, nacionalista e as feiras de críticas e academicismos arredor dela… talvez isto tudo e o contexto da Guerra fria e após Guerra fria, não permitiram doadamente o encaixar nos cânones, mitos e narrativa histórica da pós-guerra e de uma União Europeia construída como mercado, focada no capital e no comércio.

 

P.s.

Talvez é por ler Rolland, Barbusse, Zweig e os seus discípulos galego-pratenses, Seoane, Cuadrado e Pérez Prado que tenha uma crescente suspicácia com a figura, crítica e obra de Emilia Pardo Bazán: à que coloco, seguindo as teses de Rolland, sobre a moda Zola e os epígonos e imitadores do Naturalismo, em equilíbrio de memórias, prestígios e cânones, como representante supra valorada de uma literatura nacionalista em construção, criadora de imagens escandalosas e de quadros efectistas para contentamento das classes acomodadas e material para a féria de vaidades da crítica e a academia, sem qualquer proposta de educação de massas e sem aquele programa idealista de superação universal coletiva que tão bem define essa literatura esquecida e enterrada, que tanto contrasta também com a contemporânea e os seus cânones e precedentes autorizados.

Mas essa, como a dos grupos Clarté na Galiza americana e em Compostela, é também outra história.

One comment

  1. Abanhos

    Uma lição maravilhosa dum mestre com a sabedoria erudita de quem ama os livros e os devora

    Gostar

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