UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (229)

O PRIMEIRO CENTENÁRIO DA BATALHA DE LA LYS

Podemos ter como certo que já nenhum dos combatentes sobrevivos da batalha de La Lys, ainda esteja vivo. Uns, muitos, morreram no local, e outros a lei do tempo e da vida encarregou-se de os levar para um lugar bem melhor do que este.

 

 

Fazia frio, muito frio naquela madrugada do dia 9 de Abril de 1918. As labirínticas trincheiras, cheias de lama gelada não eram um local apetecível para se estar. A morte pairava por cima da terra de ninguém, indo e vindo de um lado para o outro, sem se decidir de que lado iria, com mais intensidade, assentar arraiais.

“A vida neste labirinto era terrível. A lama, os ratos que se alimentavam de cadáveres em decomposição na terra de ninguém e espalhavam doenças, os piolhos, o frio, a comida fornecida pelos ingleses com picles que os portugueses odiavam, os bombardeamentos frequentes e o receio permanente de raides ou de ofensivas mais perigosas concediam às trincheiras uma aura de pesadelo que alimentava a raiva e aprofundava a tristeza e o desânimo.”(escreveria o major André Brum nas suas memórias sobre A Malta das Trincheiras.)

As tropas entrincheiradas naquele espaço eram portuguesas (a 2.ª divisão do Corpo Expedicionário Português – CEP, dos quais pouco mais de 15 000 homens estavam nas primeiras linhas), e pertenciam aos “bons”. Do outro lado (oito divisões do 6.º Exército Alemão, com cerca de 55 000) estavam os “maus”, os alemães.

A frente de combate, essa, distribuía-se numa linha de 55 quilómetros, entre as localidades de Gravelle e de Armentières, no vale da ribeira de La Lys, na região da Flandres Francesa.

Os soldados portugueses, que nunca tinham tido a devida preparação para as exigências e dificuldades com que tiveram de lidar no norte de França, já cansados e desmotivados devido à falta de substituição pelas tropas britânicas, como estava combinado, eles que estavam já há cinco meses enfiados naquelas soturnas e esventradas luras, no meio de neve enlameada, lutando pela vida e pela honra de soldados portugueses, tinham acabado de receber no dia 8 de Abril, as ordens, ansiadamente esperadas, para poderem sair das trincheiras da linha da frente, e irem para posições mais recuadas. Essa movimentação, esperavam os soldados lusos, iria ter lugar precisamente nesse dia 9.

Os alemães, melhor apetrechados, em qualidade e quantidade, e motivados pelo desespero de um final, para eles feliz, atacaram às primeiras horas da manhã envoltos por um nevoeiro cerrado. As tropas inglesas, que com as portuguesas compunham a frente de batalha, tinham-se afastado das suas posições, deixando expostos os flancos do CEP.

Nesta batalha, a 2.ª Divisão do CEP foi completamente desbaratada, tendo-se, ingloriamente, sacrificado nela muitas vidas, entre os mortos, os feridos, os desaparecidos e os capturados como prisioneiros de guerra. Em apenas quatro horas de batalha na madrugada e manhã de 9 de Abril, os portugueses registaram milhares de baixas; foram cerca de 420, os mortos (há quem fale de 600), incontáveis, os desaparecidos, centenas, os feridos, e mais de 6500, os prisioneiros.

 

TRINCHEIRAS EM LA LYS

O desfecho da batalha de La Lys não foi diferente do que era esperado pelos oficiais responsáveis dentro do CEP, Gomes da Costa e Sinel de Cordes, que por diversas vezes haviam comunicado ao governo português o estado deplorável em que se encontravam as tropas portuguesas. Armas obsoletas, se comparadas com as alemãs, moral em baixo, gases letais utilizados pelo inimigo e impreparação para a guerra por parte dos nossos magalas, acrescentaram razões para aquele trágico desfecho.

De acordo com diversos historiadores, foram estes os principais fundamentos para a clamorosa derrota portuguesa:

  • A revolução de Dezembro de 1917, em Lisboa, que colocou na Presidência da República o Major Dr. Sidónio Pais, o qual alterou profundamente a política de beligerância prosseguida antes pelo Partido Democrático, e a chamada a Lisboa, por ordem do agora Presidente, de muitos oficiais com experiência de guerra ou por razões de perseguição política ou de favor político.
  •  As tropas portuguesas não terem sido rendidas pelas britânicas devido à falta de barcos, o que provocou um grande desânimo nos soldados. Para além disso, alguns dos oficiais, com maior poder económico e grande influência política, conseguiram regressar a Portugal, mas não voltaram para ocupar os seus postos.
  • O moral do exército ser tão baixo que houve insubordinações, deserções e suicídios.
  • A grande diferença numérica entre as forças portuguesas e as alemãs.
  • O armamento alemão ser muito melhor, em qualidade e quantidade, do que o usado pelas tropas portuguesas.
  • O ataque alemão ter-se dado no dia em que as tropas lusas tinham recebido ordens para, finalmente, serem deslocadas para posições mais à retaguarda.
  • As tropas britânicas terem recuado as suas posições, deixando expostos os flancos do CEP, facilitando o seu envolvimento e aniquilação.

 

 

SOLDADOS PORTUGUESES NUM DOS MUITOS CAMPOS DE PRISIONEIROS ALEMÃES

 

Os cerca de 6500 prisioneiros foram levados para diversas instalações alemãs, tendo por lá permanecido muito para além do fim da guerra, que aconteceu em 11 de Novembro desse mesmo ano. Os prisioneiros portugueses só regressaram a Portugal em 1919, entre Janeiro e Março, esquecidos e votados ao mais total abandono, durante mais de dois meses, pelos mandantes portugueses, tendo, à chegada, sido vergonhosamente recebidos, sem honra nem glória, pelo Estado Português. Dizem que a razão dessa atitude, a de não receberem os soldados Portugueses que estiveram prisioneiros como heróis, que o foram, se deveu à guerra civil que grassava no País, entre republicanos e monárquicos. Quanto ao esquecimento e ao abandono, a culpa teria sido do ingleses, que não providenciaram transporte. Não me servem como desculpa! Entre eles estava o meu avô materno, que chegou a Lisboa a 19 de Janeiro. Um dia, quem sabe, acabarei contando a história dele.

 

 

Também sobre a Batalha de La Lys, e o 9 de Abril, veja a Crónica nº 28 desta Carta do Porto, “clicando” no endereço abaixo:

https://aviagemdosargonautas.net/2014/03/13/uma-carta-do-porto-por-jose-magalhaes/

Obrigado

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NOVA PONTE ENTRE PORTO E GAIA

A PONTE DO BISPO (nome carinhoso com que irá ser conhecida pelas gentes do burgo)

About José Fernando Magalhães

Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

2 comments

  1. Pingback: UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (229) | joanvergall

  2. Carlos A.P,M.Leça da Veiga

    Na realidade a ofensiva dos “boches” não vingou. Mercê dum esforço notabilíssimo da pobre tropa portuguesa – honra à sua memória – os ingleses tiveram tempo para reorganizar-se impedir o sucesso germânico. Apesar de tudo – avaliem-se bem as circunstâncias – só deve considerar-se o 9 de Abril como uma vitória do CEP. Quem terá tornado muito mais frágil o sector português? Quem o desguarneceu? Sidónio Pais ,o ditador nacional que foi bem conhecido como um germanófilo muito activo . CLV

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