A GALIZA COMO TAREFA – ronda – Ernesto V. Souza

A história não é justa, nem “põe as cousas no seu lugar”. É seletiva apenas. E interesseira. Como a memória. Mas são os poderes vigentes: imperadores, reis, condes, a igreja, antes; os mass média, a opinião do público guiado, grandes empresas, estados, poderes fáticos e políticos, depois, que foram e vão – em função dos mais diversos interesses, com os mais diversos agentes, escolas e sistemas inventados, com não poucas arbitrariedades, gostos, preferências e medos – selecionando.

Há justo cem anos, numa Espanha em crise múltipla (catalanista, obreira, política) pressionada até os limites pelos aliados e os germanos, governava o Conde de Romanones, epígono da corrupção caciquil e do Parlamentarismo do XIX; no mesmo momento, e nos campos da Europa, continuava a chacina nas trincheiras; e lá, no exótico oriente, sob o sol do deserto, T. E. Lawrence, depois Coronel Lawrence de Arábia, livrava as suas batalhas no meio dos irregulares árabes, contra os turcos.

lawrence

A lenda T. E. Lawrence, e aquelas imagens nas que aparecia perfeitamente fardado para aquelas fotos fantásticas, não deixou de crescer com a passagem dos anos. A iconografia arquetípica, sobre um camelo, numa janela de Damasco, ante uma tenda, ou posando de estudo, com as suas brancas guthra, kandora e bisht, apoiado na sua refulgente jambia, não é estritamente contemporánea, mas um bocadinho posterior na sua construção.

Depois da guerra, o público inglês (e o mundial) foi bombardeado com a história deste raro e indisciplinado oficial básico, que atendia ao nome de Lawrence, e que de roupas exóticas, liderara audaciosamente a revolta Árabe, contra os inimigos da Grande Bretanha no Médio Oriente.

Entre 1919 e 1924, T. E. Lawrence foi assim popularizado pela imprensa e fotografado, como “Lawrence of Arabia”, protagonizando uma das primeiras performances multimedia, destinada para um público de massas. Popularidade conflituosa e dramaticamente sobrevida para um protagonista incómodo, que o levaria a um escapismo constante e que o converteria, nas décadas a seguir e até a sua morte, num absurdo acidente de moto em 1935, num procurado troféu midiático.

Por que o sucesso deste herói solitário, introvertido, erudito, bibliófio e auto-editor exigente como discípulo de Morris, atormentado académico oxoniense, poliglota, arqueólogo, estudioso militar, escritor, possuidor de uma rara cultura e escrita elitista e dono de uma imagem e um relato (não pouco alterado, censurado e auto-silenciado durante muitas décadas)?

Talvez a explicação para a origem desta figura icónica, provavelmente tenhamos que procurá-lo no contraste (entre o controvertido, carismático, singular e genial personagem elevado à categoria de ídolo) com a chacina indiscriminada e anônima nos campos enlamados da França e Alemanha.

Resulta interessante o contraste num panorama devastador. Após as flamas patrióticas de políticos e intelectuais, da propaganda e da imprensa, o presente estava saturado das histórias das viúvas, dos órfãos, dos tantos companheiros mortos, dos inúmeros mutilados e dos mentalmente afetados. A destruição social no Reino Unido e na França e a humilhação, guerra civil e revolução afogada e mais sangue na Alemanha que tanto terão a dizer nas décadas seguintes no constructo do contexto político e social que levará ao fascismo.

Sem dúvida, as fotografias e as achegas biográficas sobre o herói da Arábia são mais conhecidas e populares que a sua obra. A prosa de T.E. Lawrence, maravilhosa na sua correspondência e deslumbrante, na narração bélica e biográfica, no ronsel de Herodoto e Xenofonte, dos Sete Pilares da Sabedoria, (na sua versão abreviada Revolt in the Desert,) ou na sua Tese de doutoramento em Oxford: Crusader Castles.

As vivências e efeitos da Grande Guerra, já direitos, já indireitos atingiram a literatura e a cultura, de Wittgenstein a Kafka, passando por Conan Doyle ou J.R.R. Tolkien, encontramos os mais diversos ecos da hecatombe. Até 1914 a guerra era uma cousa heróica, após mudou, como mudou a literatura.

Entre estas mudanças, destaca a popularização dos Romances de guerra, os mais deles metafições literárias, ou escritas do eu, em concorrência também com os poemas saídos das trincheiras e os livros de memórias, convertidos num sucesso editorial a nível europeu sem precedentes que dominaram os anos 20 e 30.

Dos romances sobre a Primeira Guerra Mundial, o mais conhecido é sem dúvida o alemão, Im Westen nichts Neues (Nada de novo no front, 1929), de Erich Maria Remarque (continuado o modelo em várias outras narrativas, alguma também ambientada da II Guerra mundial), A farewell to arms, (Adeus às armas 1929), de Ernest Hemingway, Jahrgang 1902 (Classe 1902, 1928) de Ernst Glaeser, Le FeuJournal d’une escouade (1916), de Barbusse, que definiu o género. Podemos também incluir entre estes best-sellers o Good-Bye to All That, a autobiografia desses anos de Robert Graves, ou os poemas e notas sobre Wilfred Owen, Los cuatro jinetes del apocalipsis (Os quatro cavaleiros do Apocalipse 1916) de Vicente Blasco Ibáñez, e Imán o primeiro romance de Ramón J. Sender, ambientada no desastre de anual e publicada em 1930 pela Editorial Cenit. A saturação chegou a ser tal que na própria época apareceram as críticas e as paródias, sendo talvez a mais lograda a de Wenceslao Fernández Florez, no retranqueiro romance Los que no fuimos a la guerraApuntes para la historia de un pueblo español durante la guerra europea (CIAP, 1930).

Porém, cumpre destacar, a reivindicação da memória, da loucura belicista, do absurdo e da insanidade das decisões políticas e militares, transmitida exponencialmente através dessa literatura, não poucas vezes levada ao cinema mas hoje esquecida, não sei se surpreenderá, será mantido até a convulsão propagandística da Guerra da Espanha, como tema pela esquerda cultural, através das suas revistas e editoras. Alvo imediato, livros, textos e autores, dos fascismos.

 

 

One comment

  1. Abanhos

    Mais uma pequena amostra da tua erudição inesgotável, é uma maravilha que temos a sorte de desfrutar os leitores

    Gostar

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