SOBRE A EUROPA, SOBRE PORTUGAL E TALVEZ TAMBÉM SOBRE O SPORTING – por JÚLIO MARQUES MOTA

 

Hoje e amanhã vivem-se e viver-se-ão talvez algumas horas de tensão e tudo isto por causa de um jogo de futebol. Será mesmo apenas por causa de um jogo de futebol ou será sobretudo por causa de uma sociedade que dá claros sinais de uma profunda degradação? Inclino-me para esta última hipótese.

E tanto será assim que ainda hoje um dos intervenientes do drama pontual que se tem colocado em relevo, vem atirar também a culpa para cima dos jogadores que terão sido altamente indelicados para com os adeptos. No fundo estes são os reis, quer ele dizer. No outro extremo, Miguel Sousa Tavares, um intelectual do mainstream que nos diz ele? Mesmo estando de acordo com muito do que ele diz, não podemos nunca aceitar expressões como o que vem no Expresso¨Como nascem os Brunos de Carvalho. E porque devem ser mortos à nascença”. Expressões destas indicam que também se pode derrapar facilmente para o extremo oposto, o que seria tão mau como no primeiro caso.

E o Miguel Sousa Tavares, deveria saber de tudo isto. Deveria bem saber que o problema não são os Brunos de Carvalho, estes são o resultado da sociedade que os gera pois é esta que os cria , que os protege  e, mais ainda, que os alimenta sucessivamente e nem que seja à custa de muitos milhões, como se ilustra com a banca, com os perdões da banca, com a existência de um submundo de futebol sobre o qual as autoridades parecem assobiar para o lado e que vive em roda livre. E os perdões da banca, que são os roubos feitos aos nossos bolsos, não acontecem por  acaso, e não será também por acaso que gente que nisso esteve muita empenhada é  também agora noticia relevante desta realidade trágica-cómica.

No resto, há uma certa verdade no que Miguel Sousa Tavares nos diz quando afirma:

“Os Brunos de Carvalho do futebol antecipam o que poderá ser um dia o aparecimento dos Brunos de Carvalho da política. E, a avaliar pelo que vimos no Sporting, o povo está maduro para lhes abrir os braços. O povo e as pretensas elites, que se julgava educadas para defender a democracia contra a demagogia. Talvez tenham complexos de enfrentar os demagogos quando eles se reclamam do povo e se dizem seus defensores. Mas é assim mesmo que morrem as democracias: às mãos dos demagogos e pela deserção das elites. Desejo sinceramente que o Sporting não morra. Mas, se morrer, ou se for ao fundo durante uns anos, ao menos que sirva de exemplo”.

Mas estamos numa sociedade profundamente doente quando se foi incapaz de travar a situação e chegarmos ao ponto perigoso a que estamos a chegar. E foi-se incapaz porquê? Porque uns estavam mais interessados nos negócios a que a posição dentro do clube lhes pode eventualmente permitir, outros pela notoriedade pública que o cargo lhes confere, outros eventualmente pelas remunerações que poderão estar a auferir, e muitos outros, muitos mesmo, a andarem iludidos pelo populismo de quem promete este mundo e outro, venha isso a ser Verdade ou Mentira. Mas muitos mais ainda são aqueles que preenchiam o vazio da sua vida em função do empenho que dedicam ao seu clube favorito, neste caso o particular o Sporting, mas  que poderia ser um qualquer outro clube. Os estudantes têm a sua Queima das Fitas com droga, álcool e outras coisas mais à mistura como preenchimento do enorme vazio para onde a sociedade os atira, e os fanáticos do futebol têm os resultados de semana a semana para tema de conversa e de conflito e assim esquecerem o resto, alimentados nessa alienação por todas as cadeias de televisão com outros fanáticos a discutirem futebol, com alguns a rondarem até a classificação de imbecis. Sublinhe-se que haverá honrosas exceções mas cabem nos dedos de uma mão.

Os populismos a chegarem ao poder, nesta caso numa grande instituição desportiva, em que o líder apresentava sinais claros de incapacidade de lidar com o mínimo percalço em face dos seus objetivos pessoais e de clube. Mas esses sinais ninguém os quis ver, por aderência ao passado e ou  por ignorância do presente e de uma visão confusa sobre esses mesmos sinais. Revejam-se as figuras notórias que rodearam este caso, revejam-nas ao longo de meses. Quando o dito Presidente determinou num discurso aguerrido o que os sportinguistas deviam sentir, o que é que deviam ler, o que é que deviam ver, foi doloroso ver gente bem conhecida e bem posicionada na vida a fugir à questão do que é tudo aquilo representava. Bom, representava então a possibilidade do que está agora a acontecer.  Mas, sublinhe-se, é desta massa que se fazem os ditadores. Curiosamente, não anda já para aí gente a falar num partido que poderia nascer a partir de Belém?

Aparentemente sem nenhuma ligação a isto – mas será mesmo assim?- publico quatro textos:

  1. Um sobre as verdade e mentiras na União Europeia, um texto de Munchau do Financial Times, que se questiona se os dois anos de crescimento não foram antes os episódios anormais de uma economia europeia que vive deprimida,   ao contrário das autoridades europeias  que só   nos sabem falar dos amanhãs que cantam,  porque a queda do crescimento do que está agora  a ocorrer,  isso é, na  opinião de Bruxelas, simples acidentes que se resolvem na próxima esquina, no próximo    Verdade ou mentira, e de quem?

  1. Dois textos da Bloomberg que nos falam   dos amanhãs que cantam, pela boca de vários banqueiros e isto quando estes já salivam como os cães de Pavlov   quando  nos Estados Unidos se está já a  querer passar a tomar como legais operações financeiras que desde  a crise de 2008 até agora estavam proibidas aos grandes bancos.

  1. Um terceiro texto, intitulado    A ideia de um mundo sem dívida federal é uma verdadeira quimera, de Sheila Weinberg , onde se fala de números inimagináveis, de comportamentos inimagináveis, onde parafraseando a autora mas adaptando-a para a situação europeia e para o caso português, em particular,  se poderá dizer:

Os factos frios e duros das nossas politicas de austeridade  ao longo das últimas duas décadas têm-nos  mostrado que a ideia defendida pelos neoliberais  de um mundo sem dívida pública não é nada mais nada menos de que um desejo sem sentido. 

Agora, mais do que nunca, precisamos de dirigentes que vivam a nossa  realidade e nos contem a verdade sobre os desafios económicos e sociais  prementes que o país enfrenta. . Não podemos esperar levar mais  duas décadas  — ou mais ainda — a esconder esta situação e, como tal,  a  não procurar  encontrar soluções reais para o grave problema que a “verdadeira” austeridade, a verdadeira precariedade,  visível e a invisível, nos está social e economicamente a colocar.

  1. E, por fim, um texto de um historiador americano que nos dá Dez lições sobre a República de Weimar, que nos fala sobre os negros anos 30, onde não  deixa de nos referir , o que eu pessoalmente ignorava, que o Marechal   Paul von Hindenburg começou a ficar senil, devido a diversos derrames cerebrais. O Marechal, Presidente do Reich, tinha como companhia principal o seu filho Oskar, um corrupto endividado até ao tutano e portanto sensível a todas as pressões que a alta finança lhe fazia. E foi assim que Hitler chegou ao Poder.

E de corrupção parece estar o mundo do futebol cheio. a acreditar no que dizem os media.  Organiza-se assim um espetáculo mediático dantesco, que nos envergonha a todos nós, seja-se sportinguista ou não, um espetáculo que nos sai caro a todos nós, quer pelo que pagamos diretamente quer pelo que pagamos indiretamente. E estarmos todos a pagar para se resgatarem bancos que perdoam as dívidas aos clubes criadas porque estes andaram todos a pagar altas remunerações a  tanta gente não é isso corrupção? Se não é corrupção ativa, não me digam que, pelo menos, não é corrupção passiva. E que nos diz o governo quanto a tudo isto, quando nem sequer quer pagar horas extraordinários aos médicos nas urgências dos hospitais?

Talvez nada disto tenha a ver com a Europa, com Portugal, com a lógica que está por detrás de tudo o que se está a passar no Sporting. Se assim considerar, simplesmente carregue na tecla delete. É simples.

E boa leitura.

Coimbra, 19 de Maio de 2018

Júlio Marques Mota

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

One comment

  1. franciscogtavares

    Júlio

    Depois de ler este teu texto fico sem perceber a série das Nuvens negras.   Recordo da enviagem que te enviei à tarde, os textos da série: 1 PIOR QUE EM 2008? EIS O QUE NOS MOSTRAM OS NúMEROS DOS MERCADOS EMERGENTES (BLOOMBERG) 2 A ZONA EURO ENFRENTA O MêS DA VERDADE A PARTIR DE DADOS PRELIMINARES à REUNIãO DO BCE (BLOOMBERG) 3 A ECONOMIA ALEMã TROPEçA ENQUANTO A EUROPA SOFRE UM RETROCESSO NO CRESCIMENTO (BLOOMBERG) (sobre este título comento mais abaixo) 4 A RECESSãO DA ZONA DO EURO E A FALTA DE REFORMA PRESSAGIA UMA CRISE EXISTENCIAL (WOLFGANG MUNCHAU, FT) 5 A REGRA DE VOLCKER ESTá A SER REESCRITA PARA REDUZIR OS CUSTOS COMERCIAIS NOS BANCOS, DIZEM-NOS CERTAS FONTES (JESSE HAMILTON, BLOOMBERG) 6 DEZ LIçõES SOBRE A REPúBLICA DE WEIMAR (HAROLD JAMES, PROJECT SYNDICATE)

    NãO ESTãO VáRIOS DELES INCLUíDOS NESTE TEU TEXTO?

    C

    Gostar

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