A GALIZA COMO TAREFA – hierarquias – Ernesto V. Souza

Todas as sociedades alicerçam as suas realidades e ordem social, sobre capas de constructos imaginários que vão justificando as hierarquias sociais e políticas que as governam; e que, por sua vez, definem e justificam como “naturais” e quase “eternos” os valores e símbolos que se consagram como legítimos, representativos e canônicos e que vão conformando as tradições fundamentais herdadas e que nas que se justificam.

O tempo vai fazendo que variem os processos e as circunstâncias históricas, económicas e sociais (pontuais ou acidentais) que definiram, ou justificaram, as construções e preeminências das hierarquias originais; porém, as suas descendências, continuam no domínio ou na predominância social, enquanto as mitologias sociais, as narrativas, o corpus institucional, e os valores ainda espelhem, sem muito questionamento, essa ordem estabelecida (e com ela a própria estrutura hierárquica).

Pode acontecer que um cúmulo de circunstâncias económicas, políticas e sociais, venham questionar aos poucos estas hierarquias, fruto das quais, e em transições mais ou menos lentas, venham se produzir mudanças de diversa importância que vaiam alterando essas hierarquias. Pode ser também que as mudanças sejam aceleradas ou rompedoras e, após crises mais ou menos prolongadas, episódios de violência, conflitos ou roturas sociais ou territoriais, definidas como revoluções, passem a modificar-se radicalmente as hierarquias, as tradições e a ordem “natural” estabelecida.

Ainda hoje, nas grandes narrativas das mitologias e religiões do passado, e do presente, podemos ver facilmente na voz e feitos dos deuses ou na sua “palavra” fixada canônica por escrito, os ecos das sociedades passadas, do dia a dia, dos hábitos e crenças, que as criaram. Também podemos ver, com facilidade e seguindo Italo Calvino a ler Ovídio, nos ritos, as prescrições, leis, justificações, os hábitos sacralizados que explicam as decisões e práticas das hierarquias passadas, as suas evoluções históricas, e nalguns casos dentro do continuum (repetitio-variatio) as suas evoluções presentes.

Disto tudo podemos conferir o que vêm sendo as nações: símbolos, ritos, tradições inventadas mas assumidas socialmente, hierarquias e comunidades para as que esse constructo tem valor, sentido e serve de justificação. Mas o que acontece quando o espaço nacional não se corresponde com o estatal?

É dizer, que acontece quando os corpus mitológicos, religiosos, os constructos hierárquicos, com os seus valores, sentido do bem e o mal, permissividades, tecido social e institucional, etc. não são correspondentes? Quando não são ajustados ou não estão bem integrados numa mesma narrativa estrutural e colidem?

As respostas variam em função do resultado: conflito permanente entre partes; equilíbrio distante, mas regulamentado e pautado; discriminação, apartheid, ou simples preterimento do menor; esmagamento propositado da parte mais fraca pela mais forte…

Temos visto desde o século XVIII, no que podíamos chamar seguindo os mestres, a Era do Nacionalismo (Kohn, Hobsbawm), como a ideia do estado-nação (constructo europeu bem moderno) foi-se colocando sobre todos os constructos anteriores, apagando-os em muitos casos e (ou) aparelhando por causa desse confronto, a aparição de conflitos nacionais; por toda a parte, mas sempre dentro (quitando os povos indígenas marcados como “primitivos” que se resistiram ao “progresso”) das regras de jogo da nação, o nacionalismo e os atributos do cidadão.

Nesse sentido é interessante o caso da Galiza, com as suas paróquias bi-milenares, a sua população ancestral definida por umas hierarquias políticas, sociais e territoriais muito anteriores à ideia da nação e estruturada por um conjunto cultural de crenças, filosofias, princípios, estratégias discursivas, políticas e sociais.

Cumpre se perguntar se o fracasso da institucionalização social e política da modernidade, na Galiza, tanto por parte do Estado Nação quanto do fracasso na competição nacional, por parte do nacionalismo político local, não será devido justamente a essa falta de correspondência entre um submundo de mitologias, institucionalização, hierarquias sociais aprendidas e em funcionamento, e um mundo moderno e político que se rege e define em base a outro constructo em definição, pelo Estado desde 1814 e fortemente desde 1833?

iceberg-ship-vintage-engraved-illustration-sketch-hand-drawn-55141390Talvez, o problema do nacionalismo galego foi curiosamente, querer competir e construir, de fixar as narrativas de análise e logro, dentro de um modelo alheio.

Porque existir existe um feito galego, um património, artes, literatura, língua, isso tudo é evidente nos olhos e palpável nas mãos.

Mas também existe um jeito galego (e até um jeitinho – reparem que a palavra já era nossa com a ironia inteirinha antes de Cabral escrever cartas do Brasil), uma filosofia cultural, uma concepção marcante do que é o bem e o mal, o conflituoso e o fluído, o justo, o injusto, o correto, o reprovável, o elegante e charmoso, social e culturalmente.

Há uma expressão, uma retórica, uns modos, maneiras e jeitos, uma diplomacia, um savoir-faire e um laissez passer, bem medido e até exasperante no controlo dos tempos, umas táticas provadas e uma estratégia social e política, umas hierarquias próprias. Disto tudo não assim evidente, dão conta as inúmeras figuras galegas em destaque, desde que o mundo é mundo e há memória, nos campos da religião, da milícia, do governo, da administração, da justiça e as leis, da corte, da política, da imprensa e publicidade, do mundo comercial e empresarial

De antes e de hoje, o “galeguismo” chocante e as “galegadas” inextricáveis, o humor retranqueiro e sapiencial, a legalista e firme lealdade, a permanente capacidade de adaptação resistente, a firme flexibilidade dos cépticos de raça, e a calma superficial de submersos perigos que caracterizam e com que se define as nossas figuras nas artes, na ciência, nas letras e especialmente na vida pública e no funcionamento das polis, os impérios, os condados, os reinos e os estados.

Há galegos e galegas, por toda a parte, fazendo funcionar a maquinária do mundo. Não há dúvida que haver há gente galega, por muito que seja, como parte do seu hábito cultural e modelo de promoção hierárquica pessoal, discreta e honestamente dissimulada. E, em havendo galegos e galegas, há um jeito galego, uma política galega, um pensamento galego, umas hierarquias galegas, mas na Galiza faltam, há séculos, instituições galegas que espelhem esse mundo, construam as narrativas, atualizem as hierarquias e ponham em destaque e com sentido os valores culturais.

Sobra talento individual, mas sem instituições próprias, que definam projetos, estruturas e futuro, essas capacidades adaptáveis e cépticas, não têm aproveitamento para a construção do coletivo social, e deixam, apenas, duas vias possíveis: ou emigrar mais ou menos longe ou se integrar como parte nas estruturas e instituições existentes (no fundo outra forma de emigrar) que o Estado (Espanha, preferentemente, mas também os outros nacionalismos ibéricos e Portugal) vai gerando há tanto e definindo com a ajuda e achega dos galegos, as suas manhas, ditos, armadilhas, hierarquias, diplomacias, contos, cepticismos cínicos e filosofias pragmáticas.

Tratar de compreender não é tarefa doada. Análises simples prestam pouco. Especialmente quando nos limitamos a observar apenas a parte flutuante na linha da água. Mas há um mundo submerso surpreendente na Galiza à espera de narrativas próprias.

One comment

  1. Alexandre Banhos

    O problema das chamadas forças nacionalistas galegas, não é o do seu não ajeitamento a nossa realidade milenar, nada disso, é o facto de que em realidade o seu é um projeto español, heterodoxo mas espanhol, e superarrem isso gera verigem… Se houvesse um projeto nacional certo, Portugal ecoaria por o todo lado….porém como isso não é españa….
    Abanhos

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