Homenagem ao Carlos Tenreiro, uma série de textos sobre questões de macroeconomia e de alta finança – 16. Este é o ponto de viragem (1ª parte). Por Charles Hugh Smith

Carlos Tenreiro

Carlos Tenreiro, um estudante de excecional maturidade emocional, de rara cultura, de rara sensibilidade e de alta capacidade pedagógica para transmitir o que sabia e até muitas vezes a gerar nos estudantes uma apetência por aquilo que ele mesmo ainda não sabia, mas que faria parte da sua trajetória de conhecimentos a desenvolver.

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

16. Este é o ponto de viragem (1ª parte)

Por Charles Hugh Smith Charles H Smith

Publicado por  Peak Prosperity em 6 de abril de 2018

 

As tendências de comportamento da década passada estão em reversão

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Imagem por Shutterstock

O ditado “o verme transformou-se” [ou “o mundo mudou] refere-se ao momento em que os oprimidos estão finalmente de saco cheio e se viram contra os seus poderosos opressores.

Os vermes finalmente viraram-se contra as elites privilegiadas – que tanto se beneficiaram com a globalização, a corrupção, o estímulo dos bancos centrais e a exploração de cartéis impostos pelo Estado. Não importa tanto se os peritos consideram que os vermes estão a virar à esquerda ou à direita; o importante é que os sem poder finalmente começaram a desafiar os seus privilegiados senhores.

Embora os poderes estabelecidos se esforcem em tentar aplacar ou reprimir a revolta dos sem poder, os génios da desunião política e da desordem social não podem ser colocados de volta na garrafa. Foi necessária uma geração de crescente desigualdade, corrupção e de erosão de oportunidades para criar uma sociedade dos protegidos (os que têm) e dos desprotegidos (os que não têm), e estarem agora a carimbar mais regulações e a distribuir o Rendimento Básico Universal (Universal Basic Income – UBI) não irá reequilibrar um sistema irrevogavelmente desequilibrado.

Mas o aumento da resistência, embora ainda nascente, é apenas metade da história: as tendências económicas e os ciclos também estão a mudar, e mesmo que os vermes permaneçam passivamente no subsolo, estas reversões vão perturbar o status quo. A narrativa dominante – a correção, a bondade e a sustentabilidade do crescimento sem fim do consumo e da dívida – será desfeita, e as contradições internas desta Nova Idade Dourada (aumento da desigualdade de riqueza / de rendimento / de poder) finalmente romperão a fina fachada da estabilidade que foi conseguida nos últimos nove anos de “recuperação”.

Oito tendências principais / Os ciclos estão a mudar

Aqui está o nosso ponto de vista sobre tendências e ciclos: quando inevitavelmente se perde altitude ou se reverte, corremos imediatamente para tentar identificar a causa. São apresentados todo o tipo de teorias, mas, regra geral, raramente se resumem a uma única dinâmica.

Considere o declínio e a queda do Império Romano do Ocidente. Os esforços para identificar a causa remontam a centenas de anos atrás e incluem tudo, desde as invasões bárbaras até à utilização de tubagem em chumbo para distribuição de água.

Um novo livro, O Destino de Roma: Clima, Doença e o Fim de um Império, atribui uma parte significativa da responsabilidade às mudanças climáticas e às dinâmicas das doenças pandémicas que lentamente minaram o vigor de Roma, o abastecimento de alimentos, o capital e a força de trabalho. Não apenas isso, mas os padrões climáticos de resfriamento na Eurásia podem ter estado por trás do movimento para o oeste das tribos nómadas (os hunos e os mongóis) que empurraram as tribos existentes nas fronteiras de Roma para os territórios romanos – as chamadas invasões bárbaras.

A questão importante aqui é que as tendências sistémicas e os ciclos estão muitas vezes interligados de forma causal e tendem a reforçar-se mutuamente. É assim que uma sociedade estável, rica e resiliente se escavaca: as tendências terminam e os ciclos invertem-se e as forças que acrescentavam estabilidade, capital e resiliência quando funcionam juntas são lentamente substituídas por forças que corroem os fundamentos de riqueza e da estabilidade.

Na era atual, oito tendências / ciclos interconectados estão a chegar ao fim da sua execução ou estão a reverter-se:

  1. A distorção feita pelo Banco central/manipulação dos mercados s.
  2. O ciclo de negócio da expansão-contração do crédito-dívida
  3. O ciclo da taxa de juro-curva de rendimentos
  4. O ciclo das mercadorias.
  5. O ciclo do mercado de ações.
  6. A regulação.
  7. A globalização.
  8. A demografia.

Cada uma delas precisaria de um pequeno livro para explicar os tópicos, mesmo que com uma análise parcial, mas vamos resumir cada tendência / ciclo.

Vamos estipular que a tecnologia não é um ciclo ou uma tendência; as suas perturbações nos setores e instituições existentes aceleram-se e desaceleram‑se com o tempo, mas estão inseparavelmente inseridas em todas as tendências e ciclos acima referidos. Dito isto, o aparecimento de alguma nova tecnologia não significa que o ciclo de negócios venha a ser suprimido para sempre; ciclos e tendências são influenciados pelo Human Wetware V1.0, (Human Wetware significa elemento humano numa arquitetura das tecnologias de informação) um sistema operacional desenvolvido entre 100.000 e 160.000 anos atrás e ainda na versão um.

O esgotamento de recursos é outro pano de fundo para estas tendências e ciclos: robôs e drones não restaurarão a água subterrânea esgotada nem trarão de volta a pesca oceânica.

Distorção do Banco Central / Manipulação de Mercados

Com menos US $ 21 milhões de milhões em compras de ativos pelo banco central e milhões de milhões mais em programas de liquidez / crédito, a economia global estará ela a crescer e os mercados globais estariam eles à altura de a vermos de forma bem clara? Nós todos sabemos que a resposta é “não”.

Os bancos centrais criaram uma “recuperação” que parece suficientemente real à superfície, mas quais são as suas bases? As estatísticas truncadas e mercados manipulados – por outras palavras, controlando não apenas a narrativa, mas também a informação disponível para os participantes do mercado. Para alcançar o resultado desejado – aumento dos mercados de ações, rentabilidade de títulos a taxas vizinhas de zero e incentivo à compra de ativos de risco – os bancos centrais distorceram as informações e os mecanismos de mercado.

Os retornos dessa distorção coordenada estão a diminuir. O “burburinho” das injeções iniciais desapareceu e, agora que as autoridades monetárias estão a tentar afastar os mercados das suas drogas, os mercados por si só perderam a capacidade de determinar (revelar) o preço dos ativos, o risco e o próprio capital.

Não admira que a volatilidade esteja a aumentar.

Inundar a economia com milhões de milhões de novos estímulos funcionou às mil maravilhas na fase inicial, mas depois de 9 anos, as consequências não intencionais são metastatizantes.

Aumentar a valorização dos ativos para servir o “efeito riqueza” ampliou a desigualdade entre riqueza e rendimento, criando uma Nova Era Dourada de poucos com muito elevados rendimentos e de muitos sem rendimentos ou quase sem rendimentos. Os benefícios do comportamento dos bancos centrais – taxas de juros próximas de zero, alavancagem e acesso a crédito ilimitado – estão reservados para aqueles poucos no topo da pirâmide da riqueza; muito pouco da riqueza estupenda criada a partir do nada escorre para os 95% de rendimentos mais baixos [a economia dita de Trickle-down].

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O aumento ininterrupto na avaliação de ativos tornou as casas inacessíveis aos que vivem em mercados urbanos / suburbanos desejáveis e expôs os compradores aos riscos de uma inevitável reversão à média, ou seja, um colapso dos preços das bolhas de volta às normas históricas.

O capital não é incentivado a investir em produtividade ou em comunidades a longo prazo; os incentivos são para recompras de ações e apostas especulativas alavancadas de curto prazo, para formas de investimento de má qualidade que esvaziam a economia real produtiva e minam as suas bases e que favorecem uma dinâmica de boom impulsionado pela financeirização da economia.

Grande parte da resistência política que incomoda o status quo pode ser atribuída diretamente às políticas do banco central que exacerbaram as desigualdades e os excessos da Nova Era Dourada. Se os bancos centrais não conseguirem encontrar a vontade de reduzir as suas próprias distorções ao serviço de poucos, a vontade política de muitos fará isso por eles

O Ciclo de Negócio de Expansão e Contratação de Crédito

O ciclo de negócios é uma estrutura básica de qualquer economia baseada em crédito e fluxos de capital que procuram obter os retornos mais altos disponíveis e com o menor risco possível. Na fase de expansão, as famílias e as empresas contraem mais empréstimos para impulsionar a produção e satisfazer a procura até aí constrangida. Os especuladores encontram nisso oportunidades em novas empresas e em novos mercados.

Na fase de contração, todos os inevitáveis excessos do crédito livremente disponível voltam aos valores de partida. Os investimentos marginais em novas produções não se tornam rentáveis e as empresas vão à falência. As famílias mutuárias quando se inicia a contração entram em situação de incumprimento e os especuladores que apostam no momento de pico do valor dos ativos veem o seu capital a evaporar-se como as brumas no Vale da Morte.

Quando demasiado dinheiro está a ser dedicado ao serviço da dívida existente, deixa de haver receita líquida disponível para suportar empréstimos adicionais. Os credores que enfrentam perdas devido a incumprimentos tornam-se mais exigentes nas concessões de empréstimos e o crédito – e, portanto, a economia – contrai-se.

Este ciclo é uma dinâmica essencial do capitalismo. Os bancos centrais tentaram eliminar a fase de contração que atua como o sistema imunológico, eliminando dívidas incobráveis e os mutuários marginais. Isso deixou a economia sobrecarregada com empresas e devedores “zombis” que seriam liquidados se as políticas monetárias não estivessem a apoiar a sua fraca possibilidade de sobrevivência.

Mas até mesmo os bancos centrais mais poderosos não podem forçar as empresas e os indivíduos a quererem mais empréstimos quando não faz mais sentido fazê-lo. E manter bancos, empresas e famílias zombies sob suporte vital para sobreviverem enfraquece o sistema financeiro, acumulando-se o equivalente à madeira morta na floresta. Quando a inevitável conflagração de incumprimentos pegar fogo, muitas das árvores saudáveis também serão consumidas nas chamas.

O ciclo da taxa de juro-curva de rendimentos

Muitos observadores estão confiantes de que as taxas de juros não podem subir devido às forças deflacionárias em jogo. De facto, eles preveem um futuro declínio nas taxas de juro de modo de volta a zero, novamente. Talvez, mas a história sugere que as taxas de juro normalmente movem-se em ciclos longos de aproximadamente duas ou três décadas. A tendência atual de queda nas taxas remonta a 1981, o que significa que a tendência atual é de 40 anos. Isso está a esticar os limites históricos.

Como se observou anteriormente, as tendências mudam e, depois, procuramos as causas. As taxas de juros estão a subir e talvez não precisemos de outra explicação além da reversão à média.

O ciclo das matérias-primas

Em comparação com o mercado de ações (o S & P 500), as matérias-primas estão nos seus mínimos cíclicos. Quanto ao que acontece a seguir, precisamos apenas olhar para um único gráfico, uma cortesia da Incrementum AG.

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O ciclo do mercado de ações

Estamos implicitamente informados de que os mercados de ações poderão estar continuamente a subir, desde que os bancos centrais estejam continuamente a bombear estímulos financeiros. Mas nada pode estar a subir eternamente; as valorizações ficam esticadas, os compradores marginais desaparecem e as dúvidas sobre a contínua eficácia das distorções do banco central infiltram-se.

O típico mercado em alta tem um setor líder. Começando com a Revolução Industrial do mercado de massas no século 19, as empresas líderes tendem a ser novas indústrias: caminhos-de-ferro, rádio, computadores, Internet, etc., ou as indústrias existentes que foram revolucionadas por alguma inovação: por exemplo, os bancos livres de supervisão regulatória descobriram as hipotecas subprime nos anos 2000.

Os atuais líderes – os chamados títulos do grupo FAANG – Facebook, Apple, Amazon, Netflix e Google- estão a ficar desinteressantes. Os líderes tecnológicos alcançaram uma escala em que o crescimento deve reduzir o seu ritmo; a expansão do Facebook de 100 milhões de utilizadores para 1 milhar de milhões, teve um aumento de 10 vezes; a expansão de 1 milhar de milhões para 2 milhares de milhões, significa duas vezes esse aumento. Existirão ainda outros milhares de milhões de utilizadores potenciais em banda larga, dispositivos e interesses para se juntarem? Quanta receita adicional pode ser extraída vendendo os dados de utilizadores cada vez mais marginais?

Os mesmos problemas de escala estão a minar o crescimento da Apple, Google, e outros. O que acontece quando a Apple já vendeu um iPhone a todos os que tinham os meios e o interesse em ter um?

Existe agora um retrocesso político contra os quase monopólios da grande tecnologia. Os políticos estão a ser forçados a “fazer alguma coisa”, ou seja, a aumentar as regulamentações, quer estas cumpram ou não o objetivo pretendido.

As valorizações dos títulos e os lucros estão no topo dos seus respetivos ciclos, os líderes estão hesitantes, vítimas de seu próprio domínio, e os bancos centrais estão a sentir-se pressionados para reduzir o volume de dinheiro a custo zero para os financeiros.

 

Regulação

A democracia já não tem nada a ver com um sistema que tem como função resolver os problemas reais e ser um sistema baseado na responsabilização das pessoas. O sistema democrático passou a ter como função persuadir o público de que tudo está bem ou então de o distrair com controvérsias estéreis. Os titulares são reeleitos porque absorvem enormes contribuições de campanha e em montantes suficientes para comprar influências através dos media de massa e poderem assim ganhar. Eles têm pouco incentivo para responder aos eleitores, e por isso não o fazem.

O que eles podem fazer é parecer que estão a fazer algo de diferente quando o que fazem, de facto, é proteger os cartéis e os financiadores das suas campanhas eleitorais de reeleição permanentes. Assim, eles propõem mais regulações, a maioria das quais não consegue alcançar os resultados desejados, mas conseguem sobrecarregar as empresas legítimas até ao ponto de as levarem à falência. As pequenas empresas simplesmente vergam-se quando os proprietários exaustos já não conseguem suportar mais os custos nem as empresas deslocalizadas, ditas concorrentes offshore, em tudo o que é excessivamente regulamentado

A ideologia neoliberal sustentava que muitos iriam beneficiar se as regulações que limitam as empresas fossem revogadas e, quando feitas de maneira judiciosa e com bom senso, isso funcionaria conforme planeado. Mas, na forma corrupta de governação que domina a economia global, a captura regulatória significa regulamentação que protege os cartéis e os detentores de informação privilegiada da concorrência. Os detentores de informação privilegiada têm manipulado o sistema de tal modo que eles podem punir os concorrentes e deixar os seus comparsas, tal como eles, fora de perigo.

As regulações úteis que protegem os muitos da exploração dos muito poucos estão a ser desmanteladas e substituídas por regulações contraproducentes para “fazer algo” e para  abrir buracos legais que protegem os cartéis e as pessoas por dentro do sistema.

Globalização

O comércio global tem uma longa história, remontando à Idade do Bronze (1500 a.C.). Como qualquer outro mercado, ele expande-se e contrai-se conforme mudam as próprias condições em que este se enquadra. O surgimento da China (e de outras nações) desde meados dos anos 1980 expandiu enormemente o comércio global e os fluxos de capital. Isso levou à distribuição de mais rendimento e mais prosperidade para centenas de milhões de pessoas, e ainda também concentrou grande parte da riqueza adicional nas mãos de poucos e deixou muitos para trás.

Não há nada que esteja sempre a subir nem mesmo a globalização. Aqueles que são deixados para trás pela globalização estão a começar a questionar‑se sobre se os benefícios da globalização ultrapassam ou não os seus custos.

Demografia

Se a África, continente de alto crescimento populacional, for deixada de lado, então a população em idade ativa do mundo está já à beira de uma situação de declínio, enquanto a população de aposentados está em plena expansão, não apenas no mundo desenvolvido, mas também no mundo em desenvolvimento.

Embora muitos depositem as suas esperanças em robôs que geram riqueza ilimitada para apoiar os idosos e libertarem a população em idade ativa do trabalho, a perspetiva mais provável é a de uma economia que não pode cumprir as promessas feitas aos aposentados quando o índice de aposentados era de 10 trabalhadores para 1 reformado e não o índice atual 2 trabalhadores para 1 reformado.

Chris Hamilton escreveu três excelentes análises sobre demografia que cobrem as questões básicas: (N.T. excertos destes três textos são apresentados na 2ª parte)

  • Os mais importantes gráficos económicos ….não são sobre economia
  • A florescente classe média chinesa está ela a rebentar pelas costuras?
  • O indicador último sugere que os Estados Unidos nunca recuperaram verdadeiramente da Grande Crise Financeira de 2008

A linha de fundo é a de que tendência de expansão rápida da força de trabalho e de um número modesto de aposentados dependentes se inverteu.

Para enfatizar este ponto, pense nesta desanimadora projeção: nos EUA, pela primeira vez, os aposentados superarão as crianças dentro de apenas 20 anos.

 

(continua)

Texto original em https://www.peakprosperity.com/blog/113900/turning-point

Republicado por Zero Hedge https://www.zerohedge.com/news/2018-04-07/turning-point

 

Charles Hugh Smith: proprietário do popular blog Of Two Minds é também editor voluntário em PeakProsperity.com. É autor de numerosos livros, nomeadamente Why Everything Is Falling Apart: An Unconventional Guide To Investing In Troubled Times.

 

 

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