TEXTOS DE FILOSOFIA DEDICADOS À MINHA NETA ALÍCIA – selecção e tradução de JÚLIO MARQUES MOTA – TEXTO 3. QUATRO FRUTOS DA FILOSOFIA, de RACHEL ANNE WILLIAMS

Rachel Anne Williams, Four fruits of Philosophy

Medium.com, 12 de Abril de 2018

 

Alguns cientistas de elevado renome dizem-nos que a filosofia é inútil – apresentamos aqui quatro razões pelas quais a filosofia ainda é importante

source: wikicommons

Está a filosofia “morta” na Idade da Ciência?

 

Grandes divulgadores da ciência como Neil deGrasse Tyson são conhecidos por fazer comentários depreciativos sobre a filosofia e a sua relevância no século XXI. Este cientista afirmou:

“Sim, se o leitor está distraído pelas suas próprias questões e de tal modo que não pode seguir em frente, então não está a contribuir produtivamente para a nossa compreensão do mundo natural.”

Isto é filosofia, em poucas palavras, para muitas pessoas: “ficar distraído por causa de perguntas estúpidas”. Quem precisa disso?

Em certo sentido, eu simpatizo com essa atitude. Na verdade, recentemente partilhei um artigo no sítio Medium sobre porque é que penso que a filosofia académica está em plena bancarrota.

Embora eu partilhe a opinião de Wittgenstein de que a maioria das pesquisas filosóficas académicas não passam de um absurdo, no entanto, considero que dar aulas de filosofia é uma função cívica importante e a filosofia em si é simplesmente uma parte do que significa ser um ser humano, do que significa ter grandes cérebros com muitos pensamentos que precisam de serem organizados e confrontados com uma realidade que requer compreensão.

No entanto, embora eu esteja feliz por ter deixado a filosofia académica para prosseguir a minha carreira de escritora, ainda fico um pouco na defensivo quando as pessoas que não sabem do que estão a falar começam a falar de filosofia e porque é que esta é estúpida.

Mas sabe o leitor o que não é estúpido? Descobrir se o Presidente dos Estados Unidos acabou de fazer uma falácia lógica:

Trump Tweets explicados como falácias lógicas

Fazer com que os nossos políticos e os meios de comunicação responsáveis passem a raciocinar e a pensar bem é um dos deveres cívicos mais importantes dos pensadores que têm uma mentalidade filosófica.

Alguns políticos questionaram se ainda é necessário financiar publicamente o trabalho de filósofos nos liceus e nas faculdades. Será que nós realmente precisamos de estar a pagar dinheiro a essas pessoas para serem filósofos de  profissão? Há departamentos inteiros de filosofia a serem eliminados.

Frequentemente os críticos da filosofia fazem comparações com a “produtividade” da filosofia versus a ciência para argumentarem que a ciência é a mais importante das duas atividades e que devemos colocar 100% da nossa energia como sociedade a fazer mais ciência e menos filosofia.

Eles apontam que a filosofia nunca chegou perto de fazer algo de espetacular como colocar um homem na lua ou construir a internet

Então, o que é que a filosofia fez?

Isso é mais difícil de responder, pois os frutos da filosofia não são facilmente observados – eles não podem ser facilmente medidos da mesma maneira que as realizações da engenharia ou as drogas da farmacologia. Mas se o leitor olhar com cuidado, poderá ver o efeito da filosofia (ou a falta de filosofia) em todos os lugares.

Eu acredito que há pelo menos quatro frutos principais da filosofia:

  1. frutos do pensamento crítico

  2. crítica científica

  3. raciocínio ético

  4. sabedoria

Frutos do pensamento crítico

source: pixabay

Uma das principais funções do filósofo profissional é ensinar filosofia, pensamento crítico, lógica e outras matérias em que o objetivo é apenas fazer do leitor um melhor pensador. Isto também é verdade para as classes de nível superior como, por exemplo, a filosofia da ciência.

Para muitas pessoas, essas aulas são a sua primeira introdução ao processo de aplicação sistemática da razão ao mundo à sua volta, além de se familiarizarem com o mundo das ideias familiares aos filósofos – um mundo que tem sido incrivelmente influente em culturas de todo o mundo desde há milénios.

Quero realçar que a educação filosófica não acontece apenas  na sala de aula. Também acontece on-line através do youtube, de blogs ou onde quer que os filósofos se possam articular com as pessoas.

Um bom raciocínio é extremamente necessário na nossa sociedade democrática – precisamente fazer com que mais pessoas sejam capazes de aplicar a razão a anúncios políticos na TV ou aos artigos de tipo isca que se vêem no Facebook é uma coisa tremendamente importante.

Na era das “notícias falsas” e dos robôs russos no Twitter a disseminarem propaganda – as ferramentas da filosofia são fundamentais para classificar boas e más fontes de informação.

Na minha opinião, a reputação da filosofia como “inútil” deriva de sua tendência a generalizar a situação. É uma profissão generalista.

Assim, os filósofos são tipicamente muito bons em aplicar a análise crítica a qualquer tipo de informação porque eles reconhecem certos padrões argumentativos e sabem como é que os humanos tendem a fazer inferências. Conhecer os padrões coloca as pessoas de mentalidade filosófica na defensiva contra as inferências de má qualidade feitas por toda a gente e muito frequentemente.

É uma batalha sem fim contra generalizações apressadas, ad hominems, dogmatismo, argumentos de autoridade, pensamento desleixado, ambiguidade, imprecisão, etc., etc. Se o leitor começar a ter consciência dessas falácias lógicas, vê-las-á constantemente nos media.

Essa batalha contra o pensamento pobre é o principal dever daqueles que se consideram filósofos. Ensinar aos alunos que esse estilo de pensamento serve como um mecanismo de proteção para uma sociedade democrática.

Mas eu acho que esse tipo de ensino filosófico pode ser feito na internet, de graça, em linguagem simples, através dos poderes das media sociais – especialmente em plataformas excelentes como a Medium e noutros lugares.

Quero realçar, no entanto, a importância de corrigir o pensamento deficiente quando não se é nenhum idiota. Caminhando à volta de uma festa apontando falácias lógicas provavelmente não vai ganhar concursos de popularidade. Existe um certo tato que é necessário. Tem que acontecer no contexto certo. E não se trata de provar que somos pensadores racionais superiores.

Além disso, precisamos de aplicar uma lente interseccional e pensar sobre a incapacidade: nem todos têm as mesmas capacidades cognitivas e devemos ser sensíveis a fatores como deficiência, raça ou status socioeconômico antes de criticar alguém por expor “pensamentos de má qualidade”. .

Frutos da crítica científica

source: pixabay

 

A Filosofia já foi considerada a Rainha das Ciências. Serviu como base epistemológica para assegurar logicamente as inferências da ciência.

Ela ainda desempenha esse papel – mesmo se em forma de pano de fundo e difícil de ser visto. Como muito bem disse Daniel Dennett, não há ciência livre de filosofia, apenas ciência que não tenha analisado a sua bagagem filosófica. Mas toda a ciência tem a sua bagagem e suposições ocultas sobre como a realidade deve funcionar.

Por exemplo, tome a ciência da termometria, ou seja, de medir o calor.

Imagine que não havia  termómetros na sua sociedade e o leitor decidiu então fazer um. Constrói um termómetro de mercúrio e este parece funcionar. Mas como é que o leitor sabe que está a medir essa coisa, o “calor”, com precisão?

O seu vizinho também está interessado na termometria e construiu um termómetro de gás porque ele acha que, com base na sua teoria de gases, um termómetro a gás seria melhor que um termómetro de mercúrio.

O leitor testa os dois termómetros e eles dão leituras ligeiramente diferentes. Qual deles está correto? O leitor precisaria de um terceiro termómetro para comparar.

Do que o leitor precisa nesta altura é de ter algum consenso teórico sobre como é que o calor funciona para assim saber qual o tipo de termómetro mais adequado para medir o “calor”, uma vez que ainda não tem certeza de como funciona porque ainda não terá ainda construído um termómetro seguramente válido.

Como se pode ver, as justificações epistemológicas para medir o “calor” andam em círculo. Como os inventores originais da termometria resolveram este problema? Eles preocuparam-se imensamente com isso, mas acabaram simplesmente por colocar de lado o problema porque eles primeiro que tudo eram experimentalistas e tinham pela frente uma experiência piloto.

Eles não precisavam da teoria porque estavam a obter muitos dados excelentes. Séculos mais tarde, já não foi assim, quando os avanços da física teórica abriram o caminho para a compreensão moderna do calor. Mas a ciência da termometria ainda progrediu através da elevada competência desses experimentalistas.

Hasok Chang escreveu um livro maravilhoso chamado “Inventing Temperature”, sobre a ciência da termometria e a história dos cientistas que constroem termómetros.

Mas Chang faz mais do que apenas nos dar a história – ele analisa as questões epistemológicas envolvidas na natureza da explicação científica e a natureza desse tipo particular de circularidade científica, a que chama “problema da medição nómica”:

  1. Queremos medir a quantidade X.

  2. A quantidade X não é diretamente observável, então inferimo-la a partir de uma outra quantidade Y, que é diretamente observável.

  3. Para essa inferência, precisamos de uma lei que expresse X como uma função de Y, como se segue: X = f (Y).

  4. A forma desta função não pode ser descoberta ou testada empiricamente, porque isso envolveria conhecer os valores de Y e X, e X é a variável desconhecida que estamos a tentar medir.

A maioria das pessoas acha que os fundamentos epistemológicos da termometria estão em terrenos muito sólidos. Mas as coisas são muito mais complicadas em termos do número de etapas inferenciais necessárias para concluir qualquer coisa sobre o “calor” utilizando um dispositivo de medição.

Mas o leitor pode imaginar os perigos epistemológicos que se escondem nas ciências “mais suaves” como a psicologia, estudando coisas como “memória” e “consciência”? Os filósofos estão em pleno desenvolvimento agora com as ciências humanas mais suaves, porque há um raciocínio de má qualidade e hipóteses ocultas em todos os lugares para onde se olhar.

A filosofia serve bem às ciências, fornecendo-lhes uma análise crítica dos pressupostos filosóficos ocultos e que estão implícitos em toda a investigação científica.

O que não quer dizer que os filósofos profissionais precisem de ser empregados por laboratórios para que a ciência progrida. Não é simplesmente por acaso que os mais conhecidos cientistas da sua época têm um profundo interesse  pelas mais profundas questões filosóficas.

Frutos do raciocínio ético

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Um dos frutos mais importantes da investigação filosófica é a descoberta da distinção entre factos e valores. A ciência pode-nos dizer o que é  o facto  mas não nos pode dizer nunca o que é que deveria ser o facto.

O simples facto de termos uma perceção mais aguda de que os fatos por si mesmos não nos indicam o que devemos fazer dá-nos uma apreciação saudável da dificuldade de fazer ética, de pensar sobre como devemos viver as nossas vidas quando confrontados com escolhas difíceis e com dilemas éticos.

Se o leitor acha que a filosofia não é relevante para os problemas do século 21, não está seguramente a acompanhar o debate atual que está a decorrer nos Estados Unidos sobre o aborto.

O debate sobre o aborto é fundamentalmente um debate sobre como definir a condição de pessoa, que é uma questão com a qual os filósofos se debatem desde há milhares de anos.

Há uma razão para que a maioria dos hospitais empregue filósofos experimentados em lidar com situações clínicas: a vida real geralmente envolve questões éticas complexas que envolvem o vida e morte. Será que desligamos este nosso ente querido do seu tubo de alimentação?

Nem sempre é óbvio o que os médicos ou cuidadores “devem” fazer em situações como essas. Estar preparado para fazer distinções realmente cuidadosas pode ajudar a separar os valores em jogo e permitir que as pessoas tomem decisões críticas sobre a saúde de uma maneira mais razoável e ética, de acordo com as suas mais profundas convicções.

Os mesmos princípios do cuidadoso raciocínio ético aplicam-se a todas as outras áreas da vida, desde o que comemos e como cultivamos os nossos alimentos, como gastamos o nosso dinheiro, em quem votamos, como é que nos preocupamos e ocupamos com as pessoas necessitadas, etc.

Os seres humanos são criaturas éticas e a filosofia é muito apta em ensinar-lhe as complexidades da nossa vida normativa, a vida da ética e da moral que torna a sociedade humana tão complicada. O que não quer dizer que a filosofia lhe dará respostas. Mas certamente trará mais consciência para a dimensão moral e normativa da vida humana.

Frutos da sabedoria

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A filosofia é, naturalmente, uma disciplina que tem raízes na tradição da sabedoria: a longa cadeia de seres humanos que quiseram não apenas aprender a falar sobre a Boa Vida, mas realmente aprender a vivê-la.

É disso que trata a sabedoria: saber como viver uma vida boa. Saber o que é valioso na vida e o que não é. Tão frequentemente o leitor ouve as pessoas nos seus leitos de morte lamentar que trabalharam muito duro nas suas carreiras e que tiveram uma ideia distorcida das coisas importantes da vida.

Para a maioria das pessoas, as coisas importantes na vida normalmente giram em torno de desenvolver boas relações, ser autêntico consigo próprio, encontrar uma paixão ou interesse que as consuma, que as preencha, desfrutar da família, de amigos, e amantes, sem se preocupar tanto com dinheiro, envelhecimento, etc.

Conclusão

A filosofia está bem longe de estar morta e na verdade não pode  morrer porque as crianças são excelentes filósofos.

Rachel Anne Williams, sitio Medium, Four Fruits of Philosophy-Some high-profile scientists say philosophy is useless — here are four reasons why philosophy is still important.

Texto disponível em: https://medium.com/@transphilosophr/four-fruits-of-philosophy-why-philosophy-still-matters-in-the-age-of-science-8ac40897bb6f

 

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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