A POLÍTICA DA HIPOCRISIA: O STATUS QUO É O PROBLEMA, MAS NÃO SE LHE PODE TOCAR , por CHARLES HUGH SMITH

Selecção, tradução e montagem de Júlio Marques Mota

A política da hipocrisia: o status quo é o problema, mas não se lhe pode tocar

 

Charles Hugh Smith, The Politics of Pretense: The Status Quo Is the Problem + How Systems Collapse

Blogue Of Two Minds, 8 e 29 de Maio

[Nota: O texto que se segue, trata-se de uma junção de dois textos de Charles Hugh Smith, “The Politics of Pretense: The Status Quo Is the Problem, But It Can’t Be Touched” e ” How Systems Collapse”]

 

Em última análise, todas as condenadas elites governamentais enfrentam o mesmo problema: não há dinheiro suficiente para financiar o seu assalto ao poder e para alimentar a vasta maquinaria do poder.

A política dos EUA resume-se a uma hipocrisia continuada ao longo do tempo: os políticos ganham votos prometendo corrigir os problemas que são o resultado direto do nosso status quo sobredimensionado, corrupto e insustentável, mas financiam as suas campanhas prometendo aos detentores de poder e de informação privilegiada, e às interesseiras elites que eles não vão tocar no seu status, no seu dinheiro fácil, no seu poder e nos seus privilégios.

Esta é, naturalmente, a política do colapso: ao proteger as elites entrincheirados no seu status quo no topo da pirâmide de poder e da riqueza, incluindo a classe política em si mesma, a classe política está a condenar o status quo a uma implosão sistémica.

A classe política é serva de um status quo que faz tudo o que o seu extraordinário poder lhe permite para impedir qualquer mudança que ameace a pilhagem feita pelos privilegiados no sistema. Com efeito, a classe política está a fazer aquilo para que é paga (através de dezenas de milhões de dólares em contribuições de campanha) para fazer: proteger o status quo por todos os meios possíveis e disponíveis.

Ao longo da história, o existente status quo autodestrói-se ao recusar adaptar-se às circunstâncias em contínua mudança. O mundo real não é estático, mas aqueles que estão no poder estão tão completamente encharcados na arrogância e nas ilusões de poder que não se concentram nas dificuldades da mudança mas sim em maximizar e proteger o seu autoengrandecimento.

Em última análise, todas as condenadas elites governamentais enfrentam o mesmo problema: não há dinheiro suficiente para financiar o seu assalto ao poder e para alimentar a vasta maquinaria do poder. A sua solução é sempre a mesma: ao invés de fazer sacrifícios dolorosos para reduzir as suas gorduras, eles passam a “imprimir dinheiro ” por um meio ou por outro: reduzir o teor da prata na cunhagem, a emissão de papel-moeda, a emissão como “estímulo ” através de bancos centrais, e assim por diante.

Este mecanismo egoísta esvazia e corrompe a economia que, consequentemente, se torna cada vez mais frágil. A resiliência do sistema (os seus mecanismos de proteção e de capacidade de resposta rápida e eficaz às crises) tem sido corroída e reduzida a quase nada, e uma crise ou outra que teria sido completamente tratada no passado faz cair de podre todo o edifício.

Eis pois o sistema bipartidário reduzido à sua essência:

 

A elite do poder fala a uma voz através de duas bocas: uma, o poder estabelecido Democrata, a outra, o poder estabelecido Republicano

Eis-nos pois perante a nossa “classe de dirigentes”, em que se mostra a sua interesseira “capacidade de liderança “:

Como diz o provérbio siga o dinheiro:

 

Capitalismo clientelista e filantrópico é a forma preferida de manifestação de hipocrisia pelas interesseiras elites: as coisas podem ir ao fundo quando a pilhagem atinge os extremos.

 

Portanto, tenha isto em mente ao votar nas eleições deste ano: ao leitor vai-lhe ser prometido a “mudança “, mas a mudança real é impossível, porque a verdadeira prioridade é preservar um status quo sobredimensionado, corrupto e insustentável por todos os meios disponíveis.

Ao leitor ser-lhe-á dito o que quer ouvir: os problemas serão todos corrigidos dentro do status quo existente. Mas o status quo existente é a fonte dos problemas. A hipocrisia alimenta a ilusão que garante o colapso.

Como um lembrete de como os sistemas se tornam frágeis e entram em colapso, veja-se o esquema abaixo:
É assim que os sistemas se desmoronam: a fé na superfície visível da abundância reina de forma suprema, e a fragilidade dos mecanismos de proteção passa desapercebida.

Eu costumo discutir sistemas e colapso sistémico, e desenhei o pequeno diagrama acima para ilustrar uma dinâmica chave no colapso sistémico. Os conceitos-chave são aqui a estabilidade e os mecanismos de proteção, entre os quais estão os estabilizadores automáticos. Embora os sistemas complexos nunca sejam estáticos, eles podem ser estáveis: ou seja, eles podem oscilar dentro de limites relativamente estáveis suportados por reservas, ou seja, por mecanismos de proteção (buffers).

Nos ecossistemas, este fluxo e refluxo, este vai e vem dentro de dados limites, é expresso em termos de reações e contrarreações entre o clima, o meio ambiente e as espécies vegetais/animais que habitam o ecossistema. As condições meteorológicas/alimentares ideais podem desencadear um aumento da população de insetos, por exemplo, o que permite um aumento das populações de predadores de insetos (peixes, aves, rãs, etc.), o que faz aumentar o consumo dos insetos e reduz o impacto da maior população de insetos.

Flutuações dentro desta dinâmica geram efeitos de reação e contrarreação que tendem a reduzir os valores extremos e restaurar o equilíbrio dinâmico.

Na esfera humana, o tempo ideal aumenta os rendimentos das colheitas o que permite então uma maior população humana. Quando os anos magros substituem os anos gordos, a população sofre de uma falta de calorias, os nascimentos declinam e as mortes aumentam devido a que há mais doentes enfraquecidos e que são mais vulneráveis às infeções, etc.

Neste exemplo, as reservas de abastecimento de água e de alimentos são mecanismos tampão que suavizam os períodos de necessidade e de instabilidade. Suponha que a população depende de um rio para a irrigação e para o consumo humano (cozinhar, banhar-se, etc.). Se o rio tiver o nível da água baixo, a população depende de poços para reserva de água. Em anos de boas colheitas, os cereais são guardados para proteção de anos de colheitas magras; os poços e os silos de cereais são amortecedores que podem ser relativamente esvaziados para restaurar a estabilidade num sistema em dificuldade.

Todos nós vemos o sistema pela superfície, mas poucos vêem os mecanismos tampões. A relativa abundância dos cereais é visível para todos, mas a qualidade e a quantidade dos cereais armazenada (o amortecedor) são somente visíveis àqueles que os vêem nas lojas.

A população é facilmente embalada numa sensação de falsa segurança por uma superfície com ares de abundância. Se os roedores comeram muito do cereal armazenado, e o resto se estragar, poucos o vêem. Quando o rio está a fluir, poucos verificam a quantidade e a qualidade da água nos poços (o tampão, o amortecedor).

Os mecanismos de amortecimento ou proteção são em grande parte invisíveis e de pouco interesse comum em tempos de abundância. Quando a água e os cereais estão disponíveis em abundância quem é que se importa se o cereal dos silos se estragou e se a água do poço sabe mal?

Um sistema com fracos mecanismos de proteção pode parecer robusto à superfície mas, neste caso, é altamente vulnerável ao colapso. No nosso exemplo, num primeiro ano de fraca colheita e de baixo nível de água no rio, drenam-se completamente as reservas, e num segundo ano de seca desencadeia-se um colapso do sistema: para sobreviver, a população tem de abandonar o local.

No nosso sistema socioeconómico complexo, os amortecedores são em grande parte invisíveis. Como regra geral, o “Papel-moeda ” é o nosso mecanismo de proteção para todos os fins: se algo se torna raro e ameaça o sistema, nós imprimimos/contraímos empréstimos, criamos mais “dinheiro” que é distribuído para se comprar o que for necessário.

Mas o “Papel-moeda” é um mecanismo de proteção ilusório. Se o poço estiver seco, nenhuma quantidade de dinheiro irá restaurar a água subterrânea. Se a pesca cair a pique devido à pesca excessiva feita anteriormente nenhuma quantidade de “Papel-moeda” emitida pelo Banco Central irá restaurar a pesca. Por outras palavras, o mundo natural fornece limites rígidos que o dinheiro só pode corrigir se os mecanismos de proteção estiverem disponíveis para compra.

O “Papel-moeda ” é em si um sistema, um sistema com mecanismos de proteção financeiros, proteções estas que foram consumidas pelos excessos especulativos do setor privado e da repressão financeira dos bancos centrais. Esses mecanismos são em grande parte invisíveis; poucos sabem o que se passa nos mercados globais quanto à liquidez, por exemplo. No entanto, quando a liquidez escasseia, por qualquer motivo, os mercados ficam disfuncionais e os preços dos ativos entram em queda livre.

Inundando o sistema financeiro com “dinheiro livre ” só restaura a ilusão de estabilidade. Como se observa no meu diagrama, restaurar e manter uma estabilidade aparente dilui os amortecedores ao ponto da fragilidade se tornar altamente perigosa.

Quando os mecanismos de proteção são de papel fino, uma crise que teria sido ultrapassada com facilidade no passado dispara o colapso de todo o sistema. Quem quer que tenha baseado a sua fé no sistema a partir do que via à superfície fica então atordoado pela rapidez do colapso, questionando-se como é que poderia um sistema tão vasto e tão aparentemente robusto implodir quase que sem nenhum sinal de alarme?

Os mecanismos de proteção do sistema financeiro têm diminuído desde há 10 longos anos, mas ninguém parece notá-lo ou até importar-se com isso. A qualidade do risco, da dívida, dos mutuários e das apostas especulativas diminuiu, mas a fé em que o “FED resolve “- que o Federal Reserve pode corrigir qualquer coisa e tudo com a impressão de “Moeda “- é quase-uma fé de tipo religioso: poucos duvidam do poder ilimitado da “Moeda” do FED – máquinas de impressão para ultrapassar rapidamente qualquer crise.

É assim que os sistemas se desmoronam: a fé na superfície visível da abundância reina de forma suprema, e a fragilidade dos amortecedores passa despercebida.

Textos disponíveis em

The Politics of Pretense: The Status Quo Is the Problem, But It Can’t Be Touched, disponível em https://www.oftwominds.com/blogjun18/politics-pretense6-18.html

e

How Systems Collapse– disponível em  https://www.oftwominds.com/blogmay18/system-collapse5-18.html

 

Nota: um dos livros do autor:

Leia o artigo de Júlio Marques Mota, REFLEXÕES SOBRE PORTUGAL A PARTIR DO CASO DA MINHA NETA, publicado ontem em A Viagem dos Argonautas, que se apoia neste texto de Charles Hugh Smith clicando em:

https://aviagemdosargonautas.net/2018/06/15/reflexoes-sobre-portugal-a-partir-do-caso-da-minha-neta-por-julio-marques-mota/

 

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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