JOSÉ DO CARMO FRANCISCO: A POESIA DOS AFECTOS – por MANUEL SIMÕES

 

A poesia de José do Carmo Francisco foi sempre uma “poesia de afectos”. Já desde Iniciais, seu livro de estreia e Prémio Revelação APE (1981), a matéria objecto de poesia dizia respeito a figuras com as quais o autor tinha uma relação de empatia ideológica ou emocional. Esta perspectiva estendeu-se a livros como Universário (1983) ou a Transporte Sentimental (1987), este com a sombra irremediável de Cesário Verde, com quem a partir daí, José do Carmo Francisco passou a ser identificado, aproximação crítica de algum modo redutora mas que traduz a frequência concedida pelos dois poetas à contraposição cidade (tecido urbano)/ campo (universo rural).

José do Carmo Francisco viria a publicar outros textos poéticos, dos quais destaco As Emboscadas do Esquecimento (2000) e De súbito (2001), para além da coordenação de antologias sobre o “Trabalho” e o “Desporto”, e de inumeráveis plaquetes nas quais se recupera o gosto pelos “folhetos de cordel”, que, como se sabe, não deve a terminologia à qualidade textual mas ao modo como eram difundidos, precisamente pendurados num cordel.

É neste contexto que se publica agora As casas de blackheath park e outros poemas (2018), conjunto de doze textos que poderiam considerar-se como os “poemas ingleses” do autor, na medida em que traduzem uma incursão a um bairro/parque na periferia de Londres, onde experienciou um convívio de âmbito familiar muito próximo mas com as diferenças culturais inevitáveis. Vejamos este “Retrato breve de Lucas…”: «Meu neto Lucas atravessa o Paragon / Entre patos no lago e papagaios de papel / Entre o trânsito intenso e o planetário. […] Lucas não conhece ainda as biografias / de Charles Gounod e John Stuart Mill / E passa muita vez à porta das casas»; ou as variações sobre o “Corvo”, de antecedentes ilustres (Edgar A. Poe, por exemplo) mas aqui no concreto de Papillons Walk «Nada sabemos deste corvo capaz de viver / Dentro do tempo de duas guerras mundiais. / Em 1914 terá fugido ali para Greenwich / Matando a fome na cantina da Academia. / Em 1939 escondeu-se no Rio Quaggy / Onde não chegavam as bombas alemãs».

Livro intimista só pelos temas, e que, além do mais, tem o mérito de integrar o leitor no olhar de grande curiosidade intelectual expressa entre as linhas do discurso.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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