Da crise atual à próxima crise, sinais de alarme – Pristina: um aeroporto que está demasiado longe. Por John Bull

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Pristina: um aeroporto que está demasiado longe

Por John Bull

Publicado por Medium, em 13 de abril de 2018

Em 1999, um incidente no aeroporto de Pristina no Kosovo quase colocou a NATO em conflito aberto com a Rússia. Esta é a história de como Michael Jackson (não esse) e James Blunt (esse) ajudaram a evitar a guerra.

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Na sexta-feira 11 de junho de 1999, numa fábrica de calçado fechada na periferia de Skopje, Macedónia, dois comandantes da NATO sentaram-se para a sua reunião regular da manhã.

A antiga fábrica de sapatos era a sede da KFOR, o exército da NATO que estava a ser montado para agir como os pacificadores no Kosovo. Ao tenente-general britânico Michael “Mike” Jackson, comandante da KFOR, tinha sido oferecido o Hotel Intercontinental de Skopje pelos seus anfitriões, mas tinha recusado a oferta. A fábrica de sapatos poderia ser menos confortável, mas tinha muito espaço para o seu pessoal. O sentido prático era mais importante que o luxo.

O outro homem estava normalmente estacionado em Nápoles, por isso esta foi uma sua rara visita à fábrica de sapatos. O Almirante Jim Ellis da Marinha dos EUA era comandante-em-chefe de todas as forças aliadas no sul da Europa — um papel fundamental durante a campanha do Kosovo. Os dois homens também se tornaram bons amigos. Hoje eles iriam começar a ter o seu briefing da manhã em pessoa, ao invés de o fazerem por videoconferência.

Muito nesse briefing dizia respeito às discussões entre a Sérvia e a NATO sobre os termos em que a KFOR entraria no Kosovo. Estas tinham sido tortuosas, mas um acordo provisório tinha sido assinado. Os homens do General Jackson começariam a cruzar a fronteira no dia seguinte.

Por volta das 10:35, os dois homens ligaram uma das TVs na sala de operações e sintonizaram a CNN para ver como a imprensa estava a relatar essa operação. O que eles viram e ouviram deixou-os espantados. No ecrã da CNN viam-se imagens de uma coluna de cerca de 250 tropas e veículos que avançavam para fora da Bósnia, com a palavra KFOR pintada à pressa. A voz em off explicou solicitamente que este era o contingente russo da KFOR, que as suas fontes disseram que se dirigia para a capital do Kosovo, Pristina.

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As forças russas a caminho de Pristina

 

Isso foi uma novidade para Ellis e Jackson, porque a KFOR não tinha um contingente russo.

“Era justo dizer que a maneira da sua chegada mostrava era improvisada”, comentou Jackson mais tarde.

Antes que os dois homens pudessem digerir isto adequadamente, o telefone principal na sala de operações começou a tocar. Simultaneamente, os homens perceberam que isso provavelmente significava que a única pessoa que eles não desejariam que visse esta filmagem quase que certamente já o tinha feito.

Quando ouviram a voz do outro lado do telefone, isto foi confirmou-se.

“General Jackson.” Disse Wes Clark, General dos EUA e Comandante Supremo Aliado da NATO na Europa (SACEUR). “O senhor vai garantir o aeroporto de Pristina antes que os russos cheguem lá.”

“Prisioneiro de uma mentalidade da guerra fria”

“Uma vez que se decidiu usar a força,” disse Clark a uma equipa de documentaristas da BBC após a guerra, “deve então usá-la o mais rapidamente possível e tão decisivamente quanto possível.”

Era uma máxima que o General de quatro estrelas, que tinha sido condecorado por bravura no Vietname, gostava. Jackson e Ellis já o tinham testemunhado em primeira mão. A KFOR era uma força multinacional com uma variedade de diferentes estilos e culturas militares. Como resultado, esta força precisava de ser tratada com sensibilidade. Durante uma videoconferência com os seus comandantes máximos, no entanto, Clarke decidiu comportar-se com um pouco de bravata, ao estilo de Patton.

“Estamos a ir para a guerra total” disse ele. “Se houver uma batalha esta será difícil. Muito dura. Colina a colina. De casa a casa. Rua a rua. Serão baionetas e combates próximos da guerra de guerrilha. Os soldados da NATO devem reaprender o espírito da baioneta! “

Houve um silêncio constrangedor. Sentindo que ele não estava a receber a reação que queria, Clark calou-se ele próprio.

“O senhor entende o que é o espírito da baioneta?!” foi o que ele perguntou ao general responsável pelo contingente alemão.

“Sim… SACEUR? ” O homem respondeu, hesitante e com ligeira perplexidade.

Clark parecia particularmente propenso a reações fortes sempre que os russos estavam envolvidos. Tanto o General como o Almirante testemunharam isso quando Clark foi rapidamente convencido de que os russos estavam a tentar movimentar a sua frota do mar Negro para o Mediterrâneo para impedir as operações da NATO. Clark exigiu que Ellis fizesse algo a esse respeito, sugerindo que este apoiasse a Turquia e os forçasse a recusar a permissão dos navios de guerra russos poderem cruzar o Bósforo.

“SACEUR, eu não posso fazer isso.” explicou pacientemente o Almirante. Ele sublinhou que iria quebrar a Convenção de Montreux, algo que, mesmo na WW2 nenhuma nação tinha estado preparada para o fazer.

“Estou sempre relutante em ir ad hominem”, disse o General Jackson mais tarde, “mas acho que, em alguns bairros, ainda havia uma sensação de que a guerra fria estava em curso. Que os russos não eram os russos de 1999, mas sim os soviéticos de 1979. Isso sustentava a abordagem tomada”.

“Um engenheiro sérvio bolchevique…”

A ordem de Clark deixou Jackson inquieto, e ele podia dizer pela linguagem corporal de Ellis que o Almirante sentia o mesmo.

O general britânico sabia que a única maneira de chegar a Pristina a tempo seria quebrar a trégua que tinham acabado de assinar com os sérvios. Na Grã-Bretanha, França e América, os políticos alegavam que a campanha aérea tinha sido um enorme sucesso e que o exército sérvio estava quebrado em termos de material e moral. Jackson sabia que isso não era verdade. O exército sérvio sobreviveu à campanha aérea quase totalmente intacto. Isso, e o facto de que eles estavam a deixar o Kosovo nos seus próprios termos, estava a ser visto como uma vitória, qualquer que fosse o ponto de vista. O exército sérvio não foi batido e a sua moral estava alta. Não reagiriam favoravelmente a um avanço de surpresa da KFOR.

Jackson ponderou as suas opções. A única maneira de derrotar os russos em Pristina era usar uma pequena unidade de forças especiais norueguesas, a Forsvarets Spesialkommando, que se havia infiltrado na fronteira no dia anterior, ou usar um dos trunfos que tinha na KFOR — a 5 ª Brigada aérea do Reino Unido, composta principalmente pelo Primeiro de Paraquedistas, o seu antigo comando.

A força norueguesa era demasiado pequena, daí que Jackson e Ellis tenham começado a avaliar quais seriam as consequências de um ataque ser contestado. Jackson estava confiante de que o 1º dos Paraquedistas podia aguentar o aeroporto, especialmente depois do comandante do contingente francês ter concordado em contribuir com uma brigada aérea. Sem apoio, no entanto, os sérvios acabariam por dominar aquela praia aérea.

Isto significava que o resto das forças da KFOR na Macedónia teria de forçar as defesas sérvias na fronteira e avançar para Pristina o mais rapidamente possível. Como os serviços de informação noruegueses tinham revelado, isso, no entanto, estava longe de ser fácil.

“As pontes e os túneis na estrada através do estreito desfiladeiro de Kacinic no Kosovo estavam a ser preparados para explodirem ” escreveu Jackson mais tarde. “Se qualquer um deles tivesse explodido nós teríamos ficado em sérias dificuldades.”

“Bastaria um só engenheiro sérvio bolchevique e teríamos perdido a nossa rota por terra por um bom intervalo de tempo. Assim, mesmo que não tivéssemos que lutar para avançar, poderia levar dias ou até semanas até que pudéssemos aliviar os nossos soldados em Pristina por terra. “

Tudo isso também assumiu que os russos não iriam tentar forçar o aeroporto à chegada, ou que o inevitável impasse não acabaria por uma situação de grande violência. Os paras teriam ordens para manter a sua posição de fogo e com ordem de ripostar. Em ambos os casos, um banho de sangue-e talvez até mesmo uma guerra- poderia ser o resultado final.

Uma viagem a Skopje

Apesar das suas reservas, Jackson começou a fazer planos para a operação em marcha. Agora eram 11:45. Os serviços de informações sugeriram que os russos não chegariam a Pristina até às 15:00, daí que Jackson e Ellis foram rapidamente para o aeroporto de Skopje onde sabiam que — por sorte — a Secretária de Estado dos EUA Madeleine Albright estava prestes a passar.

Ellis encurralou Albright no salão VIP do aeroporto e os dois homens tentaram pressioná-la sobre a gravidade da situação. Ela concordou em telefonar ao Ministro russo dos negócios estrangeiros, Igor Ivanov, para uma explicação. Ivanov negou que houvesse algo de incomum no movimento russo. Os dois homens ficaram frustrados, Ellis parte Nápoles e Jackson volta ao QG.

Jackson chegou à fábrica de sapatos por volta das 13:00. Aí aguardavam-no más notícias — o centro aéreo de operações combinadas da NATO em Itália recusava-se a fornecer qualquer cobertura aérea sem uma ordem direta do Almirante Ellis.

Esta crise foi evitada, mas depois as notícias passaram a ser ainda piores: uma agência de notícias russa informou que seis meios de transporte militar tinham descolado de Moscovo carregando mil soldados aerotransportados.

Minutos depois, chegaram ordens escritas finais assinadas por Clark:

Movam-se e ocupem o aeródromo de Pristina

Para Clark, isto sem dúvida parecia uma oportunidade audaciosa para tomar agressivamente a iniciativa. Era uma operação digna do General Patton. No terreno no entanto, Jackson, o ex-para, via cada vez mais que se estava a desenhar uma operação diferente da 2ª Guerra Mundial : esta parecia-se com a chamada operação Market Garden.

A grande chave de fendas

Jackson sabia que ainda tinha uma última chance de contestar a ordem. Em consonância com o seu caráter, as ordens de Clark continham uma restrição — nada aconteceria até que ele tivesse sido pessoalmente informado por videoconferência.

“Utilizar a grande chave de fendas” era característico de Clark, e também, de facto, dos militares dos EUA em geral.” Jackson escreveu mais tarde. “Eles sempre foram relutantes em delegar.”

Enquanto esperava que isso fosse arranjado, Jackson tentou obter permissão dos sérvios para atravessar a fronteira mais cedo. Isto foi recusado. Depois, recebeu informações atualizadas dos serviços de informações: esperava-se agora que os russos chegassem a Pristina por volta das 18:00, mas não havia também nenhuma evidência de qualquer transporte em rota vindo de Moscovo.

O mandato da ONU

Jackson ligou para o General Rupert Smith, adjunto de Clark, transmitindo as informações e expressando as suas mais profundas reservas sobre a operação. Smith concordou e apontou um outro problema — estaria fora do âmbito do mandato da ONU ao abrigo do qual a KFOR operava. Isto significava que o comandante de cada força nacional podia consultar os seus superiores, mesmo que estando no seu próprio país e com a sua permissão, declinarem participar.

Sem dúvida, dez minutos mais tarde Jackson recebeu uma mensagem apologética do comandante do contingente francês – Paris tinha-o informado que não permitiriam que a sua brigada aérea estivesse envolvida. Como notícias mais surpreendentes, o QG de Jackson então recebeu mensagem do contingente americano. Os americanos ofereceram seis helicópteros de ataque Apache, mas não permitiriam que nenhuma das suas tropas terrestres participasse. A notícia chocou a sala.

“O ponto de vista da minha equipa, incluindo os americanos ligados ao QG da KFOR, era que Washington queria que a operação acontecesse, mas não com o risco de vidas americanas.”

Jackson pediu à sua equipa para sair, desabotoou o seu crachá de patente e atirou-o para cima da mesa com nojo. Ele estava determinado a que, na conferência telefónica com Clark, iria renunciar ao posto em vez de dar a ordem para o ataque aéreo.

“Pela primeira vez nos meus quase 40 anos no exército”, escreveu ele mais tarde, “foi-me dada uma ordem que eu senti que não poderia, em princípio, aceitar.”

Felizmente para Jackson, a sua renúncia mostrou-se desnecessária. Quando a conferência telefónica começou, Clark laconicamente anunciou que Washington o tinha informado que os presidentes Clinton e Yeltsin tinham falado. Yeltsin prometeu que os russos se iriam retirar.

“Nós vamos agora esperar para ver se Yeltsin mentiu ou não ao nosso Presidente” disse Clark, antes de ordenar a Jackson que mantivesse os paras em alerta para uma ordem de ‘Avançar’.

Mais tarde, o General Smith contacta-o e discretamente informou Jackson que ele os poderia desmobilizar. A KFOR realizaria o avanço previsto originalmente às 5:00 no dia seguinte.

Compreender a Rússia

Em 1999, a Rússia estava a aproximar-se do ponto mais baixo da sua história recente. A economia estava à beira do colapso e o presidente Yeltsin, o seu primeiro presidente pós-soviético, estava a envelhecer e a ficar cada vez mais enfermo.

Na verdade, um assessor da Casa Branca confirmaria mais tarde que a conversa que Clark relatou entre os dois presidentes tinha de facto ocorrido, mas que teria sido uma das mais estranhas e incoerentes de toda a Presidência Clinton. Yeltsin pode muito bem ter prometido que os russos se retirariam, mas ele também tinha divagado incoerentemente durante algum tempo sobre como Clinton deveria juntar-se-lhe para uma reunião secreta num submarino isolado, onde eles poderiam falar livremente juntos como homens.

As crises nos Balcãs nos anos noventa colocaram em evidência ao mundo que a Rússia, pelo menos por agora, já não é uma grande potência. A primeira intervenção da ONU na fragmentação da Jugoslávia tinha sido suficientemente má para o orgulho russo, prova de que a Rússia não podia mais policiar os antigos Estados do Comintern. No entanto, a intervenção da NATO no Kosovo tinha sido simultaneamente exasperante e humilhante.

No rescaldo da fragmentação da Jugoslávia, a Rússia tinha apoiado a Sérvia e defendido a posição do seu Presidente, Slobodan Milosevic. Ao fazê-lo, foi capaz de projetar a imagem que era, pelo menos, ainda o grande protetor do Estado eslavo agora mais pequeno.

Essa imagem foi rapidamente abalada quando a NATO interveio na guerra de libertação do Kosovo contra a Sérvia. Quando a campanha aérea começou, a Rússia pegou no seu sabre e ficou ao lado do seu aliado. O governo russo ameaçou retirar-se das negociações de redução nuclear e vetar todas as resoluções do Conselho de Segurança da ONU.

“O mundo nesta década nunca esteve tão perto da guerra nuclear” disse Victor Chernomyrdin em maio. “Apelo aos líderes da NATO para mostrarem coragem e suspenderem os ataques aéreos.”

A NATO ignorou estes apelos.

“Eu senti que o mal estava a triunfar sobre o bem”

Em junho, no entanto, os serviços de segurança russos relataram que os bombardeamentos da NATO estavam a ter pouco efeito e que a coligação estava a começar a esticar a corda. Naquele mês, o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo recebeu uma mensagem por vias não oficiais do governo alemão questionando a Rússia se esta iria intervir.

O que eram os pensamentos de Yeltsin sobre o assunto permanece obscuro. A apetência do Presidente pelo poder tinha começado a desvanecer-se paralelamente à redução das suas faculdades. Para vários membros do seu governo, no entanto, parecia que poderia existir uma oportunidade para a Rússia emergir da guerra do Kosovo com algum orgulho, afinal. Significativamente, este grupo incluía o Ministro dos Negócios Estrangeiros Ivanov, o homem no comando de grande parte das suas forças do Sul — o General Ivashov – e a cabeça cada vez mais influente da organização que sucedeu ao KGB, o FSB — Vladimir Putin.

Com ou sem o conhecimento direto de Yeltsin, foi alcançado um acordo com os alemães por trás dos bastidores. A Rússia informaria Milosevic de que iriam retirar o seu apoio se não chegasse a um acordo com a NATO. A estipulação da Rússia era que a ocupação subsequente estaria sob um mandato das Nações Unidas em vez da NATO e que eles receberiam uma parte do crédito. Igualmente acreditaram que lhes tinha sido prometido que ficariam com um setor independente do Kosovo para controlar. O aviso foi devidamente enviado a Milosevic, que percebeu que o futuro estava traçado e concordou com os termos da NATO.

No entanto, quando a KFOR começou a tomar forma, tornou-se claro para os russos que as suas condições não iriam ser satisfeitas. Sem vontade de se arriscar a dividir o país ao longo de linhas étnicas, a NATO não ia conceder à Rússia a sua própria zona de controlo.

“Eu senti-me como como se fosse eu o derrotado” disse o General Ivashov mais tarde. “Esse foi o sentimento que se apossou de mim, como se eu, eu mesmo, tivesse sido derrotado. Eu senti que o mal estava a triunfar sobre o bem.”

Se a NATO não lhes desse uma zona, decidiu o grupo, então eles tentariam tomar um -começando com a apropriação do Aeroporto estrategicamente importante em Pristina. Foi então que o General Ivashov ordenou que o pequeno contingente russo na Bósnia atravessasse a fronteira.

“Comandante, KFOR”

Para os políticos e generais, as intenções russas tinham-se tornado relativamente claras no momento em que atravessaram a fronteira. O que ninguém sabia era como é que os russos estariam determinados em aplicar o seu próprio plano.

Os primeiros homens a encontrar os russos em pessoa foram os noruegueses de Forsvarets Spesialkommando. Eles testemunharam as cenas como a pequena força russa foi cumprimentada por multidões em Pristina, e depois observaram silenciosamente à distância como ocupavam o aeroporto. A 35 milhas de distância, uma coluna da KFOR, liderada pelo contingente britânico, atravessou a fronteira da Macedónia às 5:00 da manhã de sábado.

Notícias sobre isso começaram a filtrar-se até à cadeia de comando. Entretanto, o adido militar russo na Macedónia chegou de repente à fábrica de sapatos e apresentou-se ao General Jackson com uma carta. Isto confirmou que os russos tinham ocupado oficialmente o aeroporto em Pristina.

Quando ouviu as notícias, o General Clark ficou cada vez mais agitado. Estava convencido de que a presença russa em Pristina era um perigo para toda a missão da NATO.

“Porfavor, confirme”

Pouco disto era conhecido pelos soldados que avançavam no terreno. Eles estavam a ser liderados pelos Paras, que no dia anterior tinham estado prontos para atacar o aeroporto pelo ar. Agora, em vez disso, marchavam à cabeça de uma grande coluna de tropas da KFOR.

Bem, quase à cabeça. Alguns quilómetros à frente deles movimentava-se uma pequena força de escoteiros composta D Company Blues and Royals. Um dos seus elementos era o Capitão James Blunt, que tinha sido o primeiro homem a cruzar oficialmente a fronteira naquele dia. Oficial na Life Guards, Blunt juntou-se voluntariamente aos Blues e Royals para a intervenção no terreno. Desde então, eles tinham referenciado alvos aéreos no interior da fronteira durante toda a campanha aérea, antes de se retirarem para servir de força de controlo durante a entrada oficial. Era um músico apaixonado e mantinha uma guitarra dentro do seu tanque ligeiro de reconhecimento. Em 2002, ele pegaria na guitarra e deixava o exército para seguir uma carreira musical. Três anos mais tarde, editou o seu sucesso You’re Beautiful que venderia 11 milhões de cópias no mundo inteiro.

Naquele sábado de manhã, porém, Blunt tinha problemas maiores. Mais criticamente, os 200 soldados russos fortemente armados a apontarem as suas armas contra aos seus homens e ameaçando matá-los se tentassem entrar no aeroporto de Pristina.

Os Blues e Royals foram as primeiras tropas britânicas a chegar ao perímetro do aeroporto. Aí, eles encontraram os russos firmemente instalados. Os britânicos tentaram avançar. Seguiu-se um impasse imensamente tenso. A companhia D decidiu retirar-se para não muito longe e solicitar novas ordens do QG da KFOR.

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“Dominem-nos, então “

Essas novas ordens apanharam Blunt e os seus outros oficiais de surpresa — não somente porque não vinham do QG da KFOR, mas diretamente do próprio General Clark, cuja voz, de repente, ouviram no rádio.

“O comando direto [que] veio do General Wesley Clark era que os dominássemos “, disse Blunt mais tarde. “Várias outras palavras foram usadas que nos pareceram nada habituais. Palavras como ‘destruir’ ouviu-se pela rádio.”

Blunt e os seus oficiais olharam uns para os outros. A linha não era grande coisa, mas as ordens do Clark eram claras. Tomar o Aeroporto aos russos, custasse o que custasse.

Blunt olhou em volta, e viu que o custo estava aumentando a cada segundo. Um número de milicianos sérvios tinha chegado e estavam a tomar posição ao lado dos russos. Entretanto, o resto da coluna britânica estava a avançar, mas tinha sido retida em Kacinic. Aí, um general sérvio decidiu espontaneamente bloquear o desfiladeiro. A situação só tinha sido resolvida pela chegada do 1º comando dos Paras sob as ordens do comandante Adrian Free, conhecido pelos seus homens como o “irritado de Aldershot”.

“Deixem-nos passar, companheiro” disse ele com um sorriso maligno. “Vamos fazer amor com os russos.”

Os dois homens olharam um para o outro, então ambos riram. O avanço continuou.

No aeroporto de Pristina, no entanto, isto significava que, por enquanto, o número de soldados britânicos presentes ainda era limitado. Um repórter do Washington Post, sentindo a seriedade da situação, perguntou onde estavam as tropas dos EUA. Blunt sorriu.

“A transportarem a retaguarda.”

Os Royals e Blues decidiram consultar as suas chefias, na base de que a segunda parte da mensagem tinha sido ilegível. A ordem para tomar o aeroporto foi reiterada. Assim esperaram um bocado mais e então consultaram-nos calmamente outra vez.

“Vocês têm agendas políticas e estas ofuscam a realidade”, disse Blunt mais tarde. “Eles estavam a perder de vista o que nós realmente deveríamos estar a fazer — parar a agressão cometida pelos sérvios contra os albaneses”.

Esperaram um bocado mais e consultaram então as chefias outra vez. Desta vez, como Clark começou a falar, uma segunda voz interrompeu-o – era o General Jackson. Ele disse-lhes para ignorarem as ordens de Clark e de dispersarem e cercarem o aeroporto à medida que mais unidades da KFOR se tornassem disponíveis.

“Nós oferecemos uma pequena oração de agradecimento ao General Jackson” disse Blunt mais tarde numa entrevista, embora tenha confessado que os oficiais da unidade já tinham concordado que eles se recusariam a cumprir a ordem de Clark e correrem o risco de serem levados a conselho de guerra.

“Há coisas que cada um de nós faz ao longo do caminho na guerra que estão certas e há aquelas que sentimos estarem absolutamente erradas”, disse ele. “Esse sentido de julgamento moral é-nos inculcado no exército britânico.”

“Os generais não precisam de se molhar”

No sábado à noite, tinha-se instalado no aeroporto uma situação de paz instável. As tropas da KFOR cercaram o aeroporto e, através de uma pressão cuidadosa, até conseguiram fixar um ponto de apoio no extremo sul da pista.

Enquanto isso, os rumores começaram a circular no corpo de imprensa que havia uma situação em Pristina. Quando a equipa dos media da KFOR começou a pressionar Jackson para dar uma entrevista, o General percebeu que poderia matar dois coelhos com uma cajadada só. Saltando para um helicóptero, o general foi para o aeroporto.

No caminho, o tempo começou a mudar para pior. Ventos fortes e chuva a bater-nos de frente começou a dificultar os movimentos. Jackson deu a sua conferência de imprensa no extremo sul da pista. Ele tranquilizou a imprensa aí reunida que a ocupação estava a prosseguir como planeado e que não havia problemas com os russos. O facto de que os russos tenham passado o tempo da conferência de imprensa inteira a movimentarem-se com rapidez ao longo da pista atrás dele significava que a imprensa não estava inteiramente convencida, mas pelo menos por agora a situação estava acalmada.

Depois da imprensa ter dispersado, Jackson calmamente realizou a outra parte do que tinha planeado nesta visita. Aproximando-se de um sentinela russo, ele identificou-se e pediu para ser apresentado ao comandante da força russa.

Poucos minutos depois, viu-se introduzido na traseira de um veículo do comando em muito mau estado. O estado do veículo mostrava que a missão russa tinha sido lançada ainda há pouco tempo, mas o facto de nele estar o General de duas estrelas Zavarzin mostrou que os russos estavam a ser militarmente sérios.

Para começar, a conversa entre os dois homens foi formal. A chuva escorria pelo tejadilho sobre ambos os homens e equipamentos, enchendo a cabina com o cheiro de cabos elétricos queimados. Em seguida, Jackson, mandou sair o seu intérprete e passou a falar em russo fluente que ele aprendeu quando era um jovem oficial.

“Escuta”. Ele disse. “Eu costumava molhar-me como comandante da companhia, mas os generais não precisam de se molhar.”

Zavarzin riu e os dois homens saltaram para fora da carrinha e correram em direção ao destruído terminal do Aeroporto onde uma parte do telhado ainda estava intacto. Quando os dois homens se agacharam para se protegerem da chuva para conversarem, Jackson puxou de um frasco de whisky do bolso e compartilhou-o com o General.

“As relações melhoraram, depois disso”, disse Jackson mais tarde.

Bloqueando o espaço aéreo

Durante a noite e ao longo de sábado, o Departamento de Estado dos Estados Unidos trabalhou para persuadir os governos da Hungria, da Bulgária e da Roménia para obstruírem os voos militares dos russos através do seu espaço aéreo, no caso dos russos tentarem reforçar Pristina pelo ar. Eles foram bem sucedidos.

Frustrados, os russos tentaram forçar a sua sorte. Eles informaram a Roménia que um avião de transporte entraria em breve no seu espaço aéreo, com permissão ou sem ela.

“Vocês podem fazer isso.” Disse o Ministro da Defesa romeno, Victor Babuy ao Ministro dos Negócios Estrangeiros russo Ivanov pelo telefone. “Claro que seria obrigado a enviar uma aeronave para intercetar o seu avião.”

Babuy salientou que em situações assim tão tensas acontecem muitas vezes acidentes. Ele não podia garantir que o piloto por erro não matasse os russos.

“Claro que isso é um crime.” Disse Babuic, desculpando-se. “Ele seria processado segundo a nossa lei e seria mesmo enviado para a cadeia por sete anos.”

“Mas ele também poderia ser considerado um herói nacional”, acrescentou Babuic, pensativamente, depois de uma pausa.

Não foram feitas mais tentativas de reforçar o contingente russo no aeroporto.

“Eu não vou começar a terceira guerra mundial para lhe fazer a vontade”

Os esforços de Clark para atacar o aeroporto podem ter sido frustrados temporariamente, mas não foram postos em prática.

O General Jackson voltou à fábrica de sapatos mais tarde naquela noite para saber notícias sobre o sucesso do Departa<mento de Estado e para confirmar que as forças da NATO estavam agora em situação de superioridade aérea sobre o Kosovo. Com o espaço aéreo bloqueado, isso significava que as opções russas em Pristina eram agora limitadas. No entanto, Clark manteve-se claramente convencido de que os russos continuavam a ser uma ameaça.

Para seu horror, Jackson descobriu que na sua ausência Clark tentou impor uma outra tentativa no aeroporto. Desta vez ele tinha contactado Andrew Ridgway, chefe de equipa de Jackson, diretamente, e disse-lhe para utilizarem helicópteros para voar sobre a pista e bloqueá-la. Horrorizado, mas não estando disponível para ir contra uma ordem direta do alto comandante da NATO, Ridgway tinha contactado o contingente americano da KFOR e pediu-lhes para disponibilizarem helicópteros para a missão. Para seu alívio, o seu comandante tinha recusado.

Pouco antes da chegada de Jackson de volta ao QG, no entanto, o comandante americano da KFOR tinha contactado Ridgway novamente, indicando que ele iria agora – com relutância- libertar os seus helicópteros para a missão. Ridgway suspeitou que Clark, ou talvez Washington, tinha intervindo diretamente. Afortunadamente por essa altura o tempo tinha-se deteriorado outra vez e a ordem não poderia ser levada a cabo. Ridgway informou Jackson que um Clark irritado estava agora a caminho de Skopje, onde deveria chegar cedo no Domingo.

Clark chegou pouco antes 9:00 no dia seguinte. A partir do momento que ele entrou na fábrica de sapatos a situação degradou-se.

“Ele ainda parecia obcecado com os russos, e não se concentrava em nenhuma outra coisa ” escreveu Jackson mais tarde. “Clark estava convencido de que pretendiam reforçar o aeroporto.”

O QG da KFOR informou Clark sobre a situação atual: o espaço aéreo estava bloqueado para os russos, eles estavam cercados, eles não tinham abastecimentos. Jackson pôs Clark ao corrente da sua reunião com o General Zavarzin e salientou que a situação estava muito menos tensa, mas que se fossem pressionados ele não tinha dúvida de que Zavarzin e os seus homens lutariam.

O Clark ignorou-os. Ele ordenou o ataque.

Fervendo, Jackson pediu a Clark uma reunião em particular. No seu gabinete o general britânico confrontou o americano.

“Não podemos continuar nisto!” disse Jackson irritado. “Precisamos de seguir em frente. Deixe-me resolver isso com os russos!

Clark não se mexeu. Ele insistiu que a operação no aeroporto fosse em frente.

“Eu não vou fazer isso! Senhor, eu não vou fazer isso!” Gritou Jackson, muito irritado.

Jackson não podia deixar de dizer que ele se opunha ao facto de que Washington parecia pensar que poderia fazer esta guerra à distância.

“Mike, estas ordens não são ordens de Washington”, disse Clark. “são as minhas ordens.”

“Pela autoridade de quem?!” perguntou Jackson.

“Pela minha autoridade como SACEUR.”

“Você não tem essa autoridade!”

Clark sorriu e disse que tinha falado com o secretário-geral da NATO Javier Solana naquela manhã. Solana tinha-lhe dado a autoridade para fazer o que Clark sentisse que era o melhor -e para ele isto significava tomar de assalto e bloquear toda a pista.

“Senhor”, disse Jackson a Clark, formalmente, “eu não disposto a desencadear uma Terceira Guerra Mundial para lhe fazer o jeito”.

Jackson disse a um espantado Clark que iria contactar os seus superiores, e dito isto, pegou no telefone.

O último cilindro

Jackson imediatamente ligou para Sir Charles Guthrie, chefe do pessoal do Ministério da defesa britânico, e descreveu a informação no terreno e a discussão que tinha acabado de ocorrer entre ele e Clark. Jackson disse a Guthrie que renunciaria antes de ordenar um ataque ao aeroporto de Pristina.

“Pelo amor de Deus, Mike!” Guthrie disse: “não faça isso!”

Guthrie pediu a Jackson para passar o telefone a Clark.

“Devo dizer Wes,” disse Guthrie a Clark, “eu concordo com o Mike, e Hugh também.”

Isto apanhou Clark desprevenido. Hugh Shelton era o Presidente da Join Chiefs of Staff -o próprio patrão de Clark. Perturbado, Clark pediu a Jackson para sair da sala para que ele pudesse falar com Shelton diretamente.

Lá fora, Jackson parecia perdido em pensamentos.

Clark não tardou em pedir a Jackson que entrasse. Ao telefone, Shelton indicou que, enquanto Washington apoiava a ideia de bloquear as pistas, em princípio, isso não deve ser feito à custa de um confronto com os russos. Clark decidiu ignorar a segunda parte da ordem.

“Mike, você entende que como comandante da NATO eu estou a dar-lhe formalmente uma ordem legal, e que se você não aceitar essa ordem você vai ter que renunciar a sua posição e sair da cadeia de comando?”

“Sim, eu sei.”

“Okay. Estou a dar-lhe a ordem para bloquear a pista do aeródromo de Pristina. Quero isso feito. Está claro?”

Clark observou Jackson cuidadosamente. Então Jackson finalmente pareceu admitir a derrota. O general britânico concordou em dar a ordem, mas ofereceu então sua avaliação honesta – seria impossível obstruir corretamente a pista com helicópteros. Eles precisariam fazê-lo com veículos blindados. Aliviado porque as coisas estavam finalmente a mexer, Clark concordou e modificou as suas instruções.

Jackson saudou, saiu da sala, e deu a ordem.

Enquanto isso, no Kosovo…

O General Richard Dannatt, comandante da 4ª Brigada Blindada britânica no Kosovo, recebeu a ordem de Jackson para tomar as pistas e leu-a com um rosto sombrio. Os blindados eram a única unidade na KFOR capaz de realizar um tal bloqueio das pistas, mas Dannatt imediatamente reconheceu que a ordem era ridícula. Provocaria um tiroteio com os russos.

“O diabo é que faremos isso.” Dannatt disse para si mesmo.

Facilmente, de repente, ele percebeu que, como envolvia um assalto blindado, esta operação estaria fora do âmbito do mandato da ONU ao abrigo do qual a KFOR operava. Dannatt lembrou que isso significava que o comandante de cada força nacional envolvida tinha o direito de consultar com os superiores do seu país e, com sua permissão, declinar participar.

Dannatt pegou no telefone e ligou para o Ministério da defesa…

Texto original em https://medium.com/lapsed-historian/pristina-an-airport-too-far-42e010e19f12

 

Notas do Autor

A chamada de Dannatt alertou Whitehall para a seriedade da situação e, por sua recomendação, eles recusaram a permissão para que a Brigada Blindada participasse.

Alertado para os esforços contínuos de Clark em assaltar o aeroporto de Pristina, apesar das ordens, Guthrie contactou Shelton diretamente que – em termos inequívocos- ordenou a Clark para parar. Dois meses depois, foi anunciado que Clark iria sair da posição de SACEUR mais cedo.

Em 2004, Wes Clark anunciou a sua intenção de concorrer à Presidência. Pediram a opinião de Hugh Shelton e este disse aos repórteres: “Eu não votaria nele.”

Na sua autobiografia, o General Mike Jackson insiste que não sabia que Dannatt pediria permissão ao Ministério para o ataque final.

Até hoje, o General Wes Clark não acredita nele.

 

John Bull

Escritor e historiador (militar & transportes). Editor de London Reconnections and Lapsed Historian

 

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