De setembro de 2008 a setembro de 2018, uma década perdida, uma década que se quer esquecida – Narrativas sobre a incapacidade, a recusa e a desonestidade intelectual dos nossos dirigentes face aos mecanismos que levaram à crise – 3. Recessão à grande: crónica dos 10 anos de crise que mudaram o mundo. Por Claudi Pérez

3 set20082018 VENDEDOR BA BANHA DA COBRA

Uma série que tomo a liberdade de dedicar ao meu amigo jornalista João Marques que tanto tem denunciado a financeirização das economias a que temos estado a assistir e que neste momento passa por uma situação de saúde bem delicada.

Júlio Marques Mota, 17 de setembro de 2018

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Seleção de Júlio Marques Mota e tradução de Francisco Tavares

Obrigado a Claudi Pérez e a El País

3. Recessão à grande: crónica dos 10 anos de crise que mudaram o mundo. 

Claudi Pérez Por Claudi Pérez

Publicado por El Pais em 9 de setembro de 2018

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Uma empregada do Lehman Brothers na Bolsa de Nova York, 15 de setembro de 2008 / Em vídeo, cumprem-se 10 anos da queda do Lehman BrothersDAVID KARP AP

 

O 15-S de 2008 foi a versão moderna do ‘crash’ de 1929, e os seus efeitos persistem

O capitalismo sem falência é como o cristianismo sem o inferno. A destruição criativa proporcionada pelo verbo falir é uma das varinhas mágicas do sistema: vão à falência os indivíduos, vão à falência as empresas desmoronam, até os países vão à falência e, assim, supõe-se – supõe-se – que a economia se regenera, se purifica, expia os seus pecados e é capaz de seguir adiante. Essa regra de ouro é válida para todos os agentes económicos. Com uma exceção sonora: os grandes bancos, algo assim como o aparelho circulatório da economia global.

Cumprem-se 10 anos do pior momento da Grande Recessão: na única circunstância em que o sistema realmente aplicou a sua máxima – que cada um assuma a sua responsabilidade – o Tesouro dos EUA e o Federal Reserve deixaram cair o Lehman Brothers, o quarto banco de investimento norte-americano. A partir desse momento tudo parecia possível. A destruição teve muito pouco de criativa quando o medo se converteu em pânico e a capacidade autodestrutiva das finanças abalou o coração do sistema, Wall Street, e ameaçou levar tudo, absolutamente tudo à frente. O 15-S de 2008 foi, mais ou menos, a nossa versão do crack de 1929; as suas consequências continuam connosco e, de muitas maneiras, marcarão as nossas vidas para sempre.

“Nova York e o sistema financeiro: densidade, imensidão, complexidade”, escreveu este repórter com caligrafia apressada num caderno estreado no dia 15-S, em pleno momento do Lehman, em frente à sede desse banco-pesadelo e junto a um fotógrafo de um tablóide que ficou de guarda durante dias para ver se algum banqueiro acabava por se atirar da janela. Cada calamidade económica deixa uma imagem impressionante: em 1929, os executivos saltaram dos seus escritórios para o vazio; nesta crise, pelo contrário, os banqueiros das entidades falidas receberam suculentas indemnizações e o suicídio mais sonoro foi muito diferente: o de um pensionista grego condenado à miséria.

Juntamente com as imagens icónicas, cada uma das grandes crises provocou em seu dia enormes mudanças: a de 1929 e a posterior guerra mundial deram origem ao keynesianismo, uma forte regulação financeira e 30 gloriosos anos de forte crescimento; a estagflação dos anos setenta acabou com Keynes e levou à contrarrevolução conservadora. A Grande Recessão pode ser lida como um fracasso devastador do livre mercado, e mesmo assim quase nada mudou: Wall Street continua a ser “densidade, imensidão, complexidade”, os mesmos velhos vícios da economia continuam vigentes e, em qualquer caso, a crise foi um catalisador extraordinário para uma das grandes preocupações destes tempos, o aumento imparável do populismo. Talvez a falência, em suma, tenha chegado à aparentemente indestrutível democracia liberal, que durante tantas décadas desempenhou um suposto fim da história e parecia inseparável do capitalismo.

Mas que os factos falem por si mesmos, diria o grande Alejandro Bolaños, um dos mais brilhantes cronistas desta crise: as horas posteriores à falência do Lehman foram um verdadeiro caos no 745 da Sétima Avenida, a um passo do Central Park, em pleno Manhattan. “Uma confusão de limusines, unidades móveis e guardas de segurança giram em torno de dezenas de executivos recém despedidos”, pode ler-se no mencionado caderno do enviado especial estupefacto.

Não havia no mundo banqueiros mais arrogantes e implacáveis do que os do Lehman Brothers: daí a potência visual daquelas imagens, aquela fila de financeiros jovens e abatidos levando os seus pertences em caixas de papelão. O 15-S abriu a caixa de Pandora: “Estivemos extremamente perto de um colapso financeiro global”, escreveu Ben Bernanke, ex-presidente do Fed (o banco central dos EUA) e uma das principais personalidades na gestão daquele caos. A resposta foi, basicamente, não deixar cair mais ninguém: “Se não se soltava a pasta, tudo poderia ir para o inferno”, advertiu em 24 de setembro, apenas nove dias depois, um desolado George W. Bush, supostamente apóstolo do livre mercado e na época presidente dos Estados Unidos.

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O último conselheiro delegado do Lehman Brothers, Dick Fuld, é recebido por protestos de manifestantes numa comparecência ante o Senado dos EUA.JONATHAN ERNST REUTERS

 

Porque depois do Lehman, as finanças voltaram ao cristianismo sem o inferno: a gigantesca seguradora American International Group (AIG) foi nacionalizada; a Merrill Lynch, a corretora mais famosa dos EUA, evitou o colapso vendendo-se ao Bank of America (com muito dinheiro público, é claro, pelo meio); o Goldman Sachs e o Morgan Stanley, os supostos senhores do universo, tornaram-se bancos regulados pelo Fed para poderem ter acesso a garantias públicas; o pânico atingiu o mercado de fundos monetários, com uma fuga de capitais que precipitou o congelamento do mercado interbancário internacional; o maior banco de poupança dos Estados Unidos, o Washington Mutual, e o quarto maior banco do país, o Wachovia, explodiram em chamas e foram adquiridos por uma miséria pelo Estado; o secretário do Tesouro, Hank Paulson, pôs-se literalmente de joelhos perante o Congresso para ativar uma bazuca 700.000 milhões de dólares, a que se seguiram estímulos fiscais e fortes injeções de dinheiro público nos bancos em todo o mundo. Ninguém tinha visto nada parecido. Aquele trimestre do diabo, o último de 2008, esteve cheio de nacionalizações bancárias praticadas nos EUA por um governo (Bush) repleto de políticos e ideólogos neoconservadores, acérrimos inimigos da regulação e da presença do setor público na economia. O mesmo fez a Europa de Angela Merkel, que depois de salvar os bancos e depois de um breve interlúdio de keynesianismo decretou cortes e austeridade para uma Europa que esteve a ponto de rebentar o euro depois de uma gestão da crise insuperavelmente medíocre. A alguns lugares, como a Espanha, a crise chegou com atraso: a bolha imobiliária estourou em câmara lenta, mas levou por diante metade do sistema financeiro, obrigou a pedir um resgate e deixou a economia espanhola no meio de uma crise oceânica – não só económica – da qual só agora retira a cabeça, e com grande dificuldade.

Os booms especulativos e as crises têm sido recorrentes ao longo da história. Em 1630, os comerciantes holandeses pressionaram os preços de tulipas ao ponto que um bulbo chegou a valer tanto como uma casa. Um século mais tarde, a nata da sociedade inglesa participou na bolha da Companhia do South Seas (Isaac Newton: “Posso calcular o movimento de corpos celestiais, mas não a loucura das pessoas”, disse ele depois de perder até a camisa). Em 1840, a febre pelas ferrovias tomou conta do imaginário do público e terminou numa fenomenal pancada; em 1929, a bolha do mercado de ações e da terra acabou no crash de Wall Street e a Grande Depressão: às feridas económicas juntou-se a ascensão dos extremismos políticos que acabaram na Segunda Guerra Mundial – e cuidado, porque alguns historiadores fazem precisamente este paralelismo com a crise atual, e não sem motivos. Mas o último episódio é simplesmente brutal: uma super-bolha com quase 60 anos inchada à base de crédito, de dívida, onde cada vez que o sistema financeiro começava a ter problemas apareciam os bancos centrais com novas formas para estimular a economia. Essa super-bolha acabou por se escapar das mãos do sistema quando as inovações financeiras – subprime, derivados, CDO, CDS e outros jargões impossíveis – complicaram-se tanto que as autoridades já não pareciam capazes de calcular os riscos dos próprios bancos.

“Que o Senhor abençoe esta merda de fraude”, dizia um email de um executivo da Standard & Poor’s descoberto numa investigação do Congresso dos EUA para descrever essas práticas. Porque a fraude era colossal: como numa versão moderna daquele conto infantil, os grandes bancos dedicaram-se a acumular enormes quantidades de palha (empréstimos hipotecários de alto risco subscritos por pobres, imigrantes e desempregados), que giravam num tear algorítmico e industrial. e acabavam por convertê-la em ouro (títulos financeiros com a maior classificação de crédito), conforme descrito por Matt Taibi em Cleptopía. Para isso, empregavam uma técnica supostamente prodigiosa chamada securitização, que permitia – e permite: nada mudou – tirar hipotecas de alto risco e transformá-las magicamente em investimentos aparentemente tão seguros como a dívida da Microsoft ou os títulos alemães, mas mais lucrativos do que ambos.

Até que um dia essa magia se esfumou. Em setembro de 2008, tudo que poderia correr mal correu mal porque, no final, “o sistema financeiro está cheio de falsos dogmas, malentendidos e ideias equivocadas: os mercados, deixados à própria sorte, não tendem para o equilíbrio, mas antes a inflar bolhas “, disse George Soros, um dos maiores especuladores dos últimos séculos. “A relação incestuosa entre as autoridades e os seus bancos acabou explodindo”, diz Soros em La tormenta financiera. O resultado foi a crise mais grave desde a Segunda Guerra Mundial.

“Quando a música parar, as coisas complicar-se-ão. Mas enquanto a música continuar a tocar, você tem que se levantar e dançar;. por enquanto, estamos nisso”, disse em julho de 2007 Chuck Prince, então CEO do Citigroup. Em meados da década passada, o sistema criara um intrincado castelo de cartas financeiro, uma construção extremamente complexa, mas também extremamente frágil. E a música deixou de soar de repente, de surpresa, sem que praticamente nenhum economista visse o silêncio a chegar (ao ponto que se tornou célebre a pergunta da rainha da Inglaterra à nata da profissão: “Porque ninguém a viu chegar? “). O alarme não soou realmente até 9 de agosto de 2007, quando o BNP Paribas, um grande banco francês, proibiu a retirada de capital de três dos seus fundos que tinham investido em subprime, as hoje celebérrimas hipotecas lixo dos EUA. Uma vez semeada a dúvida, o mercado imobiliário dos EUA iniciou um colapso em câmara lenta: a maré começou a cair, e com ela começou a ver-se quem estava nadando nu, de acordo com a feliz imagem do investidor Warren Buffett para descrever essa bagunça.

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Um empregado do Lehman Brothers sai com os seus pertences dos escritórios da empresa em Nova York, no dia da bancarrota. JOSHUA LOTT REUTERS

 

Depois dos fundos do BNP, aquele rei nu acabou por ser o Bear Stearns, um banco de investimentos dos Estados Unidos. Os mercados começaram a sentir o cheiro de sangue, olhando para o antílope mais lento, e o Bear Stearns, começou a ter problemas de liquidez em março daquele fatídico ano de 2008. O seguinte foi pura profecia auto-cumprida: quando os mercados acreditam que algo vai acontecer, vai infalivelmente acontecer. O Bear colapsou em apenas alguns dias. O Federal Reserve procurou um comprador, o J.P. Morgan, e concordou em arcar com quase 30.000 milhões de ativos tóxicos: um resgate em toda a regra que despertou a ira dos aiatolás do risco moral. Esse resgate foi rotulado como “socialismo” pelos republicanos americanos, que nem imaginavam o que estava por vir. Depois do Bear Stearns, o Tesouro teve que gastar milhares de milhões de dólares em Fannie Mae e Freddie Mac: “A coisa mais importante era salvar-lhes a bunda”, escreveu Hank Paulson nas suas poéticas memórias. E, finalmente, a seguinte vítima: Lehman. O apocalipse quase sempre decepciona os seus profetas, mas a chuva radioativa causada pela bancarrota do Lehman foi infinitamente pior do que o esperado: depois de tentar vender a empresa a um banco coreano e ao Bank of America, o governo dos EUA e a cúpula do Lehman iniciaram um interminável romance com o grupo britânico Barclays. No final, o casamento foi por água abaixo por que o Tesouro dos Estados Unidos decidiu não acorrer ao resgate com dinheiro público: no meio de uma crise, um banco normalmente só comprar outro banco, se o governo sacar do talão de cheques, como os espanhóis puderam comprovar com o Popular No caso do Lehman, teriam sido necessários apenas 50.000 ou 60.000 milhões de dólares para evitar a falência, segundo cálculos de então de um executivo espanhol do Lehman, que mais tarde se tornou ministro e até mesmo banqueiro central europeu.

Mas não: não houve resgate do Lehman. Pelo abençoado risco moral. Porque se supunha que o banco estava menos interligado ao sistema financeiro internacional do que outras entidades. E porque seis meses após o Bear também se supunha (o condicional é quase sempre uma manobra de distração quando se trata de bancos) que os mercados “tinham tido tempo suficiente para se prepararem”, disse Bernanke perante o Congresso dos EUA.

O erro de cálculo foi enorme. O mercado tinha-se feito à ideia de que ninguém ia falir: os investidores acreditavam que os Estados não permitiriam isso. Esse relato ficou em fanicos com o Lehman Brothers. Mas o citado que cada um assuma a sua responsabilidade durou apenas algumas horas: os resgates voltaram quase imediatamente. Tanto fazia; então, a confiança já se havia derretido como açúcar. O resto é história: além das consequências nos EUA, a crise tornou-se global com o Lehman. O caos não se limitou aos Estados Unidos. Aos poucos chegou o Fortis, o Dexia, o Hypo, os bancos irlandeses, a Islândia: os governos, por necessidade, intervieram da única maneira possível para minimizar os danos imediatos, garantindo efetivamente todo o risco. Os mais débeis quebraram. Na zona do euro, ainda hoje mal equipada para as crises, os parceiros do euro viram-se forçados a resgatar meia dúzia de estados arrastados pelo seu sistema financeiro (exceto no caso grego, a única crise orçamental que não foi causada pela banca, mas por um majestoso défice maquilhado durante décadas).

A tempestade perfeita durou até meados de outubro de 2008: até que os ministros das Finanças do G7 e do G20 assumiram um compromisso inequívoco para evitar a falência das instituições financeiras sistémicas. Não mais Lehmans, era o slogan: em última instância, apesar do triunfo dos apóstolos do livre mercado, apenas a intervenção decisiva e globalmente coordenada dos governos e bancos centrais impediu o pânico. Apesar disso, os paradigmas pouco ou nada mudaram nas águas tempestuosas da política económica: as frases mágicas preferidas das autoridades na Europa eram e são austeridade expansiva (seja lá o que for) e reformas estruturais. Os americanos leram melhor Keynes e política orçamental e foram mais ousados com a política monetária. A Europa sofreu muito mais: o BCE chegou atrasado e Berlim impôs uma camisa de forças orçamental que prolongou muito a crise.

Tim Geithner, ex-secretário do Tesouro, aponta no seu resumo da Grande Recessão que a incerteza “está no centro das crises financeiras”. “E as crises não terminam sem que os governos assumam os riscos que os investidores privados não querem, tirando a catástrofe de cima da mesa.” As crises financeiras são crises de confiança quando um país não consegue pagar a sua dívida ou um banco não pode devolver os depósitos. “Quando o medo se transforma em pânico, acabou”, diz Geithner; “a única solução, nesses casos, é o setor público assumir riscos”. E foi isso que os governos (no G20) e os bancos centrais fizeram, especialmente nos EUA.

Os Estados Unidos aplicaram a doutrina Geithner do parágrafo anterior. Mas apesar desse ativismo, a Grande Recessão tornou-se uma transcrição da Metamorfose de Kafka. Foi uma crise de mil faces: financeira, económica, social, dívida, americana, europeia, de emprego, política, imigratória, de todos os tipos. Para a deter, os líderes mundiais prometeram pouco menos que uma refundação do capitalismo; a prioridade era pôr um freio ao sistema financeiro. E neste ponto é quase obrigatório lembrar Philip Marlowe, o famoso detetive dos romances policiais de Raymond Chandler, que depois de flertar com uma mulher belíssima, chega a um ponto em que diz para si mesmo: “O passo seguinte era evidente, assim que não o dei”. Não houve tal refundação: “O atual sistema financeiro é tão perigoso e frágil como o que levou à crise”, disse Martin Hellwig do Instituto Max Planck. Rilke admirava a subtileza do mar, capaz de criar continentes, recuando. Mas a banca não sabe retirar-se, e nem os governos, nem os supervisores, nem os reguladores conseguiram que essa retirada aconteça. “Toda a construção intelectual” do mercado livre, das expectativas racionais e dos mercados perfeitos “afundou-se”, reconheceu Alan Greenspan, o todo-poderoso ex-presidente do Fed.

E ninguém pôs um guizo no gato: o lobby financeiro (nada menos que 2.000 especialistas em Washington e quase 1.500 em Bruxelas, nem menos) impediu a reforma real das finanças. Os resgates eram a estratégia correta no curto prazo e a estratégia errada a longo prazo: os Estados Unidos e a Europa tentaram fortalecer as reservas de liquidez e capital, e tentaram fazer o banco pagar pelos seus excessos, mas o resultado final é limitado; sem esperança. Não houve reforma autêntica: “O próximo passo era evidente, assim que não o dei”, dizia Marlowe.

O Lehman, um provedor de serviços financeiros desnecessários mal gerido, representa o tipo de negócio que deveria fracassar numa economia de mercado que funcione bem, mas o Lehman pode acontecer novamente: “Os bancos internacionais estão insuficientemente capitalizados e excessivamente endividados. Os banqueiros continuam a cobrar bônus enormes e injustificados. Os bancos centrais continuam a conceder-lhes grandes somas de dinheiro a juros baixos. O contribuinte continua a ser o acionista de último recurso dos bancos “, denuncia John Kay em The Money of Others, um livro imprescindível no qual justifica “a ira do cidadão contra os banqueiros e os políticos que os protegeram” e prevê “outra grande crise financeira, porque nada mudou“.

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E assim é: nada (ou pouco) mudou. Os grandes especialistas destes tempos em que os economistas são tão necessários – porque, segundo Raj Patel, a Grande Recessão “foi a forma de ensinar ao mundo um pouco de economia”, mas o mundo tão pouco parece ter aprendido muito – defendem que o Lehman foi “mais uma tragédia do que um deslize”, diz Martin Wolf em The Great Crisis. O modelo de negócios do Lehman era exatamente o mesmo da grande banca atual: empregar o mínimo possível de recursos próprios; investir em ativos de alto risco; prometer um alto retorno sobre recursos próprios não ajustado ao risco; vincular os salários a benefícios de curto prazo; assegurar-se de que o contribuinte pagará a fatura em caso de catástrofe; enriquecer rapidamente e o máximo que puder. Esse é o maravilhoso negócio dos banqueiros.

A solução parece clara: mais capital e recurso próprios, mais liquidez, mais controle de riscos, mais supervisão, melhor regulamentação. Os economistas coincidem nisto. Mas não há como colocar o ditoso guizo ao gato: “A capacidade do sistema financeiro de gerar complexidade e fragilidade supera qualquer extremo em termos de seu escopo, escala e velocidade. Explosões e bolhas são formidáveis nos bons tempos (confiança excessiva, que acaba em dívidas e dívidas muito grandes, juntamente com comportamentos obscuros ou abertamente ilegais) e implosões nos maus tempos (pânicos, rompimentos de crédito, busca de bodes expiatórios) Eu não acho que haja perigo iminente, mas sinto-me desconfortável: a regulação financeira não foi suficientemente reforçada e a próxima crise está à espera, perturbadora, algures “, adverte Paul De Grauwe da London School.

Charles Wyplosz, do Graduate Institute, adverte que “os bancos, grandes e pequenos, devem poder ir à falência, e no entanto a melhoria da regulamentação não impediu que os bancos continuem a meter-se em apuros até extremos insuspeitos e que os supervisores não saibam o que fazer.” Jean Pisani-Ferry, ex-conselheiro de Emmanuel Macron, acredita que o Lehman “permitiu melhorar as regras mais do que parece”, mas ainda assim adverte que “a incrível expansão do sistema financeiro não foi domesticada, o banco continua atraindo demasiados recursos”. e oferecendo salários ridiculamente altos, e para culminar há sinais mais do que preocupantes e ninguém se dá por achado “

Alguns dos grandes vilões destas crises foram os responsáveis máximos dos bancos envolvidos. James Cayne, do Bear Stearns, era “um executivo indolente, fumador de maconha, que prestava mais atenção ao bridge do que ao seu banco” (E a música parou, genial livro de Alan Blinder, de Princeton). E Dick Fuld, o chefe do Lehman, era “um homem intensamente competitivo e enxuto, com olhos fundos e temperamento instável” (A coragem de agir de Bernanke). “Eu acordo todas as noites pensando sobre o que eu poderia ter feito diferente. Que poderia ter feito, que poderia ter dito? Eu olhei para mim todas as noites: olho para trás no tempo, mas eu acho que tomei essas decisões com as informações que tinha”, disse Fuld no seu testemunho choroso perante o Comité de Supervisão da Câmara dos Representantes, em 6 de outubro de 2008.

Este humilde editor retratou Fuld como um tipo “arrogante, estúpido e mentecapto” noutro dos seus cadernos, desta vez num daqueles concílios de Davos anterior à crise. Fuld recentemente quebrou um silêncio que dura há anos e, numa conferência em Manhattan, ele explicou que a economia não funciona tão bem como os mercados (com Wall Street, novamente, em máximos históricos) parecem sugerir. Naquele discurso diante de centenas de banqueiros, Fuld não expressou o mínimo mea culpa; pelo contrário, ele chegou a dizer que o Lehman poderia ter sido salvo com um pouco de cooperação das autoridades. Mas ele deixou um aviso aos navegadores: “Sei que ninguém quer ouvir isto e muito menos se eu disser, mas os ricos estão a ficar cada vez mais ricos e, novamente, o coração da economia está a ficar doente. Sou um capitalista incondicional, mas vamos ser justos: o capitalismo só funciona se a riqueza for criada no topo e depois se filtrar para baixo. Se a riqueza não cair, haverá problemas “. Não, não é Karl Marx. Nem mesmo Thomas Piketty. É Dick Fuld, apelidado de o Gorila, o tipo que quando levou à falência o Lehman Brothers estava a ganhar US $ 17.000 por hora. Sim, o capitalismo sem falência é como o cristianismo sem inferno; Mas essa frase não se aplica a pessoas como Fuld.

Por causa de tipos como Fuld, em algum momento daquele outono de há 10 anos atrás, a civilização parecia ter chegado ao fim, uma vez mais. Mas sempre teremos Paul Auster: “Parecia que o mundo estava prestes a acabar, mas não acabou”.

Texto original em   https://elpais.com/economia/2018/09/07/actualidad/1536333092_303809.html

 

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