A crítica demolidora de Michael Pettis à teoria e à política económica neoliberal – 1. A China e a História dos modelos de crescimento dos Estados Unidos (3ª parte-conclusão). Por Michael Pettis

egoista

Seleção e tradução por Júlio Marques Mota

1. A China e a História dos modelos de crescimento dos Estados Unidos (3ª parte-conclusão).

Por Michael Pettis michael pettis

Editado por Yves Smith em 15 de fevereiro de 2013 em https://www.nakedcapitalism.com/2013/02/pettis-china-and-the-history-of-us-growth-models.html (publicado de MacroBusiness)

[Nota: este artigo veio a ser republicado por Michael Pettis em 28 de fevereiro de 2017 no sítio Carnegie Michael Pettis http://carnegieendowment.org/chinafinancialmarkets/68128]

 

Um adequado sistema financeiro nacional

O terceiro pilar do sistema americano foi a criação de um sistema financeiro adequado. Mas o que é que isso significa? É difícil descrever o sistema financeiro americano no século XIX como estável e em bom funcionamento. Na verdade, o sistema bancário americano era caótico, propenso a crises, mal gerido, e muitas vezes gerido de forma fraudulenta, e ainda assim os Estados Unidos cresceram muito rapidamente durante esse tempo.

O sistema bancário da China, por outro lado, é muito mais estável – na verdade a expressão favorita dos banqueiros chineses é que, se é verdade que o sistema pode não ser eficiente, não é menos verdade que é muito estável. O que torna o sistema bancário chinês estável, é claro, é que é largamente aceite que o governo está totalmente por detrás dos bancos. Por outras palavras, não faz nenhuma diferença de quão fraca é a decisão de alocação de crédito, porque controlando o crédito e a taxa de depósito, e limitando as alternativas para os aforradores chineses, o governo garante tanto a liquidez como a solvência do sistema bancário. Enquanto a credibilidade do governo estiver intacta, o sistema bancário é improvável que falhe.

Nesse sentido, pode-se facilmente considerar que os bancos chineses hoje são mais sólidos do que os bancos americanos no século XIX. Isto pode ser um bom presságio para o futuro do sistema financeiro a curto prazo, mas, a longo prazo, não está claro para mim que a solidez monetária e a estabilidade financeira estejam necessariamente correlacionadas com um crescimento mais rápido.

Digo isso porque não vi nenhuma evidência de que países com sistemas financeiros sólidos e conservadores crescem mais rápido do que países com sistemas financeiros mais frouxos e mais arriscados (embora pareçam ter menos crises financeiras). Na verdade, mais de uma vez tenho feito referência ao comentário provocador e profundo do historiador sobre o sistema bancário belga, Raymond de Roover, que nos diz que “talvez se pudesse dizer que a banca imprudente, embora tenha causado muitas perdas aos credores, acelerou o desenvolvimento económico dos Estados Unidos Estados, enquanto a banca prudente do Canadá pode ter retardado o desenvolvimento económico do Canadá “. O Canadá foi abençoado (ou amaldiçoado, de acordo com de Roover) no século XIX, sendo parte da Grã-Bretanha, e assim herdou o sistema financeiro inglês que era muito melhor gerido que o dos Estados Unidos.

A imprudência bancária é difícil de definir. Certamente é fácil considerar que a banca chinesa tem sido imprudente, especialmente nos últimos anos, mas é de um tipo muito diferente de imprudência que se estaria agora a falar. Mais uma vez eu não posso dizer com total confiança em que medida a versão chinesa de modelo de desenvolvimento difere significativamente do sistema americano no que se refere à banca, mas sugeriria que há pelo menos duas diferenças muito importantes.

Primeiramente, o sistema financeiro americano então (e agora) foi muito bom em fornecer o dinheiro aos novos e arriscados empreendimentos. Ele fornece capital com base não só no valor dos ativos, mas, sobretudo, com base nas expectativas de crescimento futuro, e a tomada de risco tem sido ativamente recompensada. Na China não é nada claro que tenha sido assim. Os bancos chineses favorecem os grandes, bem conectados e muitas vezes ineficientes gigantes à custa dos tomadores de risco.

Em segundo lugar, embora ambos os sistemas tenham sido propensos a empréstimos de má qualidade, o sistema bancário americano tendia a corrigir muito rapidamente -sob a forma de uma crise – e os empréstimos de má qualidade foram amortizados e liquidados quase que imediatamente. Isso foi certamente doloroso em termos de curto-prazo -especialmente se se tratava de um depositante no banco afetado – mas com a amortização de empréstimos de má qualidade e a liquidação de ativos três objetivos importantes foram alcançados. Os custos do mal-estar ao nível financeiro foram rapidamente eliminados (a eliminação da dívida faz-se de várias maneiras nas quais não vou entrar porque são bem conhecidas e muito discutidas na teoria das finanças empresariais), a alocação de capital foi impulsionada pela rentabilidade, não por garantias implícitas; e os ativos regressaram à utilidade económica rapidamente.

Um exemplo clássico de os ativos regressarem à utilidade económica rapidamente é a resposta à bolha das ferrovias dos anos 1860. Durante e depois da crise de 1873, um número de vias férreas foram à falência, nomeadamente linhas importantes como Union Pacific e Northern Pacific, tendo esta deitado abaixo a Jay Cooke & Company, o principal financiador do governo dos Estados Unidos durante a guerra civil. Após a crise, alguns dos títulos mais importantes de linhas ferroviárias foram transacionados a 15–20 por cento do seu valor facial original, e foram comprados e reorganizados com enormes descontos. Os novos compradores puderam, consequentemente, cortar dramaticamente os custos de mercadorias e passageiros, em alguns casos em mais de 50%, ainda que ganhando o suficiente para cobrir os custos da compra das linhas férreas. Isto levou a um colapso dos custos de transporte nos Estados Unidos.

Por outras palavras, a liquidação constitui um importante valor económico para a economia. Ela permite que os ativos sejam reavaliados, o que cria um impulso para a economia e impede que esses ativos funcionem como um peso morto na economia. Dito de outro modo, se as linhas de caminho-de-ferro não tivessem sido liquidadas qualquer redução nos custos seria provavelmente mínima e as linhas de caminho de ferro teriam sido muito menos úteis para o desenvolvimento da economia dos EUA.

Comparando modelos de desenvolvimento

Este artigo já vai longo, e eu penso escrever sobre isto muito mais no futuro, mas por agora eu acho que faz sentido resumir alguns dos pontos importantes sobre o sistema americano e outros modelos de crescimento semelhantes, como, por exemplo, a versão chinesa.

  1. A proteção da indústria nascente funcionou para promover o desenvolvimento a longo prazo em determinadas condições e não funcionou noutras condições. Gostaria de argumentar que a principal diferença é que, no primeiro caso, havia forças poderosas que dirigiam a gestão e a inovação tecnológica assim como o rápido crescimento em eficiência.

No caso americano a força especial parece ter sido uma brutal concorrência interna. Se a China quer beneficiar da sua própria proteção da indústria nascente, é importante que haja uns dinamizadores internos similares no que diz respeito à inovação e à eficiência. Note-se que o acesso ao capital barato não pode ser esse dinamizador, embora seja uma das principais fontes da competitividade chinesa. O acesso ao capital barato é apenas outra forma de proteger as indústrias nascentes da concorrência estrangeira.

  1. Cada país que se tornou de forma sustentada num país rico teve um investimento significativo do governo nas infraestruturas, mas não é verdade cada país que teve um investimento significativo pela parte do governo nas infraestruturas se tenha tornado de forma sustentada num país rico. Pelo contrário, há muitos casos de países com níveis extraordinariamente elevados de investimento em infraestruturas que cresceram durante um período e depois falharam.

Eu diria que a diferença é quase certamente a extensão da má afetação de capital. Em alguns países, foi muito mais fácil para os decisores políticos conduzirem as despesas de capital, e nesses países parece ter sido relativamente fácil desperdiçar investimentos. Se este é o caso em China, como eu penso que é, a questão chave para China é controlar a sua despesa e desenvolver um modo alternativo e melhor de alocar o capital.

A questão é que existe um limite natural para as despesas com infra-estruturas, e este limite é frequentemente imposto por distorções institucionais na economia de mercado. Quando este limite natural é atingido, mais investimento em infraestruturas pode ser destruidor de riqueza, e não promotor de riqueza, caso em que é muito melhor reduzir o investimento e concentrarmo-nos na redução das limitações institucionais para a utilização mais produtiva do capital, tais como a fraca governança empresarial e um quadro jurídico fraco. O ritmo dos investimentos em infraestruturas não pode exceder o ritmo da reforma institucional por muito tempo sem que o investimento se venha a transformar ele mesmo num problema.

  1. Qualquer economia que procura alcançar um crescimento sustentável a longo prazo tem que ter um sistema financeiro “bom” que aloca o capital eficientemente e recompensa o nível correto de tomada de risco. É difícil determinar quais são as características de um “bom” sistema financeiro, mas não devemos apressar-nos a assumir que isso tem a ver com a estabilidade.

Além do mais, embora, obviamente, o processo de alocação de capital seja de vital importância, gostaria também de sugerir que a liquidação de empréstimos de má qualidade é de igual importância. Empréstimos de má qualidade, como o Japão nos mostrou nas últimas duas décadas, pode tornar-se num impedimento sério para o crescimento, em parte, porque o mal-estar financeiro distorce os incentivos de gestão na forma amplamente compreendida e descrita na teoria das finanças empresariais e, em parte, porque retardam o processo pelo qual o mau investimento é absorvido pela economia.

  1. Uma coisa que eu não discuti acima é o papel dos salários. O sistema americano foi desenvolvido em oposição à teoria económica então dominante de Adam Smith e David Ricardo, em parte porque a teoria económica britânica clássica parecia implicar que as reduções nos salários eram positivas para o crescimento económico, fazendo com que a produção se torne mais competitiva nos mercados internacionais. Contudo, o foco principal do sistema americano era explicar quais as políticas que os Estados Unidos, com os seus salários muito mais elevados do que na Europa naquele tempo, tiveram que engendrar para gerar o crescimento rápido. Sustentar altos salários, de facto, tornou-se um dos aspetos fundamentais do sistema americano.

A versão japonesa deste modelo de desenvolvimento, bem como muitas das várias versões implementadas noutros países ao longo do século XX, partilhou a sua visão dos salários não com o sistema americano, mas sim com a teoria económica clássica britânica. Ao invés de tomar medidas para forçar os salários a subir e a mantê-los elevados – levando tanto ao crescimento da produtividade como à criação de um grande mercado de consumo interno para os produtores americanos – muitas das versões posteriores do sistema americano procuraram reprimir o crescimento do rendimento no agregado familiar em relação à produção total como forma de melhorar a competitividade internacional. Esta é talvez a principal razão pela qual os Estados Unidos, ao contrário de muitos outros países que implementaram estratégias de desenvolvimento semelhantes no século XX, tendiam a ter grandes défices da balança corrente durante grande parte do século XIX.

Este foco diferente sobre se os salários elevados devem ser incentivados ou desencorajados é talvez, penso eu – embora muito pouco discutido na literatura teórica, tanto quanto eu sei – a diferença mais importante entre o modelo de desenvolvimento americano e os seus muitos descendentes nos séculos XX e XXI. Diria mesmo que, embora não possa prová-lo, que uma consequência desta diferença é que o crescimento da procura tende a ser mais sustentável quando há um crescimento equilibrado entre consumo e investimento.

Ao analisar o crescimento da China nas últimas três décadas, parecemos esquecer que houve muitos chamados “milagres” do crescimento nos últimos 200 anos. Alguns foram sustentáveis e levaram ao estatuto de país desenvolvido, mas muitos, se não a maioria, foram finalmente insustentáveis. Quase todas as várias versões tiveram algumas características semelhantes – a mais óbvia é a proteção da indústria nascente, o investimento conduzido pelo Estado em infraestruturas, e um sistema financeiro que favoreceu desproporcionadamente os produtores à custa dos aforradores. Mas a forma como estas características atuaram foram muito diferentes, em grande parte porque a estrutura institucional da economia e do sector financeiro criaram um conjunto de incentivos muito diferentes.

Eu argumentaria que para compreender o crescimento de China e a sua sustentabilidade nós precisamos de ter uma compreensão bem clara das razões que levaram a que estas características tenham funcionado nalguns casos e não noutros. A maioria dos economistas que centram a sua atenção sobre a China parecem saber pouco sobre história económica, e quando o fazem, o seu conhecimento tende a ser limitado a uma compreensão muito superficial da história económica dos Estados Unidos. Mas há muitos precedentes para o que está a acontecer na China e nem todos sugerem que a continuação do crescimento chinês seja inevitável.

Pelo contrário, os precedentes históricos deviam preocupar-nos. Na maioria dos casos sugerem que a China tem um ajustamento muito difícil à frente dela e os paralelos mais próximos das suas décadas de crescimento milagroso sugerem resultados desfavoráveis. Compreender porque razão o modelo de crescimento foi bem sucedido em alguns (poucos) casos e falhou na maioria deles ajudar-nos-á enormemente a compreender as perspetivas possíveis da China.

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