De setembro de 2008 a setembro de 2018, uma década perdida, uma década que se quer esquecida – Narrativas sobre a incapacidade, a recusa e a desonestidade intelectual dos nossos dirigentes face aos mecanismos que levaram à crise – 4. A gestação de uma recessão a rebentar por volta de 2020 e a crise financeira. Por Nouriel Roubini e Brunello Rosa

3 set20082018 VENDEDOR BA BANHA DA COBRA

Uma série que tomo a liberdade de dedicar ao meu amigo jornalista João Marques que tanto tem denunciado a financeirização das economias a que temos estado a assistir e que neste momento passa por uma situação de saúde bem delicada.

Júlio Marques Mota, 17 de setembro de 2018

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

4. A gestação de uma recessão a rebentar por volta de 2020 e a crise financeira

Roubini Nouriel por Nouriel Roubini e Brunello Rosa Brunello Rosa

Publicado por Project syndicate em 13 de Setembro, 2018

4 A gestação de uma recessão 1

Embora a economia global tenha atravessado um período sustentado de crescimento sincronizado, ela irá inevitavelmente perder o vapor quando as atuais políticas orçamentais insustentáveis nos EUA começarem a desaparecer gradualmente. Com a chegada ao ano de 2020, o palco estará preparado para outra recessão – e, ao contrário de 2008, os governos não terão as ferramentas de política económica para a poderem combater.

 

Nova York – Quando comemoramos o 10º aniversário do colapso do Lehman Brothers, ainda há debates em curso sobre as causas e as consequências da crise financeira, e se as lições necessárias para se estar preparado para a próxima crise foram aprendidas. Mas olhando para a frente, a questão mais relevante é realmente saber o que irá desencadear a próxima recessão global e a crise, e quando é que esta irá rebentar.

A expansão global atual continuará provavelmente a verificar-se no próximo ano, dado que os EUA estão a praticar grandes défices orçamentais, a China está a prosseguir nas suas políticas fiscais e de crédito flexíveis e a Europa permanece num caminho de recuperação. Mas por volta de 2020, as condições estarão maduras para uma crise financeira, seguida de uma recessão global.

Há dez razões para isso.

Em primeiro lugar, as políticas de estímulo orçamental que estão atualmente a sustentar a taxa anual de crescimento dos EUA acima do seu potencial de 2% são insustentáveis. Por volta de 2020, este tipo de estímulos à economia vai acabar, e um modesto efeito de repercussão vai conduzir o crescimento de 3% para ligeiramente abaixo de 2%.

Em segundo lugar, porque o estímulo foi mal cronometrado, a economia dos EUA está agora sobreaquecida e a inflação está a subir acima da meta desejada. A Reserva Federal dos EUA continuará assim a aumentar a taxa de fundos federais do seu atual valor de 2% para pelo menos 3,5% por volta de 2020, e isso provavelmente irá levar a que aumentem as taxas de juro de curto e longo prazo assim como o valor do dólar americano.

Entretanto, a inflação também está a aumentar noutras economias-chave e o aumento dos preços do petróleo estão a acrescentar pressões inflacionárias adicionais. Isso significa que os outros grandes bancos centrais seguirão o Fed para a normalização da política monetária, o que reduzirá a liquidez global e colocará pressão ascendente sobre as taxas de juros.

Em terceiro lugar, as disputas comerciais da administração Trump com a China, a Europa, o México, o Canadá e outros irão quase certamente evoluir em escalada, levando a um crescimento mais lento e a uma inflação mais elevada.

Em quarto lugar, outras políticas americanas irão continuar a adicionar pressão do tipo estagflacionário, levando o Fed a aumentar ainda mais as taxas de juros. A administração está a restringir o investimento interno/externo e as transferências tecnológicas, que irão perturbar as cadeias globais da oferta. E está a restringir os imigrantes que são necessários para manter o crescimento à medida que a população americana está a envelhecer. E está a desencorajar os investimentos na economia verde. E ao mesmo tempo não tem uma política de infraestruturas para abordar os estrangulamentos do lado da oferta.

Em quinto lugar, o crescimento no resto do mundo provavelmente irá abrandar – e tanto mais quanto os outros países considerarem ser oportuno a retaliação contra o protecionismo dos EUA. A China deverá travar o seu crescimento para enfrentar o seu excesso de capacidade de produção e alavancagem; caso contrário, uma aterragem forçada poderá ser desencadeada. E os mercados emergentes, já frágeis, continuarão a sentir os efeitos do protecionismo e da maior restritividade das condições monetárias nos EUA.

Em sexto lugar, a Europa, também, terá um crescimento mais lento, devido à política monetária restritiva e às fricções comerciais. Além disso, as políticas populistas em países como a Itália podem conduzir a uma dinâmica de dívida insustentável na zona euro. O círculo vicioso ainda não resolvido entre governos e bancos que possuem dívida pública irá amplificar os problemas existenciais de uma União Monetária incompleta com uma inadequada partilha de riscos. Nestas condições, outra recessão global poderia levar a Itália e outros países a sair da zona euro em conjunto.

Em sétimo lugar, os EUA e os mercados de capitais globais são movediços. Os rácios cotação dos títulos relativamente aos lucro por título (ratio Price-to-earnings ) nos EUA. são 50% acima da média histórica, as valorizações de capital privado tornaram-se excessivas, e os títulos da dívida pública são muito caros, dado o seu baixo rendimento e dada a existência de um prémio a prazo negativo. E o crédito de alto rendimento está também a tornar-se cada vez mais caro, agora que a taxa de alavancagem das grandes empresas americanas atingiu níveis historicamente altos.

Além disso, a alavancagem em muitos mercados emergentes e nalgumas economias avançadas é claramente excessiva. Os bens imobiliários comerciais e residenciais são demasiado caros em muitas partes do mundo. A correção do mercado emergente em ações, matérias-primas, commodities, e em títulos de rendimento fixo continuará à medida que as nuvens globais de tempestade se tornam cada vez mais ameaçadoras. E como os investidores virados para o futuro começam a antecipar uma diminuição do crescimento em 2020, os mercados irão reavaliar os preços de ativos de risco por volta de 2019.

Em oitavo lugar, uma vez que uma correção ocorra, o risco de falta de liquidez e corrida às vendas sob pressão e a preço de saldo ou o risco de subcobertura tornar-se-ão mais severas. As atividades das instituições ditas criadores de mercado reduzir-se-ão assim como as atividades de armazenagem efetuadas pelos operadores nos mercados financeiros. A excessiva negociação em alta frequência/negociação por algoritmos irá aumentar a probabilidade de “repentinas mas profundas quebras de preços nos títulos da Bolsa”. E os instrumentos de rendimento fixo tornaram-se mais concentrados em fundos ditos ETF, em fundos mútuos e em fundos de crédito.

No caso de uma situação de alto risco, os mercados emergentes e os setores financeiros de economia avançada com massivos passivos expressos em dólares deixarão de ter acesso ao Fed como financiador de última instância. Com a inflação a aumentar e com a política de normalização em curso, o apoio que os bancos centrais forneceram durante os anos pós-crise não pode mais ser dado como garantido.

Nono, Trump já estava a atacar o Fed quando a taxa de crescimento atingiu recentemente 4%. Basta pensar em como é que ele se vai comportar no ano eleitoral de 2020, quando o crescimento provavelmente terá caído abaixo de 1% e as perdas de emprego começarem a aparecer. A tentação de Trump “de andar às voltas” criando uma crise de política externa será alta, especialmente se os democratas reconquistarem a Câmara dos Representantes este ano.

Como Trump já iniciou uma guerra comercial com a China e não ousaria atacar a Coreia do Norte com armas nucleares, o seu último alvo seria o Irão. Ao provocar um confronto militar com aquele país, ele desencadearia um choque geopolítico estagflacionário não diferente dos picos de preços do petróleo de 1973, 1979 e 1990. É desnecessário dizer que isso tornaria ainda mais grave a recessão global que se aproxima.

Finalmente, uma vez que a tempestade perfeita acima descrita ocorra, as ferramentas políticas para lidar com a situação de crise serão extremamente insuficientes para não dizer que não estarão mesmo disponíveis. O espaço para estímulo fiscal já está limitado pela enorme dívida pública. A possibilidade de mais políticas monetárias não convencionais será limitada por balanços inflacionados e pela falta de espaço para reduzir as taxas de juros. E os resgates do setor financeiro serão intoleráveis em países com movimentos populistas ressurgentes e com governos quase insolventes.

Especificamente nos EUA, os legisladores restringiram a capacidade do Fed de fornecer liquidez a instituições financeiras não bancárias e estrangeiras com passivos denominados em dólares. E na Europa, a ascensão de partidos populistas está a dificultar quer a implementação de reformas ao nível da UE quer a criação das instituições necessárias para combater a próxima crise financeira e a recessão.

Ao contrário de 2008, quando os governos tinham as ferramentas políticas necessárias para evitar uma queda livre, os responsáveis políticos que terão de enfrentar a próxima crise terão as suas mãos atadas, enquanto os níveis gerais da dívida estão mais altos do que durante a crise anterior. Quando aparecer, a próxima crise e a recessão podem ser ainda mais graves e prolongadas do que a última crise e a sua consequente recessão.

 

The Makings of a 2020 Recession and Financial Crisis, disponível em https://www.project-syndicate.org/commentary/financial-crisis-in-2020-worse-than-2008-by-nouriel-roubini-and-brunello-rosa-2018-09

 

Nouriel Roubini, professor na NYU’s Stern School of Business e CEO de Roubini Macro Associates, foi economista sémior para assuntos internacionais no Conselho de Assessores Económicos da Casa Branca durante a administração the Clinton. Trabalhou para o fundo Monetário Internacional, para a Reserva Federal dos EUA e para o Banco Mundial.

Brunello Rosa é co-fundador e CEO de Rosa & Roubini Associates, e investigador associado no Systemic Risk Centre da London School of Economics.

 

 

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