“OS VOLÁTEIS DO BEATO ANGÉLICO”, DE ANTONIO TABUCCHI

 

Os voláteis do Beato Angélico, de Antonio Tabucchi, é uma colectânea de textos curtos que tinham sido publicados separadamente em diversas revistas. Chamou-lhes ele” quase-contos”, “estilhaços à deriva, sobreviventes de um todo que nunca existiu”.

Todos interessantíssimos, fixo-me no último “Último convite”, que aborda o tema do suicídio. E termina de uma forma que nos mostra bem como apreendeu a nossa cultura, depois de aqui ter vivido tantos anos, aqui se ter naturalizado em 2004, aqui ter falecido (24.09.1943- 25.03.2012).

“ Sobre as ouras formas de suicídio, por questão de brevidade, não me pronunciarei. Mas antes de terminar, pelo menos uma, por um mínimo de correcção em relação a toda uma cultura, tenho de nomear.  É uma forma peculiar e subtil, requer treino, constância, pertinácia. É a morte por Saudade, em princípio uma categoria de espírito, mas também uma atitude que se pode também aprender se se tiver boa vontade. Desde sempre a municipalidade de Lisboa colocou assentos públicos em lugares eleitos da cidade: os cais do porto, os miradouros, os jardins dos quais se avista a linha do mar. muitas são as pessoas que neles se sentam. Em silêncio, olhando ao longe. Que estão a fazer? Estão a praticar a Saudade. Tentem imitá-las É claro que é uma via difícil de percorrer, os efeitos não são imediatos, por vezes é preciso esperar mesmo muitos anos. Mas a morte, é sabido, também disso se faz.”

Antonio Tabucchi é considerado como um dos maiores escritores italianos contemporâneos. Nasceu na província de Pisa, a 24 de Setembro de 1943. Foi nos anos 60 que conheceu a obra de Fernando Pessoa. Foi amor à primeira vista. De Pessoa passou a amar Portugal. Vivendo aqui deu aulas de Português e traduziu o nosso escritor para a sua língua natal. Afirmava que sonhava em português.

Foi autor de uma trintena de livros (romances, contos, ensaios, peças de teatro), traduzidos e admirados em várias línguas. Alguns deles foram adaptados ao palco ou ao grande ecrã. Entre outras obras, Antonio Tabucchi escreveu uma comédia teatral sobre Pessoa.

Recebeu vários prémios: Prémio Médicis, Prémio Campiello, Prémio da Associação Europeia de Jornalistas – Tabucchi foi ainda candidato ao Prémio Príncipe das Astúrias e estava sempre na lista de candidatos ao Nobel da Literatura.

“Pequenos equívocos sem importância”, “Une baule pieno di gente”, “Os últimos três dias de Fernando Pessoa”, “A cabeça perdida de Damasceno Monteiro” e “Está a fazer-se cada vez mais tarde” são outros títulos do autor.

Além de “O fio do Horizonte”, outras obras de Tabucchi foram adaptadas ao cinema, como “Nocturno Indiano” (1989) “Afirma Pereira” (1995), cujo protagonista foi Marcello Mastroianni, “Requiem” (1998) e “Dama de Porto Pim” (2001).

Em Portugal, não era o estrangeiro. Pelo contrário, tomou partido: Apoiou Mário Soares, foi candidato do Bloco de Esquerda nas eleições europeias. Teve muitos amigos entre os “grandes” da nossa cultura: Alexandre O’Neill, José Cardoso Pires, Fernando Lopes.

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