A crítica demolidora de Michael Pettis à teoria e à política económica neoliberal – 2. Relatório sobre a indústria transformadora (extratos – 2ª parte). Por Alexander Hamilton

egoista

Seleção de Júlio Marques Mota e tradução de Francisco Tavares

2. Relatório sobre a indústria transformadora (extratos, publicado por ConText.montpelier.org[1]) – 2ª parte

Alexander Hamilton Por Alexander Hamilton, em 5 de dezembro de 1791

(…)

I – Quanto à divisão do trabalho

Tem sido justamente observado que não há praticamente nada de maior importância na economia de uma nação do que a divisão adequada do trabalho. A separação do trabalho em geral por profissões faz com que cada uma delas seja levada a uma perfeição muito maior do que poderia possivelmente conseguir se estivessem misturadas. Isto surge principalmente devido a três circunstâncias.

  1. A maior competência profissional e destreza resultam naturalmente de uma aplicação constante e indivisa a um único objeto. É evidente que estas propriedades devem aumentar mais em proporção da divisão e simplificação dos objetos e da firmeza da atenção dedicada a cada um deles, e menos em proporção da complexidade dos objetos e do número sobre os quais a atenção se concentra.
  2. A economia do tempo-evitando a perda devida à transição frequente de uma operação a outra de uma natureza diferente. Isso depende de várias circunstâncias — a própria transição — da disposição ordenada dos meios, máquinas e materiais empregados na operação a ser renunciada — os passos preparatórios para o início de uma nova produção — a interrupção dos impulsos que a mente do trabalhador adquire ao estar envolvido e empenhado numa operação específica – as distrações, as hesitações e as reticências que são admissíveis como normais na passagem de um tipo de atividade a outra.
  3. Uma extensão da utilização das máquinas. Um homem ocupado num único tipo de produção terá mais capacidade de produção e será mais naturalmente levado a exercer a sua imaginação na elaboração de métodos para facilitar e articular as suas tarefas de trabalho do que se ele estivesse envolvido numa variedade de operações independentes e diferentes. Para além disso, a fabricação de máquinas, em numerosos casos tornando-se ela própria uma atividade distinta, o artista que acompanha a sua produção tem todas as vantagens que acima foram enumeradas para a melhoria na sua arte particular; e em ambos os sentidos a invenção e a aplicação da maquinaria são alargadas.

E destas causas ligadas, a simples separação da ocupação do cultivador da do artífice tem o efeito de aumentar a capacidade produtiva do trabalho e, com isso, aumenta a massa total do produto ou de receita de um país. Desse ponto de vista sobre este tema, portanto, é evidente a utilidade dos artesãos ou dos fabricantes em promoverem o aumento da capacidade produtiva da indústria.

II – Quanto à extensão na utilização das máquinas, um ponto que, embora em parte previsto, requer que sejam aqui expostas uma ou duas notas adicionais.

O emprego de máquinas constitui um item de grande importância no conjunto geral da indústria nacional. Isto é, trata-se de uma força artificial que funciona como uma ajuda à força natural do homem e, para todos os objetivos do trabalho, corresponde a um aumento de mãos; é uma junção de capacidades produtivas que não vem sobrecarregar a despesa da utilização do trabalhador. Será que não se pode, por conseguinte, honestamente inferir que as profissões que mais possibilidades têm de utilizar este meio de produção auxiliar são as que mais contribuem para a massa geral de esforços produtivos e, consequentemente, para o produto geral da indústria?

Deve ser dado como certo, e a verdade da posição a que se refere a observação, que as atividades da indústria transformadora são suscetíveis de um maior grau de utilização de máquinas do que as atividades praticadas na agricultura. Se assim é, toda a diferença é perdida para uma comunidade que compra os tecidos de que necessita a outros países, em vez de os fabricar para si mesma. A substituição dos produtos produzidos no espaço nacional por produtos de produção externa, é uma transferência para as outras nações das vantagens que se acumulam com o emprego da maquinaria, nos modos em que esta é possível de ser utilizada com muito maior produtividade e numa maior escala de produção e de produtos.

O moinho de algodão [2], inventado em Inglaterra nestes últimos vinte anos, é uma ilustração do sinal da proposição geral que acabámos de afirmar. Em consequência disso, todos os diferentes processos de fiação de algodão são executados por meio de máquinas, que são postas em funcionamento pelo movimento da água e com as quais trabalham principalmente mulheres e crianças; e isto por um número menor de pessoas, no seu todo, do que são necessários no modo até aqui normal de fiação. E é uma vantagem de grande importância que as operações deste moinho continuem sem perturbação tanto durante a noite como durante o dia. O efeito prodigioso de tal máquina é facilmente concebível. A esta invenção deve ser atribuída essencialmente o imenso progresso que foi feito tão repentinamente na Grã-Bretanha na produção dos vários tecidos do algodão.

III – Emprego adicional para grupos da sociedade não habitualmente ligados ao mundo empresarial.

Isto não é um dos meios menos valiosos com que as unidades fabris contribuem para aumentar o valor geral da produção produzida pela indústria. Em lugares onde essas instituições prevalecem, além das pessoas que se empregam regularmente nelas, estas unidades fabris proporcionam ainda emprego ocasional e extra a indivíduos e a famílias trabalhadoras que estejam dispostos a abdicar do lazer resultante das pausas nas suas atividades normais para fazerem trabalhos colaterais como um recurso para aumentar os seus rendimentos, o seu poder de compra ou os seus prazeres. O próprio agricultor experimenta uma nova fonte de rendimentos e apoio com o trabalho acrescido da sua esposa e filhas, convidadas e estimuladas pela procura de fábricas vizinhas.

Além desta vantagem do emprego ocasional às classes que têm ocupações diferentes, há uma outra e de uma natureza que lhe está ligada e de uma tendência similar. Isto é, trata-se do emprego de pessoas que de outra forma estariam sem trabalho (e em muitos casos a serem um fardo para a comunidade), quer a partir de problemas ou de doenças de temperamentos, hábitos, doenças físicas, ou de qualquer outra causa, ficando não disponíveis ou desqualificadas para as labutas do país.

É digno de observação particular que, em geral, as mulheres e as crianças se tornam mais úteis e estas últimas até se tornam úteis mais cedo nestes estabelecimentos fabris do que o seriam de outra forma. Sobre o número de pessoas empregadas nas fábricas da Grã-Bretanha que trabalham com o algodão, é calculado que quase 4/7 são mulheres e crianças, das quais a maior proporção são as crianças e muitos delas de uma muito tenra idade.

E assim parece que um dos atributos da indústria transformadora, e de consequências que não são pequenas, é dar origem a que se criem novas unidades fabris, até mesmo para o mesmo número de pessoas, onde estas existem, do que existiria se não houvesse tais unidades fabris.

IV – Quanto ao fomento da emigração vinda de outros países.

Os homens relutantemente deixam um tipo de ocupação profissional e de subsistência por um outro, a menos que a isso sejam estimulados por vantagens muito evidentes e próximas. Muitos iriam de um país para outro, se tivessem uma perspetiva de ganharem mais benefícios a utilizar as suas capacidades de trabalho para os quais foram educados e muitas vezes não serão tentados a mudar a sua situação, pela falta de esperança de conseguirem ficar em melhor situação, de alguma outra forma.

Os fabricantes que andam à procura de melhores possibilidades de um preço melhor para os seus tecidos ou para a sua mão-de-obra, ou para se poderem abastecer a preços mais baixos no que precisam para a sua indústria operar, ou para obterem uma isenção de grande parte dos impostos, encargos e restrições que ainda permanecem vindas do antigo regime, que pretendem alcançar uma maior independência pessoal e das consequências de trabalharem sob um governo mais igualitário, o que é muito mais precioso do que uma simples tolerância religiosa – uma perfeita igualdade de privilégios religiosos- provavelmente afluiriam, vindos da Europa para os Estados Unidos, para continuarem a trabalhar nos suas próprias atividades comerciais ou profissões, se eles estivessem sempre cientes de alcançarem os benefícios que eles gostariam de usufruir, e se eles fossem motivados por uma segurança no apoio governamental para a obtenção de um emprego, sendo certo que estes mais dificilmente se deslocariam para os Estados Unidos para se tornarem agricultores.

Se isto é verdade, então, é do interesse dos Estados Unidos abrir todos os caminhos possíveis para a emigração vinda de outros países, o que oferece um forte argumento a favor da indústria transformadora que, pelas razões acima referidas, terá então uma forte tendência a multiplicar os incentivos à emigração.

Aqui é perceptível um recurso importante, não somente para aumentar a população e com ela o trabalho útil e produtivo do país, mas do mesmo modo para a prossecução e desenvolvimento da indústria transformadora sem deduzir o número de trabalhadores que poderiam, de outro modo, ser atraídas pelo trabalho na terra e até mesmo para compensar a agricultura da quantidade de trabalhadores que se deslocou para a indústria transformadora. Muitos daqueles que a indústria transformadora incitaria a emigrar, cederiam depois às tentações que a situação particular deste país oferece à agricultura. E enquanto a agricultura, relativamente a outros aspetos, receberia claramente muitos sinais e vantagens como resultado do crescimento da indústria transformadora, o problema que subsiste é o de saber se a agricultura iria ganhar ou perder quanto ao número de pessoas empregadas na exploração dos solos.

V – Quanto ao proporcionar um leque mais vasto de atividades no sentido de melhor aproveitar uma maior diversidade de talentos e de características que diferenciam os homens uns dos outros.

Este é um meio muito mais poderoso de aumentar a base da indústria nacional do que pode à primeira vista parecer. É uma observação justa que as pessoas mais brilhantes e mais ativas pelos seus próprios objetivos caiem abaixo da mediocridade e de um trabalho inútil se ficam confinadas a práticas desagradáveis. E é daí que pode ser deduzido que os resultados do esforço humano podem ser imensamente aumentados pela diversificação dos seus objetivos. Quando todos os tipos diferentes de indústrias estão presentes numa comunidade, cada indivíduo pode encontrar um trabalho que lhe esteja mais adequado e pode aplicar-se com todo o vigor da sua natureza. E a comunidade surge beneficiada pelos serviços dos seus respetivos membros na maneira em que cada um pode servi-la com o maior impacto.

Se há qualquer coisa numa observação que frequentemente deve ser respeitada, a saber, que há no talento das pessoas deste país uma aptidão peculiar para as inovações mecânicas, isto significa que esse talento funciona como razão forçosa para criar oportunidades para o exercício dessa multiplicidade de talentos pela propagação das manufaturas.

VI – Quanto ao proporcionar um espaço mais amplo e mais diversificado para as empresas

À escala geral do esforço nacional, isto também é de maior importância do que talvez se possa considerar à primeira vista e tem efeitos que não são muito diferentes dos que foram acima enunciados. Valorizar e estimular a atividade da mente humana multiplicando o objeto das empresas e dos seus produtos está entre os meios mais relevantes através dos quais a riqueza de uma nação pode ser aumentada. Mesmo as coisas que em si mesmas não sejam positivamente vantajosas, por vezes, podem tornar-se vantajosas pela sua tendência a aumentar o empenho das pessoas. Cada novo cenário que é aberto à natureza do homem em estar desperto para o mundo e exercer a sua criatividade representa a adição de uma nova energia à capacidade produtiva geral da respetiva sociedade.

O espírito da empresa, útil e prolífico como ele é, deve necessariamente contrair-se ou expandir-se na proporção da simplicidade ou da variedade das profissões e produções que estão a ser realizadas numa sociedade. Deve ser menos assim numa nação de simples cultivadores do que numa nação de cultivadores e comerciantes, deve ser menos assim numa nação de cultivadores e comerciantes do que numa nação de cultivadores, artesãos e comerciantes.

(continua)

Texto disponível em https://context.montpelier.org/document/860#passage-65

 

Notas

[1] Relatório completo em https://founders.archives.gov/documents/Hamilton/01-10-02-0001-0007

[2] Nota do tradutor. Segundo a Wikipédia: “Um moinho de algodão é um estabelecimento de fiação e maquinaria para tecelagem. O algodão era o principal setor na Revolução Industrial, enquanto a fiação de algodão era mecanizada em moinhos”

 

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