FRATERNIZAR – Todos os anos no início de Novembro -MORRER: O FIM OU A PLENITUDE DA VIDA? – por MÁRIO DE OLIVEIRA + nota do director do JORNAL FRATERNIZAR sobre a carta aberta do padre HÉRMINO FERREIRA ao bispo de BRAGANÇA/MIRANDA

 

Todos os anos, no início de Novembro, os cemitérios enchem-se de gente de preto vestida, ar compungido, e de flores, muitas e caras flores, numa espécie de orgia sexual a céu aberto. Que a morte e o sexo são inseparáveis. Há sexo, porque há morte. Mas no demente dizer dos clérigos, os dias são dos “santos” e dos “defuntos”. E as pessoas são tantas no primeiro dos dois, que quase se atropelam umas às outras. É ver para crer, toda aquela feira de vaidades, de lágrimas-faz-de-conta, de pai-nossos-e-avé-marias papagueados pelas “almas” dos mortos. Num automatismo despersonalizador e triste.

O mais desconcertante é que não está ninguém nos cemitérios, à excepção das pessoas que, por razões de ofício, de vício, ou para evitar as críticas de vizinhos-linguareiros, lá entram com mais ou menos frequência. E não há igrejas nem universidades que esclareçam as pessoas. Nos cemitérios estão apenas os jazigos de família. Mas dentro deles não está ninguém. Pelo que é um disparate de todo o tamanho construir jazigos de família e, para cúmulo, ocupar-se deles. Como se eles fossem a última morada dos que morrem, quando não há última morada para ninguém.

A mim, ninguém me lá vê. Nem no início de cada mês de Novembro, nem nos outros dias do ano. Ocupo-me dos vivos que vejo e não dos mortos que, depois dos respectivos cadáveres serem cremados ou sepultados, não vejo. Aliás, os cadáveres dos que morrem são apenas isso, cadáveres. E quem diz cadáveres, diz coisas. Enterrar os cadáveres dos que morrem é um serviço que cada família deve assumir por inteiro. Em vez de o entregar a estranhos, a troco de dinheiro. Como são todos os funcinários das agências funerárias e os párocos ou pastores das religiões. Quem cuida dos seus familiares doentes ou acidentados, idosos ou não, deve também cuidar dos cadáveres que todos deixam, ao morrer. Cientes, porém, de que os cadáveres já não são mais as pessoas que antes cuidamos. São apenas coisas definitivamente desprovidas do sopro irrepetível e único que cada uma, cada um de nós é na história. Rapidamente viodegradáveis e destinados à terra, no seu sentido mais amplo, Terra-chão, terra-rio, terra-mar ou terra-montanha.

Nem párocos, nem pastores de religiões, nem agências funerárias devem fazer o que, por direito e dever, cabe aos familiares e amigos dos que morrem fazer. O Mercado tudo faz para se apoderar de nós, enquanto vivemos na história e muito mais quando morremos. Cumpre-nos resistir-lhe. Só assim somos. Ninguém melhor do que os nossos familiares e amigos sabe como há-de lidar com os cadáveres que deixamos, quando entregamos ao mundo o nosso derradeiro Sopro. A vida não pára, só porque um familiar ou amigo nosso morre. Pelo contrário, a vida aumenta de intensidade e de qualidade. Porque, quando entregamos o nosso derradeiro Sopro tornamo-nos Corpo-Sopro, por isso, definitivamente invisível. A morte não é o fim da vida. É a sua plenitude. Por isso, mais do que o parto de uma criança, havemos de viver intensamente a morte de cada familiar e cada amigo nosso. É o momento em que cada um de nós chega à plenitude da vida.

Igrejas e religiões, com suas ideologias-teologias, comuns às do Sistema de Poder, é que nos levam a olhar para a morte como o fim da vida, quando ela é a sua plenitude. Como o rio que chega ao mar e se funde com ele. Sem jamais perder a sua identidade. O Eu-sou que cada uma, cada um de nós é, atinge a sua plenitude no momento de morrer. Ao passar da condição de visibilidade para a de invisibilidade, não deixamos de ser quem somos. Prosseguimos, mas invisíveis aos olhos, como tudo o que é essencial. Ousemos, pois, encarar a morte como a plenitude do nossso ser-viver na história. Se o fizermos, vivemos cada dia a crescer de dentro para fora, não em Ter, mas em Ser. Porque este alcança sua plenitude, quando morremos. Daí que quem vive para crescer em Ter é insensato.

N. D.

Congratulem-se com o JF, que há razões para isso. A CARTA ABERTA de Pe. Hérmino Ferreira, Diocese de Bragança-Miranda, divulgada como DESTAQUE, da Edição 141, na última semana de Outubro 2018, e, três dias depois, também no Blog A VIAGEM DOS ARGONANUTAS, como Texto Fraternizar, surtiu o desejado efeito. Menos de uma semana depois, na tarde do dia 31 de Outubro, o Bispo D. José Cordeiro, acompanhado pelo seu secretário particular, dirigiu-se pessoalmente à casa onde Pe. Hérmino reside com uma irmã de sangue, para se encontrar cara a cara com ele. Na conversa referiu-se expressamente à Carta Aberta, divulgada pelo JF e pediu-lhe que apresente uma proposta concreta de actividade pastoral na diocese, que ele com gosto o nomeará oficialmente. Cabe agora ao Pe. Hérmino a liberdade de escolher que actividade pastoral quer assumir e realizar, de acordo com a sua própria consciência. Pessoalmente, congratulo-me com este resultado, prova provada de que outra coisa não quero, como presbítero-jornalista da Igreja do Porto, senão que seja feita justiça a quem na igreja como na sociedade se sente injustiçado. Quanto a mim, estou bem com a minha condição de presbítero-jornalista da Igreja do Porto, mesmo sem nomeação diocesana, uma vez que não é a nomeação episcopal que me faz ser o que sou por vocação, desde o ventre de minha mãe, Ti Maria do Grilo, jornaleira. Congratulem-se, pois, comigo, com o Pe. Hérmino e com o JF. Entretanto, há ainda uma grave situação, referida na Carta Aberta, que continua por esclarecer. Concretamente, O que é feito dos mais de dois milhões de euro da Caritas diocesana?!

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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