UM NOVO OLHAR SOBRE FREUD por Clara Castilho

“Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo” é um livro de Elisabeth Roudinesco, editado em português pela Zahar.

A partir de novos arquivos abertos pela Biblioteca do Congresso em Washington, Elisabeth Roudinesco reconstitui a vida de Freud através das intensas relações que ele manteve com seus mestres e discípulos, familiares e amigos, além dos pacientes. E fornece novos insights sobre a vida do homem que modificou para sempre nossa visão da humanidade e da cultura: rectifica crenças arraigadas, corrige erros históricos, ressalta precisões biográficas, propõe interpretações.

Freud surge ao longo das páginas como um verdadeiro turbilhão: construindo sua época e sendo construído por ela; amando e odiando intensamente; tocando a todos com sua palavra salutar e sua desconstrução das ilusões.

O livro, dividido em quatro partes, narra a vida de um homem ambicioso, oriundo de uma antiga linhagem de negociantes da Galícia oriental, que se dá ao luxo, em uma época de esfacelamento dos impérios centrais, Primeira Guerra Mundial, crise económica, triunfo do nazismo, de ser um observador atento da espécie animal, um dinamitador das certezas da consciência, mas, também e acima de tudo talvez, um desconstrutor do judaísmo e das identidades comunitárias, aferrado tanto à tradição dos trágicos gregos como à herança do teatro shakespeariano.

A pesquisa meticulosa de Roudinesco revela um Freud que constrói sua época ao mesmo tempo em que é construído por ela: um Freud intenso, que toca a todos com sua palavra salutar e sua desconstrução das ilusões.

O minucioso trabalho de 592 páginas de Roudinesco é reivindicado como a primeira biografia francesa do personagem, com uma nova abordagem e distanciamento de um Freud definido como um “conservador rebelde” e criador de uma “revolução simbólica” em um movimento que se perpetua. O livro divide-se em quatro partes: “Vida de Freud; Freud, a conquista; Freud na intimidade; e Freud, últimos tempos”,

Diz a introdução:

“Um homem só morre efectivamente, dizia Jorge Luís Borges, depois que o último homem que o conheceu morre também. É, hoje, o caso de Freud, embora ainda existam algumas raras pessoas que puderam aproximar-se dele quando crianças. Freud passou a vida a escrever e, embora um dia tenha destruído documentos de trabalho e cartas a fim de complicar a tarefa de seus futuros biógrafos, dedicou tamanha paixão ao indício, à arqueologia e à memória que o que foi perdido nada é em comparação ao que foi preservado.

Em se tratando de tal destino, o historiador vê-se confrontado com um excesso de arquivos e, consequentemente, com uma pluralidade infinita de interpretações. Além de cerca de vinte obras de fôlego, e mais de trezentos artigos, Freud deixou um verdadeiro manancial de anotações, rascunhos, agendas, dedicatórias e observações nos volumes de sua imensa biblioteca, actualmente no Freud Museum de Londres. Teria redigido aproximadamente 20 mil cartas, das quais apenas metade subsiste.  A maioria delas encontra-se hoje publicada em francês, ou, quando não, em vias de estabelecimento em alemão. A isso acrescentam-se intervenções e entrevistas de grande riqueza realizadas por Kurt Eissler, psicanalista emigrado de Viena para Nova York, bem como textos relativos a cerca de sessenta pacientes agora identificados, porém, em grande parte, pouco conhecidos. Traduzidas em meia centena de línguas, as obras de Freud caíram em domínio público em 200 e o essencial de seus arquivos acha-se doravante acessível no departamento de manuscritos da Biblioteca do Congresso de Washington (BCW), após trinta anos de polémicas e batalhas virulentas. Documentos variados também podem ser consultados no Freud Museum de Viena”.

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